A escarlatina é uma doença infeciosa bacteriana que tem vindo a registar um aumento de casos em Portugal e em toda a Europa nos últimos anos, preocupando especialmente pais de crianças em idade escolar. Causada pelo estreptococo do grupo A, caracteriza-se por uma tríade de sintomas muito característica: febre alta, dor de garganta intensa e um exantema vermelho-escarlate inconfundível que dá nome à doença.
Embora seja considerada uma doença relativamente comum da infância, a escarlatina não deve ser subestimada. Sem tratamento adequado com antibióticos, pode originar complicações sérias como a febre reumática — que pode afetar permanentemente o coração — ou problemas renais. O reconhecimento precoce dos sintomas é, por isso, fundamental.
Neste guia completo, elaborado com base nas orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS), do SNS 24 e da Organização Mundial da Saúde (OMS), explicamos em detalhe os sintomas, causas, diagnóstico e tratamento da escarlatina.
Aviso médico: Este conteúdo é meramente informativo e educativo. Não substitui uma consulta médica, não estabelece diagnósticos nem prescreve tratamentos. Se suspeita que o seu filho ou familiar tem escarlatina, consulte o médico assistente ou contacte o SNS 24 pelo telefone 808 24 24 24. Em caso de emergência, ligue 112.
O Que É a Escarlatina e Porque Ocorre
A escarlatina (do latim scarlatina, relacionado com a cor escarlate) é uma doença infeciosa bacteriana causada por determinadas estirpes do Streptococcus pyogenes, também conhecido como estreptococo beta-hemolítico do grupo A. Esta bactéria produz toxinas eritrogénicas — substâncias que provocam a característica erupção cutânea vermelha generalizada que define a doença.
A doença é mais frequente em crianças entre os 5 e os 15 anos de idade, sendo rara antes dos 3 anos e em adultos, embora possa ocorrer em qualquer idade. Tem uma distribuição global, mas tende a manifestar-se com maior frequência nos meses de outono, inverno e primavera — épocas em que as infeções respiratórias são mais comuns e o contacto próximo entre crianças em ambiente escolar aumenta a probabilidade de transmissão.
Streptococcus do Grupo A: O Agente Causador
O estreptococo do grupo A é uma bactéria extremamente frequente que pode causar desde infeções ligeiras da garganta (faringite estreptocócica) até doenças mais graves como escarlatina, fascite necrotizante e síndrome de choque tóxico. A escarlatina surge quando a estirpe infetante produz uma ou mais toxinas eritrogénicas — também chamadas toxinas pirogénicas — às quais o sistema imunitário da pessoa ainda não tem anticorpos.
Esta particularidade explica porque uma criança pode ter escarlatina mais do que uma vez ao longo da vida (embora seja raro): a imunidade adquirida é específica para cada tipo de toxina, e existem vários tipos.
Escarlatina vs Amigdalite Estreptocócica: Qual a Diferença?
A amigdalite estreptocócica e a escarlatina são causadas pela mesma bactéria. A diferença está na capacidade da estirpe infetante de produzir toxinas eritrogénicas. Quando a estirpe de estreptococo não produz esta toxina — ou quando o sistema imunitário da pessoa já tem anticorpos contra ela —, a infeção manifesta-se apenas como amigdalite ou faringite. Quando a toxina é produzida e não há imunidade prévia, desenvolve-se a escarlatina com o exantema característico.
Da mesma forma, a faringite por estreptococo sem exantema é tratada de forma idêntica à escarlatina: com antibióticos para eliminar a bactéria e prevenir complicações.
Como Reconhecer os Sintomas de Escarlatina?
O quadro clínico da escarlatina é bastante característico e permite, na maioria dos casos, uma suspeita diagnóstica antes mesmo de qualquer exame laboratorial. Os sintomas instalam-se de forma súbita, ao contrário de muitas infeções virais que têm um início mais gradual.
Os Primeiros Sinais de Escarlatina
Os primeiros sinais surgem habitualmente entre 2 e 4 dias após o contágio (período de incubação) e incluem:
- Febre alta — frequentemente acima de 38,5°C e por vezes até 40°C, de instalação súbita
- Dor de garganta intensa — com dificuldade em engolir, garganta muito vermelha e, em muitos casos, exsudado branco ou amarelado nas amígdalas
- Gânglios cervicais inchados e dolorosos — os “nódulos” do pescoço ficam aumentados e sensíveis ao toque
- Mal-estar geral, fadiga e falta de apetite
- Náuseas e vómitos — particularmente frequentes em crianças mais novas, podendo ocorrer antes do aparecimento do exantema
- Dor de cabeça e, ocasionalmente, dores abdominais
O exantema (erupção cutânea) aparece tipicamente 12 a 48 horas após o início dos sintomas — não é, portanto, o primeiro sinal da doença.
