Aviso Médico: Este artigo tem fins educativos e informativos. Não substitui a consulta médica. Se tiver inchaço na garganta, dificuldade em respirar ou sintomas graves, ligue imediatamente para o 112. Para dúvidas de saúde não urgentes, contacte o SNS 24: 808 24 24 24.
A urticária é uma das condições dermatológicas mais comuns em Portugal e no mundo, afetando aproximadamente 20% das pessoas em algum momento da vida. Caracteriza-se pelo aparecimento súbito de manchas vermelhas e elevadas na pele, acompanhadas de comichão intensa, que podem surgir em qualquer parte do corpo.
Apesar de ser habitualmente benigna e autolimitada, a urticária pode causar desconforto significativo e, em casos mais graves associados a angioedema ou anafilaxia, pode representar uma emergência médica. Neste guia completo, explicamos tudo o que precisa de saber sobre urticária — dos sintomas às causas, passando pelos diferentes tipos e pelo tratamento disponível.
O Que É a Urticária?
A urticária é uma reação da pele caracterizada pelo aparecimento de pápulas eritematosas — lesões elevadas, avermelhadas ou esbranquiçadas com bordos vermelhos — que causam comichão intensa, sensação de queimadura ou picada. As lesões individuais geralmente desaparecem em menos de 24 horas, mas podem reaparecer continuamente noutros locais do corpo.
Esta condição resulta da libertação de histamina e outros mediadores inflamatórios pelos mastócitos (células do sistema imunológico) presentes na derme superficial. Esta libertação provoca vasodilatação, aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos e recrutamento de outras células inflamatórias — o que se traduz nas manchas características e na comichão.
Urticária Aguda vs. Urticária Crónica
A classificação mais importante é baseada na duração:
| Tipo | Duração | Características |
|---|---|---|
| Urticária Aguda | Menos de 6 semanas | Causa geralmente identificável; mais comum em crianças |
| Urticária Crónica | Mais de 6 semanas | Causa frequentemente desconhecida; impacto significativo na qualidade de vida |
| Urticária Episódica | Recorrente com intervalos livres | Surtos com períodos sem sintomas |
A urticária crónica espontânea é a forma mais desafiante — as lesões surgem sem causa aparente identificável, durante semanas, meses ou mesmo anos.
Como Reconhecer a Urticária?
Sintomas Principais da Urticária
Os sinais típicos da urticária incluem:
| Sintoma | Descrição |
|---|---|
| Pápulas (urticas) | Placas avermelhadas ou esbranquiçadas, elevadas, de tamanho variável — de mm a vários cm |
| Comichão intensa | Prurido característico, por vezes com sensação de queimadura ou picada |
| Distribuição variável | Podem surgir em qualquer parte do corpo, mudar de localização ao longo do dia |
| Caráter migratório | Lesões individuais desaparecem em menos de 24h e reaparecem noutros locais |
| Sem cicatrizes | A pele volta ao normal após cada episódio, sem marcas permanentes |
A comichão pode ser muito perturbadora, especialmente à noite, interferindo com o sono e a qualidade de vida.
Como Reconhecer a Urticária em Crianças?
A urticária em crianças tem algumas particularidades:
- É frequentemente aguda e pós-infeciosa — surge durante ou após uma infeção viral (constipação, gripe, gastroenterite)
- As lesões podem ser mais disseminadas e o inchaço (angioedema) das pálpebras ou lábios é comum
- A criança fica irritável e com dificuldade em dormir devido à comichão
- Em bebés, pode ser confundida com outras erupções cutâneas como a dermatite atópica (eczema) — o diagnóstico médico é essencial
- A maioria das urticárias agudas em crianças resolve-se sem tratamento específico além dos anti-histamínicos
Urticária em Idosos
Nos idosos, a urticária crónica pode ser mais persistente e difícil de tratar. É importante excluir causas subjacentes como doenças autoimunes, infeções crónicas ou reações a medicamentos (muito comuns nesta faixa etária). O impacto na qualidade de vida tende a ser maior, dado o efeito sedativo que alguns anti-histamínicos podem ter nesta população.
Urticária na Gravidez
A urticária na gravidez requer atenção médica imediata, pois algumas causas e tratamentos são específicos deste período. A pomfo gestacional (urticária da gravidez) é uma condição benigna, mas deve sempre ser avaliada por um médico para excluir outras causas. O tratamento deve ser orientado por um médico ou dermatologista familiarizado com a gravidez.
