Saude Infantil

Escarlatina: Sintomas, Causas e Quando Ir ao Médico

Equipa Sintomas.pt 27 de abril de 2026 #escarlatina #streptococcus #infeção bacteriana
Ilustração médica de criança com exantema escarlatiniforme e dor de garganta, identificando os principais sintomas de escarlatina

Este conteudo e informativo e nao substitui uma consulta medica. Em caso de emergencia, ligue 112.

A escarlatina é uma doença infeciosa bacteriana que tem vindo a registar um aumento de casos em Portugal e em toda a Europa nos últimos anos, preocupando especialmente pais de crianças em idade escolar. Causada pelo estreptococo do grupo A, caracteriza-se por uma tríade de sintomas muito característica: febre alta, dor de garganta intensa e um exantema vermelho-escarlate inconfundível que dá nome à doença.

Embora seja considerada uma doença relativamente comum da infância, a escarlatina não deve ser subestimada. Sem tratamento adequado com antibióticos, pode originar complicações sérias como a febre reumática — que pode afetar permanentemente o coração — ou problemas renais. O reconhecimento precoce dos sintomas é, por isso, fundamental.

Neste guia completo, elaborado com base nas orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS), do SNS 24 e da Organização Mundial da Saúde (OMS), explicamos em detalhe os sintomas, causas, diagnóstico e tratamento da escarlatina.

Aviso médico: Este conteúdo é meramente informativo e educativo. Não substitui uma consulta médica, não estabelece diagnósticos nem prescreve tratamentos. Se suspeita que o seu filho ou familiar tem escarlatina, consulte o médico assistente ou contacte o SNS 24 pelo telefone 808 24 24 24. Em caso de emergência, ligue 112.


O Que É a Escarlatina e Porque Ocorre

A escarlatina (do latim scarlatina, relacionado com a cor escarlate) é uma doença infeciosa bacteriana causada por determinadas estirpes do Streptococcus pyogenes, também conhecido como estreptococo beta-hemolítico do grupo A. Esta bactéria produz toxinas eritrogénicas — substâncias que provocam a característica erupção cutânea vermelha generalizada que define a doença.

A doença é mais frequente em crianças entre os 5 e os 15 anos de idade, sendo rara antes dos 3 anos e em adultos, embora possa ocorrer em qualquer idade. Tem uma distribuição global, mas tende a manifestar-se com maior frequência nos meses de outono, inverno e primavera — épocas em que as infeções respiratórias são mais comuns e o contacto próximo entre crianças em ambiente escolar aumenta a probabilidade de transmissão.

Streptococcus do Grupo A: O Agente Causador

O estreptococo do grupo A é uma bactéria extremamente frequente que pode causar desde infeções ligeiras da garganta (faringite estreptocócica) até doenças mais graves como escarlatina, fascite necrotizante e síndrome de choque tóxico. A escarlatina surge quando a estirpe infetante produz uma ou mais toxinas eritrogénicas — também chamadas toxinas pirogénicas — às quais o sistema imunitário da pessoa ainda não tem anticorpos.

Esta particularidade explica porque uma criança pode ter escarlatina mais do que uma vez ao longo da vida (embora seja raro): a imunidade adquirida é específica para cada tipo de toxina, e existem vários tipos.

Escarlatina vs Amigdalite Estreptocócica: Qual a Diferença?

A amigdalite estreptocócica e a escarlatina são causadas pela mesma bactéria. A diferença está na capacidade da estirpe infetante de produzir toxinas eritrogénicas. Quando a estirpe de estreptococo não produz esta toxina — ou quando o sistema imunitário da pessoa já tem anticorpos contra ela —, a infeção manifesta-se apenas como amigdalite ou faringite. Quando a toxina é produzida e não há imunidade prévia, desenvolve-se a escarlatina com o exantema característico.

Da mesma forma, a faringite por estreptococo sem exantema é tratada de forma idêntica à escarlatina: com antibióticos para eliminar a bactéria e prevenir complicações.


Como Reconhecer os Sintomas de Escarlatina?

O quadro clínico da escarlatina é bastante característico e permite, na maioria dos casos, uma suspeita diagnóstica antes mesmo de qualquer exame laboratorial. Os sintomas instalam-se de forma súbita, ao contrário de muitas infeções virais que têm um início mais gradual.