O Exantema Escarlatiniforme: Como Identificar
O exantema da escarlatina é um dos mais característicos da medicina e tem várias particularidades que facilitam o reconhecimento:
- Cor e textura: Vermelho-escarlate, com pontilhado fino e denso. Ao toque, tem uma textura áspera, comparada a lixa ou pele de galinha
- Distribuição: Começa tipicamente no pescoço, axilas e virilhas, expandindo-se rapidamente para o tronco e depois para os membros
- Sinal de Filatov (palidez perioral): a zona em redor da boca — lábios e queixo — mantém-se notavelmente pálida, em contraste com o rubor generalizado do restante rosto
- Sinal de Pastia: nas pregas naturais do corpo (cotovelos, axilas, virilhas), as linhas de pressão ficam mais marcadas e avermelhadas
- Evolução: O exantema dura 5 a 7 dias. Ao desaparecer, a pele começa a descamar — processo chamado descamação furfurácea — que se pode prolongar por 2 a 3 semanas, especialmente nas palmas das mãos e plantas dos pés
Língua de Framboesa: Um Sinal Característico
A língua é um dos elementos mais úteis no diagnóstico clínico de escarlatina. Nos primeiros dias, a língua apresenta uma camada branca esbranquiçada com papilas vermelhas salientes — chamada “língua em morango branco”. Entre o 3.º e o 5.º dia, esta camada descama e revela a chamada “língua de framboesa” (ou língua em morango vermelho): vermelha, brilhante, com papilas muito proeminentes. Este sinal, embora não exclusivo da escarlatina, é muito sugestivo da doença quando associado aos restantes sintomas.
Sintomas de Escarlatina em Crianças vs Adultos
| Sintoma | Crianças (5-15 anos) | Adultos |
|---|---|---|
| Febre | Alta, súbita (>39°C frequente) | Moderada a alta |
| Dor de garganta | Intensa, com amígdalas inflamadas | Intensa |
| Exantema escarlatiniforme | Clássico, bem definido | Presente, pode ser menos marcado |
| Língua de framboesa | Frequente e característica | Presente, menos valorizada |
| Náuseas/Vómitos | Muito frequentes | Menos frequentes |
| Gânglios cervicais | Muito aumentados | Aumentados |
| Dores abdominais | Frequentes | Raras |
| Duração sem antibiótico | 1-2 semanas com risco de complicações | 1-2 semanas com risco de complicações |
Sintomas de Escarlatina em Bebés
Em bebés com menos de 1 ano, a escarlatina é rara, pois os anticorpos maternos transmitidos durante a gravidez e o aleitamento conferem proteção temporária. Quando ocorre nesta faixa etária, os sintomas são habitualmente atípicos: o exantema pode ser menos pronunciado ou ausente, e os sinais dominantes são irritabilidade, choro persistente, febre e recusa alimentar. Por este motivo, o diagnóstico pode ser mais difícil e requer avaliação pediátrica urgente.
Causas e Formas de Transmissão
Como Se Transmite a Escarlatina?
A escarlatina transmite-se principalmente por via respiratória, através de gotículas de saliva e muco expelidas ao tossir, espirrar ou falar. O contacto direto com secreções da garganta de uma pessoa infetada — por exemplo, ao partilhar utensílios, copos ou ao beijar — também pode transmitir a bactéria.
O período de incubação (tempo entre o contágio e o aparecimento dos sintomas) é geralmente de 2 a 4 dias, podendo chegar a 7 dias. Ambientes de grande proximidade — salas de aula, infantários, campos de férias — favorecem a propagação.
Importa notar que o estreptococo do grupo A pode estar presente na garganta de pessoas assintomáticas (portadores) que, ainda assim, podem transmitir a bactéria sem apresentarem qualquer sintoma de doença.
Escarlatina vs Varicela: Como Distinguir?
A confusão com a varicela é frequente, pois ambas as doenças provocam erupção cutânea em crianças. No entanto, existem diferenças claras que permitem distingui-las:
| Característica | Escarlatina | Varicela |
|---|---|---|
| Agente | Bactéria (Streptococcus grupo A) | Vírus (varicela-zóster) |
| Erupção | Difusa, vermelha, textura áspera, sem vesículas | Vesículas (bolhinhas) com líquido, em vários estádios |
| Início da erupção | Pescoço, axilas, virilhas | Cabeça/tronco, propaga-se para membros |
| Prurido (comichão) | Leve a ausente | Intenso, muito característico |
| Face | Palidez perioral (à volta da boca) | Erupção inclui a face |
| Dor de garganta | Intensa e proeminente | Pode estar ausente ou ser ligeira |
| Febre | Alta, súbita | Moderada, gradual |
| Tratamento | Antibiótico obrigatório | Antiviral (em casos selecionados); sintomático |
Se tiver dúvidas sobre sintomas de pele na criança, o nosso artigo sobre sintomas de varicela pode ajudá-lo a comparar os dois quadros clínicos com mais detalhe.