O Que É o Angioedema?
O angioedema é frequentemente confundido com a urticária, mas distingue-se pela profundidade das lesões e pela ausência de comichão:
Urticária vs. Angioedema: Como Distinguir?
A urticária afeta a derme superficial: lesões visíveis, avermelhadas, elevadas, com comichão intensa.
O angioedema afeta a derme profunda e tecido subcutâneo: inchaço das camadas mais profundas, sem vermelhidão, com sensação de tensão ou ardor mais do que comichão, afetando zonas como lábios, pálpebras, língua, garganta, mãos ou genitais.
Cerca de 40 a 50% dos doentes com urticária crónica tem também angioedema. A coexistência das duas condições é comum.
Angioedema — Quando É Urgente?
O angioedema é potencialmente grave quando afeta a garganta ou a via respiratória. Nestes casos, pode causar dificuldade em engolir e respirar — uma emergência que requer ativação imediata do 112.
Causas da Urticária: O Que Pode Desencadear?
Urticária Aguda: Causas Mais Comuns
Na urticária aguda, é possível identificar um desencadeante na maioria dos casos:
- Infeções: a causa mais frequente, especialmente em crianças — vírus (constipações, gripe, mononucleose), bactérias ou parasitas
- Alimentos: leite, ovo, peixe, mariscos, frutos de casca rija (amendoim, nozes), morango, kiwi, aditivos alimentares — podendo coexistir com rinite alérgica
- Medicamentos: anti-inflamatórios (ibuprofeno, aspirina), antibióticos (amoxicilina), opioides, contrastes de imagiologia
- Picadas de insetos: abelhas, vespas, mosquitos, formigas
- Contacto com substâncias: látex, plantas (urtigas), cosméticos, alimentos tocados
- Reações transfusionais: menos comuns, mas possíveis
Urticária Crónica: Um Quadro Diferente
Na urticária crónica espontânea, em mais de 50% dos casos não se identifica uma causa específica. Nos casos onde existe uma causa, destacam-se:
- Mecanismo autoimune: presente em 30 a 50% dos doentes com urticária crónica — o sistema imunológico produz anticorpos que ativam diretamente os mastócitos
- Infeções crónicas: Helicobacter pylori, infeções dentárias, sinusite crónica
- Doenças autoimunes associadas: tiroidite de Hashimoto, lúpus, artrite reumatoide
- Stress emocional crónico: pode desencadear ou perpetuar os surtos
- Intolerâncias alimentares (não alergias): alguns aditivos, salicilatos, histamina nos alimentos fermentados
Tipos de Urticária Física
A urticária física é desencadeada por estímulos físicos específicos — e pode ser testada e confirmada clinicamente:
- Urticária ao frio: contacto com frio ou imersão em água fria; pode ser grave em banhos de mar
- Urticária solar: exposição à luz solar (UV)
- Urticária colinérgica: exercício físico, calor, banho quente, stress emocional agudo
- Urticária de pressão: pressão sustentada sobre a pele (cintos, calçado apertado)
- Dermografismo: escrita na pele — qualquer arranhão leve provoca uma linha elevada e com comichão
Diagnóstico da Urticária
O diagnóstico da urticária é essencialmente clínico — o médico avalia as lesões e faz uma história detalhada dos sintomas. Não existe exame específico que confirme o diagnóstico.
O Que o Médico Vai Avaliar
Na consulta, o médico vai perguntar sobre:
- Há quanto tempo surgem as lesões e com que frequência
- Se existem fatores desencadeantes identificados (alimentos, medicamentos, infeções)
- Se as lesões individuais duram menos ou mais de 24 horas
- Se há inchaço associado (angioedema)
- Antecedentes pessoais e familiares de alergias
- Medicamentos que toma regularmente
Exames Complementares
Na urticária aguda de causa identificável, geralmente não são necessários exames. Na urticária crónica, o médico pode solicitar:
- Análises sanguíneas: hemograma completo, PCR, VS, função tiroideia, anticorpos anti-tiroideus
- Pesquisa de Helicobacter pylori
- Testes alérgicos: testes cutâneos ou IgE específica, quando há suspeita de alergia
- Testes de provocação: para urticária física (teste ao frio, teste de pressão, etc.)