Os Primeiros Sinais de Escarlatina

Os primeiros sinais surgem habitualmente entre 2 e 4 dias após o contágio (período de incubação) e incluem:

  • Febre alta — frequentemente acima de 38,5°C e por vezes até 40°C, de instalação súbita
  • Dor de garganta intensa — com dificuldade em engolir, garganta muito vermelha e, em muitos casos, exsudado branco ou amarelado nas amígdalas
  • Gânglios cervicais inchados e dolorosos — os “nódulos” do pescoço ficam aumentados e sensíveis ao toque
  • Mal-estar geral, fadiga e falta de apetite
  • Náuseas e vómitos — particularmente frequentes em crianças mais novas, podendo ocorrer antes do aparecimento do exantema
  • Dor de cabeça e, ocasionalmente, dores abdominais

O exantema (erupção cutânea) aparece tipicamente 12 a 48 horas após o início dos sintomas — não é, portanto, o primeiro sinal da doença.

O Exantema Escarlatiniforme: Como Identificar

O exantema da escarlatina é um dos mais característicos da medicina e tem várias particularidades que facilitam o reconhecimento:

  • Cor e textura: Vermelho-escarlate, com pontilhado fino e denso. Ao toque, tem uma textura áspera, comparada a lixa ou pele de galinha
  • Distribuição: Começa tipicamente no pescoço, axilas e virilhas, expandindo-se rapidamente para o tronco e depois para os membros
  • Sinal de Filatov (palidez perioral): a zona em redor da boca — lábios e queixo — mantém-se notavelmente pálida, em contraste com o rubor generalizado do restante rosto
  • Sinal de Pastia: nas pregas naturais do corpo (cotovelos, axilas, virilhas), as linhas de pressão ficam mais marcadas e avermelhadas
  • Evolução: O exantema dura 5 a 7 dias. Ao desaparecer, a pele começa a descamar — processo chamado descamação furfurácea — que se pode prolongar por 2 a 3 semanas, especialmente nas palmas das mãos e plantas dos pés

Língua de Framboesa: Um Sinal Característico

A língua é um dos elementos mais úteis no diagnóstico clínico de escarlatina. Nos primeiros dias, a língua apresenta uma camada branca esbranquiçada com papilas vermelhas salientes — chamada “língua em morango branco”. Entre o 3.º e o 5.º dia, esta camada descama e revela a chamada “língua de framboesa” (ou língua em morango vermelho): vermelha, brilhante, com papilas muito proeminentes. Este sinal, embora não exclusivo da escarlatina, é muito sugestivo da doença quando associado aos restantes sintomas.

Sintomas de Escarlatina em Crianças vs Adultos

SintomaCrianças (5-15 anos)Adultos
FebreAlta, súbita (>39°C frequente)Moderada a alta
Dor de gargantaIntensa, com amígdalas inflamadasIntensa
Exantema escarlatiniformeClássico, bem definidoPresente, pode ser menos marcado
Língua de framboesaFrequente e característicaPresente, menos valorizada
Náuseas/VómitosMuito frequentesMenos frequentes
Gânglios cervicaisMuito aumentadosAumentados
Dores abdominaisFrequentesRaras
Duração sem antibiótico1-2 semanas com risco de complicações1-2 semanas com risco de complicações

Sintomas de Escarlatina em Bebés

Em bebés com menos de 1 ano, a escarlatina é rara, pois os anticorpos maternos transmitidos durante a gravidez e o aleitamento conferem proteção temporária. Quando ocorre nesta faixa etária, os sintomas são habitualmente atípicos: o exantema pode ser menos pronunciado ou ausente, e os sinais dominantes são irritabilidade, choro persistente, febre e recusa alimentar. Por este motivo, o diagnóstico pode ser mais difícil e requer avaliação pediátrica urgente.


Causas e Formas de Transmissão

Como Se Transmite a Escarlatina?

A escarlatina transmite-se principalmente por via respiratória, através de gotículas de saliva e muco expelidas ao tossir, espirrar ou falar. O contacto direto com secreções da garganta de uma pessoa infetada — por exemplo, ao partilhar utensílios, copos ou ao beijar — também pode transmitir a bactéria.

O período de incubação (tempo entre o contágio e o aparecimento dos sintomas) é geralmente de 2 a 4 dias, podendo chegar a 7 dias. Ambientes de grande proximidade — salas de aula, infantários, campos de férias — favorecem a propagação.

Importa notar que o estreptococo do grupo A pode estar presente na garganta de pessoas assintomáticas (portadores) que, ainda assim, podem transmitir a bactéria sem apresentarem qualquer sintoma de doença.

Escarlatina vs Varicela: Como Distinguir?