Escarlatina vs Alergias: Como Diferenciar?
As reações alérgicas da pele — como a urticária ou certas formas de dermatite atópica — também podem provocar erupções cutâneas vermelhas que, à primeira vista, confundem os pais. As diferenças fundamentais estão na presença de febre alta e dor de garganta intensa na escarlatina (ausentes nas alergias), na textura característica do exantema escarlatiniforme (áspero, sem comichão intensa) e no contexto — exposição prévia a uma criança com estreptococo, ambiente escolar ou familiar com casos conhecidos.
Diagnóstico e Tratamento
Como o Médico Diagnostica a Escarlatina
O diagnóstico de escarlatina é essencialmente clínico — feito pelo médico através da observação dos sintomas e da realização de um exame físico. A identificação do exantema escarlatiniforme, da língua de framboesa, da palidez perioral e da amigdalite num contexto febril agudo permite uma suspeita diagnóstica com elevada confiança.
Para confirmar a presença do estreptococo do grupo A, o médico pode realizar:
- Teste rápido de antigénio estreptocócico (exame de garganta “rápido”): resultado em 5 a 10 minutos, com elevada especificidade
- Cultura de exsudado faríngeo: exame laboratorial mais definitivo, com resultado em 24 a 48 horas; reservado para casos em que o teste rápido é negativo mas a suspeita clínica persiste
Não são necessários exames de sangue no diagnóstico inicial de escarlatina não complicada, embora possam ser pedidos se houver suspeita de complicações.
Tratamento da Escarlatina
O tratamento da escarlatina é feito com antibióticos, que têm um duplo objetivo: resolver a infeção mais rapidamente e prevenir complicações (febre reumática, glomerulonefrite). O estreptococo do grupo A mantém sensibilidade à penicilina, pelo que o tratamento de primeira linha continua a ser:
- Amoxicilina oral durante 10 dias (crianças e adultos)
- Penicilina V oral durante 10 dias (alternativa)
- Amoxicilina + ácido clavulânico em casos com infeção mais complexa
- Azitromicina ou eritromicina em caso de alergia à penicilina (apenas se prescrito pelo médico)
É fundamental completar o ciclo completo de antibiótico — mesmo que a criança melhore significativamente ao 2.º ou 3.º dia. Interromper o tratamento prematuramente aumenta o risco de complicações e de resistência bacteriana.
Para alívio dos sintomas, o médico pode também recomendar paracetamol ou ibuprofeno para controlo da febre e da dor, e líquidos frios ou gelados para aliviar a dor de garganta.
Complicações Possíveis da Escarlatina Não Tratada
Com tratamento antibiótico precoce e completo, as complicações são raras. No entanto, quando a escarlatina não é tratada ou o antibiótico é interrompido prematuramente, podem surgir complicações importantes.
Febre Reumática
A febre reumática é a complicação mais temida da infeção estreptocócica não tratada. Surge habitualmente 2 a 4 semanas após a infeção da garganta e caracteriza-se por inflamação que pode afetar:
- Coração (cardite reumática): a complicação mais grave, podendo causar lesões valvulares permanentes
- Articulações (artrite migratória): dor e inchaço que “migra” de articulação em articulação
- Sistema nervoso (coreia de Sydenham): movimentos involuntários e instabilidade emocional
A febre reumática é hoje rara nos países desenvolvidos, precisamente graças ao diagnóstico precoce e ao tratamento antibiótico correto.
Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica
Outra complicação possível é a inflamação dos rins, que pode surgir 1 a 3 semanas após a infeção. Manifesta-se com urina turva ou avermelhada (hematúria), inchaço (edema), especialmente na face e pernas, e tensão arterial elevada. É uma condição grave que requer avaliação hospitalar urgente.