- Biopsia cutânea: em casos atípicos, para excluir urticária vasculítica
Tratamento da Urticária
O objetivo do tratamento é controlar os sintomas e, sempre que possível, eliminar o fator desencadeante.
Tratamento de Primeira Linha: Anti-Histamínicos
Os anti-histamínicos H1 de segunda geração são o pilar do tratamento:
- Cetirizina, loratadina, bilastina, desloratadina: menos sedativos, tomados uma vez por dia
- São eficazes na maioria dos casos de urticária aguda e crónica
- Podem ser necessários em doses superiores às habituais, sempre sob orientação médica
- Não devem ser usados prolongadamente sem seguimento médico
Tratamentos para Casos Moderados a Graves
Quando os anti-histamínicos de segunda geração, mesmo em dose aumentada, não controlam os sintomas:
- Corticosteroides orais (prednisolona): em ciclos curtos para crises graves; não recomendados a longo prazo
- Omalizumab (Xolair®): anticorpo monoclonal aprovado pelo INFARMED para urticária crónica espontânea refratária; administrado por injeção subcutânea mensal em meio hospitalar; representa um avanço significativo para os casos mais difíceis
- Ciclosporina: imunossupressor usado em casos refratários
- Montelucaste: antagonista dos leucotrienos, pode ser usado como adjuvante
Situação de Emergência: Anafilaxia
Em caso de anafilaxia (reação alérgica grave com angioedema da garganta, dificuldade respiratória, hipotensão):
- Ligar imediatamente 112
- Se disponível, administrar adrenalina (caneta auto-injetável, ex.: EpiPen)
- Manter a pessoa deitada com pernas elevadas até à chegada dos socorros
- Não aguardar melhoria espontânea — é uma emergência médica
Quando Consultar um Médico?
Urgência Imediata — Ligue 112
- Dificuldade em respirar ou engolir
- Inchaço na garganta, língua ou face (angioedema grave)
- Tontura intensa, desmaio ou queda da pressão arterial
- Agravamento muito rápido dos sintomas
Consulta Médica Programada
Deve marcar consulta com o seu médico de família se:
- A urticária persistir mais de 6 semanas (urticária crónica)
- As crises forem frequentes e afetarem significativamente a qualidade de vida ou o sono
- Não houver resposta ao anti-histamínico ao fim de 48-72 horas
- Houver inchaço associado (angioedema), mesmo que não grave
- Suspeitar de alergia alimentar ou medicamentosa como causa
- Surgir em contexto de gravidez
- Tratar-se de uma criança com sintomas persistentes ou recorrentes
Contactos em Portugal
| Situação | Contacto |
|---|---|
| Emergência — dificuldade respiratória, anafilaxia | 112 |
| Dúvidas não urgentes | SNS 24: 808 24 24 24 |
| Consulta de alergologia ou dermatologia | Médico de família → referenciação |
Viver com Urticária Crónica: Dicas Práticas
A urticária crónica pode ter um impacto significativo na qualidade de vida, semelhante ao de doenças crónicas como a asma moderada. Algumas estratégias podem ajudar:
Identificar e Evitar Desencadeantes
Embora muitas vezes não haja causa identificável, vale a pena registar:
- Um diário de sintomas: anote quando surgem as crises, o que comeu, atividades realizadas, nível de stress
- Possíveis alimentos suspeitos: alimentos ricos em histamina (atum, atum enlatado, queijos curados, vinho tinto, espinafres)
- Medicamentos: especialmente anti-inflamatórios (ibuprofeno, aspirina)
- Situações de stress ou de esforço físico intenso
Cuidados com a Pele
- Evite banhos muito quentes — o calor pode agravar a comichão
- Use sabonetes neutros e produtos de higiene sem perfume
- Vista roupa leve e de algodão — tecidos sintéticos e lã podem irritar
- Não coce as lesões — o alívio é momentâneo e piora a inflamação; aplique frio local se necessário
Impacto Psicológico
A urticária crónica pode causar ansiedade, perturbações do sono e isolamento social. É importante reconhecer este impacto e, se necessário, procurar apoio psicológico. O stress pode perpetuar os ciclos de crises, criando um ciclo difícil de quebrar sem ajuda adequada.