A confusão com a varicela é frequente, pois ambas as doenças provocam erupção cutânea em crianças. No entanto, existem diferenças claras que permitem distingui-las:

CaracterísticaEscarlatinaVaricela
AgenteBactéria (Streptococcus grupo A)Vírus (varicela-zóster)
ErupçãoDifusa, vermelha, textura áspera, sem vesículasVesículas (bolhinhas) com líquido, em vários estádios
Início da erupçãoPescoço, axilas, virilhasCabeça/tronco, propaga-se para membros
Prurido (comichão)Leve a ausenteIntenso, muito característico
FacePalidez perioral (à volta da boca)Erupção inclui a face
Dor de gargantaIntensa e proeminentePode estar ausente ou ser ligeira
FebreAlta, súbitaModerada, gradual
TratamentoAntibiótico obrigatórioAntiviral (em casos selecionados); sintomático

Se tiver dúvidas sobre sintomas de pele na criança, o nosso artigo sobre sintomas de varicela pode ajudá-lo a comparar os dois quadros clínicos com mais detalhe.

Escarlatina vs Alergias: Como Diferenciar?

As reações alérgicas da pele — como a urticária ou certas formas de dermatite atópica — também podem provocar erupções cutâneas vermelhas que, à primeira vista, confundem os pais. As diferenças fundamentais estão na presença de febre alta e dor de garganta intensa na escarlatina (ausentes nas alergias), na textura característica do exantema escarlatiniforme (áspero, sem comichão intensa) e no contexto — exposição prévia a uma criança com estreptococo, ambiente escolar ou familiar com casos conhecidos.


Diagnóstico e Tratamento

Como o Médico Diagnostica a Escarlatina

O diagnóstico de escarlatina é essencialmente clínico — feito pelo médico através da observação dos sintomas e da realização de um exame físico. A identificação do exantema escarlatiniforme, da língua de framboesa, da palidez perioral e da amigdalite num contexto febril agudo permite uma suspeita diagnóstica com elevada confiança.

Para confirmar a presença do estreptococo do grupo A, o médico pode realizar:

  • Teste rápido de antigénio estreptocócico (exame de garganta “rápido”): resultado em 5 a 10 minutos, com elevada especificidade
  • Cultura de exsudado faríngeo: exame laboratorial mais definitivo, com resultado em 24 a 48 horas; reservado para casos em que o teste rápido é negativo mas a suspeita clínica persiste

Não são necessários exames de sangue no diagnóstico inicial de escarlatina não complicada, embora possam ser pedidos se houver suspeita de complicações.

Tratamento da Escarlatina

O tratamento da escarlatina é feito com antibióticos, que têm um duplo objetivo: resolver a infeção mais rapidamente e prevenir complicações (febre reumática, glomerulonefrite). O estreptococo do grupo A mantém sensibilidade à penicilina, pelo que o tratamento de primeira linha continua a ser:

  • Amoxicilina oral durante 10 dias (crianças e adultos)
  • Penicilina V oral durante 10 dias (alternativa)
  • Amoxicilina + ácido clavulânico em casos com infeção mais complexa
  • Azitromicina ou eritromicina em caso de alergia à penicilina (apenas se prescrito pelo médico)

É fundamental completar o ciclo completo de antibiótico — mesmo que a criança melhore significativamente ao 2.º ou 3.º dia. Interromper o tratamento prematuramente aumenta o risco de complicações e de resistência bacteriana.

Para alívio dos sintomas, o médico pode também recomendar paracetamol ou ibuprofeno para controlo da febre e da dor, e líquidos frios ou gelados para aliviar a dor de garganta.


Complicações Possíveis da Escarlatina Não Tratada

Com tratamento antibiótico precoce e completo, as complicações são raras. No entanto, quando a escarlatina não é tratada ou o antibiótico é interrompido prematuramente, podem surgir complicações importantes.

Febre Reumática

A febre reumática é a complicação mais temida da infeção estreptocócica não tratada. Surge habitualmente 2 a 4 semanas após a infeção da garganta e caracteriza-se por inflamação que pode afetar:

  • Coração (cardite reumática): a complicação mais grave, podendo causar lesões valvulares permanentes
  • Articulações (artrite migratória): dor e inchaço que “migra” de articulação em articulação
  • Sistema nervoso (coreia de Sydenham): movimentos involuntários e instabilidade emocional

A febre reumática é hoje rara nos países desenvolvidos, precisamente graças ao diagnóstico precoce e ao tratamento antibiótico correto.

Glomerulonefrite Pós-Estreptocócica

Outra complicação possível é a inflamação dos rins, que pode surgir 1 a 3 semanas após a infeção. Manifesta-se com urina turva ou avermelhada (hematúria), inchaço (edema), especialmente na face e pernas, e tensão arterial elevada. É uma condição grave que requer avaliação hospitalar urgente.