Quando Consultar um Médico por Escarlatina
A escarlatina deve ser sempre avaliada por um médico — não existe tratamento doméstico seguro que substitua os antibióticos. Procure consulta médica nas seguintes situações:
- Febre acima de 38,5°C com dor de garganta intensa numa criança em idade escolar
- Aparecimento de erupção cutânea vermelha generalizada num contexto febril
- Contacto recente com um caso confirmado de escarlatina
- Criança que não melhora após 48 horas de antibiótico
- Criança que piora após iniciar tratamento
Dirija-se à urgência pediátrica ou ligue 112 imediatamente se:
- A criança tiver dificuldade em respirar ou engolir
- Aparecer inchaço intenso do pescoço ou da garganta
- A criança estiver muito prostrada, recusar totalmente líquidos ou mostrar sinais de desidratação
- Surgirem convulsões associadas à febre
- A urina ficar escura ou avermelhada (possível sinal de complicação renal)
- Dor articular intensa nas semanas seguintes à infeção (possível febre reumática)
Em caso de dúvida, contacte o SNS 24 pelo número 808 24 24 24, disponível 24 horas por dia.
Da mesma forma que é importante reconhecer a escarlatina, pais de crianças pequenas devem estar familiarizados com outros quadros de febre aguda — como os sintomas de sarampo e os sintomas de tosse convulsa —, doenças também bacterianas ou virais com exantema ou febre intensa que podem ser confundidas com escarlatina.
Prevenção e Cuidados em Casa
Como Prevenir a Transmissão de Escarlatina
Não existe vacina disponível contra a escarlatina. A prevenção baseia-se em medidas de higiene:
- Lavagem frequente das mãos com água e sabão, especialmente antes das refeições e após assoar o nariz
- Evitar partilhar utensílios, copos, talheres ou toalhas com pessoas doentes
- Cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar
- Manter a criança em casa enquanto estiver com febre ou nas primeiras 24 a 48 horas de antibiótico
- Comunicar à escola ou infantário o diagnóstico, para que possam alertar outros pais
Cuidados em Casa Durante a Doença
Durante o tratamento, para além de administrar o antibiótico conforme prescrito e nunca interromper o tratamento, pode ajudar a criança com:
- Hidratação adequada: oferecer líquidos com frequência — água, chás mornos, caldos, gelados sem açúcar. A dor de garganta dificulta a deglutição, pelo que pequenas quantidades frequentes são mais eficazes
- Alimentos moles e frios: gelados, iogurte, puré, sopas frias ajudam a aliviar a dor de garganta
- Repouso: a criança deve repousar o suficiente para facilitar a recuperação
- Controlo da febre: paracetamol ou ibuprofeno conforme indicação médica; não dar aspirina a crianças
- Monitorização da erupção: a descamação da pele é normal e não dolorosa; hidratação da pele com creme neutro pode ajudar no conforto
Perguntas Frequentes sobre Escarlatina
Posso dar antibióticos que tenho em casa?
Não. A automedicação com antibióticos é perigosa e contraproducente. Não sabe se a bactéria causadora é sensível ao antibiótico em casa, qual a dose correta para o peso da criança, nem quanto tempo deve durar o tratamento. O uso incorreto de antibióticos pode mascarar os sintomas sem curar a infeção, aumentar o risco de complicações e contribuir para o desenvolvimento de resistências bacterianas. Consulte sempre o médico antes de iniciar qualquer antibiótico.
A escarlatina pode recorrer?
Sim, embora seja pouco frequente. Como referido, existem vários tipos de toxinas eritrogénicas do estreptococo do grupo A, e a imunidade adquirida após uma infeção é específica para o tipo de toxina em causa. Assim, uma criança pode ter escarlatina mais do que uma vez ao longo da vida, embora as recorrências sejam menos comuns do que o episódio inicial.
Há casos de escarlatina em Portugal atualmente?
A escarlatina nunca desapareceu de Portugal nem de nenhum outro país europeu. Nos últimos anos, vários países europeus registaram surtos de infeções estreptocócicas do grupo A, incluindo escarlatina. Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde acompanha a evolução dos casos e emite alertas quando há aumentos significativos de incidência. Em caso de surto confirmado na escola do seu filho, siga as recomendações das autoridades de saúde locais e do médico assistente.
A escarlatina é uma doença infeciosa bacteriana bem conhecida, completamente tratável com antibióticos, mas que não deve ser ignorada nem subestimada. O reconhecimento precoce dos seus sintomas — febre alta de instalação súbita, dor de garganta intensa, exantema vermelho-escarlate com textura áspera e língua de framboesa — é o primeiro passo para uma intervenção rápida e eficaz. Com o diagnóstico correto e um ciclo completo de antibiótico, a escarlatina resolve-se na grande maioria dos casos sem qualquer complicação.
Se tem dúvidas sobre sintomas no seu filho, o SNS 24 (808 24 24 24) está disponível para orientação telefónica especializada. Em caso de emergência, ligue sempre 112.