Urticária Nervosa ou por Stress: É Real?
Sim — embora popularmente chamada de “urticária nervosa”, a relação entre stress e urticária tem base científica. O stress ativa o eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal e o sistema nervoso autónomo, levando à libertação de neuropeptídeos que podem ativar diretamente os mastócitos da pele.
Além disso, o stress crónico altera a resposta imunológica, tornando o organismo mais suscetível a reações de hipersensibilidade. Em doentes com urticária crónica, os períodos de maior stress emocional correlacionam-se frequentemente com crises mais intensas ou frequentes.
O tratamento holístico deve, por isso, incluir estratégias de gestão do stress — seja através de técnicas de relaxamento, exercício físico regular (com atenção à urticária colinérgica), sono adequado ou apoio psicológico.
Perguntas Frequentes sobre Urticária
Quanto tempo dura uma crise de urticária? A urticária aguda dura habitualmente entre alguns dias e 6 semanas, com lesões individuais que desaparecem em menos de 24 horas mas que podem reaparecer noutros locais. A urticária crónica, por definição, persiste por mais de 6 semanas e pode prolongar-se por meses ou anos — em cerca de 20% dos casos, os sintomas duram mais de 10 anos.
Qual a diferença entre urticária e angioedema? A urticária manifesta-se por placas avermelhadas e elevadas na pele (pápulas) com comichão intensa, que surgem nas camadas superficiais da derme. O angioedema é um inchaço das camadas mais profundas da pele ou mucosas, afetando frequentemente os lábios, pálpebras, língua ou garganta — pode ser potencialmente grave se atingir a via respiratória. As duas condições podem ocorrer em simultâneo.
A urticária é contagiosa? Não, a urticária não é contagiosa. Não se transmite de pessoa para pessoa pelo contacto com a pele, por roupas ou objetos. Embora algumas urticárias sejam desencadeadas por infeções virais (que podem ser transmissíveis), a própria reação cutânea não o é.
Qual a diferença entre urticária aguda e crónica? A distinção é feita pela duração: urticária aguda dura menos de 6 semanas e tem geralmente uma causa identificável (alergia alimentar, infeção, medicamento). A urticária crónica persiste por mais de 6 semanas; na maioria dos casos ditos “espontâneos”, não se consegue identificar uma causa específica, sendo frequentemente de origem imunológica.
A urticária pode ser causada pelo stress? Sim, o stress emocional é um fator desencadeante ou agravante reconhecido da urticária, especialmente na urticária crónica espontânea. Não provoca diretamente a lesão, mas pode ativar mediadores inflamatórios que desencadeiam a libertação de histamina. O tratamento deve considerar também a componente emocional.
A urticária em crianças é diferente dos adultos? A urticária em crianças é mais frequentemente aguda e de causa infeciosa — vírus como o rinovírus, vírus respiratório sincicial e outros são causas comuns. Geralmente resolve-se em menos de 6 semanas. A urticária crónica é menos comum em crianças, mas pode ocorrer, especialmente em adolescentes. O tratamento é essencialmente o mesmo, com doses ajustadas.
Quando é urgente ir às urgências por urticária? Deve ir imediatamente às urgências ou ligar 112 se tiver: dificuldade em respirar ou engolir, inchaço na garganta ou língua, tontura intensa ou desmaio, batimento cardíaco acelerado, ou se os sintomas piorarem muito rapidamente. Estes sinais podem indicar anafilaxia — uma emergência médica que requer tratamento imediato com adrenalina.
Conclusão
A urticária é uma condição muito comum que, na maioria dos casos, tem um curso benigno e autolimitado. No entanto, a sua forma crónica pode ter um impacto considerável na qualidade de vida, e os casos associados a angioedema grave ou anafilaxia podem ser potencialmente perigosos.
Se tiver urticária recorrente ou persistente, não hesite em consultar o seu médico de família. O tratamento atual, incluindo anti-histamínicos modernos e, nos casos refratários, o omalizumab, permite controlar a grande maioria dos casos com boa qualidade de vida.
SNS 24: 808 24 24 24 | Emergências: 112
Informação de acordo com as orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS), Serviço Nacional de Saúde (SNS) e Organização Mundial de Saúde (OMS). Este artigo tem fins exclusivamente educativos e não substitui a consulta médica profissional.