Quando Consultar um Médico por Escarlatina

A escarlatina deve ser sempre avaliada por um médico — não existe tratamento doméstico seguro que substitua os antibióticos. Procure consulta médica nas seguintes situações:

  • Febre acima de 38,5°C com dor de garganta intensa numa criança em idade escolar
  • Aparecimento de erupção cutânea vermelha generalizada num contexto febril
  • Contacto recente com um caso confirmado de escarlatina
  • Criança que não melhora após 48 horas de antibiótico
  • Criança que piora após iniciar tratamento

Dirija-se à urgência pediátrica ou ligue 112 imediatamente se:

  • A criança tiver dificuldade em respirar ou engolir
  • Aparecer inchaço intenso do pescoço ou da garganta
  • A criança estiver muito prostrada, recusar totalmente líquidos ou mostrar sinais de desidratação
  • Surgirem convulsões associadas à febre
  • A urina ficar escura ou avermelhada (possível sinal de complicação renal)
  • Dor articular intensa nas semanas seguintes à infeção (possível febre reumática)

Em caso de dúvida, contacte o SNS 24 pelo número 808 24 24 24, disponível 24 horas por dia.

Da mesma forma que é importante reconhecer a escarlatina, pais de crianças pequenas devem estar familiarizados com outros quadros de febre aguda — como os sintomas de sarampo e os sintomas de tosse convulsa —, doenças também bacterianas ou virais com exantema ou febre intensa que podem ser confundidas com escarlatina.


Prevenção e Cuidados em Casa

Como Prevenir a Transmissão de Escarlatina

Não existe vacina disponível contra a escarlatina. A prevenção baseia-se em medidas de higiene:

  • Lavagem frequente das mãos com água e sabão, especialmente antes das refeições e após assoar o nariz
  • Evitar partilhar utensílios, copos, talheres ou toalhas com pessoas doentes
  • Cobrir a boca e o nariz ao tossir ou espirrar
  • Manter a criança em casa enquanto estiver com febre ou nas primeiras 24 a 48 horas de antibiótico
  • Comunicar à escola ou infantário o diagnóstico, para que possam alertar outros pais

Cuidados em Casa Durante a Doença

Durante o tratamento, para além de administrar o antibiótico conforme prescrito e nunca interromper o tratamento, pode ajudar a criança com:

  • Hidratação adequada: oferecer líquidos com frequência — água, chás mornos, caldos, gelados sem açúcar. A dor de garganta dificulta a deglutição, pelo que pequenas quantidades frequentes são mais eficazes
  • Alimentos moles e frios: gelados, iogurte, puré, sopas frias ajudam a aliviar a dor de garganta
  • Repouso: a criança deve repousar o suficiente para facilitar a recuperação
  • Controlo da febre: paracetamol ou ibuprofeno conforme indicação médica; não dar aspirina a crianças
  • Monitorização da erupção: a descamação da pele é normal e não dolorosa; hidratação da pele com creme neutro pode ajudar no conforto

Perguntas Frequentes sobre Escarlatina

Posso dar antibióticos que tenho em casa?

Não. A automedicação com antibióticos é perigosa e contraproducente. Não sabe se a bactéria causadora é sensível ao antibiótico em casa, qual a dose correta para o peso da criança, nem quanto tempo deve durar o tratamento. O uso incorreto de antibióticos pode mascarar os sintomas sem curar a infeção, aumentar o risco de complicações e contribuir para o desenvolvimento de resistências bacterianas. Consulte sempre o médico antes de iniciar qualquer antibiótico.

A escarlatina pode recorrer?

Sim, embora seja pouco frequente. Como referido, existem vários tipos de toxinas eritrogénicas do estreptococo do grupo A, e a imunidade adquirida após uma infeção é específica para o tipo de toxina em causa. Assim, uma criança pode ter escarlatina mais do que uma vez ao longo da vida, embora as recorrências sejam menos comuns do que o episódio inicial.

Há casos de escarlatina em Portugal atualmente?

A escarlatina nunca desapareceu de Portugal nem de nenhum outro país europeu. Nos últimos anos, vários países europeus registaram surtos de infeções estreptocócicas do grupo A, incluindo escarlatina. Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde acompanha a evolução dos casos e emite alertas quando há aumentos significativos de incidência. Em caso de surto confirmado na escola do seu filho, siga as recomendações das autoridades de saúde locais e do médico assistente.


A escarlatina é uma doença infeciosa bacteriana bem conhecida, completamente tratável com antibióticos, mas que não deve ser ignorada nem subestimada. O reconhecimento precoce dos seus sintomas — febre alta de instalação súbita, dor de garganta intensa, exantema vermelho-escarlate com textura áspera e língua de framboesa — é o primeiro passo para uma intervenção rápida e eficaz. Com o diagnóstico correto e um ciclo completo de antibiótico, a escarlatina resolve-se na grande maioria dos casos sem qualquer complicação.

Se tem dúvidas sobre sintomas no seu filho, o SNS 24 (808 24 24 24) está disponível para orientação telefónica especializada. Em caso de emergência, ligue sempre 112.

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