A tosse convulsa — também conhecida como pertussis ou coqueluche — voltou a estar nas manchetes europeias em 2024 e 2025, após uma subida significativa de casos em vários países, incluindo Portugal. A Direção-Geral da Saúde (DGS) emitiu alertas sobre o aumento da incidência desta doença, que muitos associavam ao passado, mas que continua a ser uma ameaça real — especialmente para bebés não vacinados.
Causada pela bactéria Bordetella pertussis, a tosse convulsa é uma infeção respiratória altamente contagiosa que pode durar semanas ou mesmo meses. O som característico — um «whooop» agudo no final dos acessos de tosse — deu-lhe o nome popular de «tosse do galo». Mas nem sempre a doença se apresenta de forma tão evidente, particularmente em adultos e adolescentes previamente vacinados.
Neste guia, a equipa do Sintomas.pt explica as fases e sintomas da tosse convulsa, como distingui-la de outras infeções respiratórias, quais as complicações possíveis e quando deve procurar ajuda médica urgente.
Aviso médico: Este conteúdo é meramente informativo e não substitui uma consulta médica. Nunca se autodiagnostique. Se tiver dúvidas sobre os sintomas que está a experienciar, contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou o seu médico de família. Em caso de emergência, ligue 112.
O Que É a Tosse Convulsa e Como se Transmite
A tosse convulsa é uma infeção bacteriana aguda do trato respiratório causada pela bactéria Bordetella pertussis. Esta bactéria adere às células ciliadas das vias aéreas, libertando toxinas que provocam inflamação intensa e o mecanismo de tosse paroxística característico da doença.
Em Portugal, a tosse convulsa é uma doença de notificação obrigatória (DNO). Apesar das elevadas taxas de vacinação nacionais, surgem periodicamente surtos epidémicos com ciclos de 3 a 5 anos. Em 2024-2025, vários países europeus registaram um aumento considerável de casos — um fenómeno atribuído em parte à diminuição da imunidade conferida pela vacina ao longo do tempo e a lacunas na cobertura vacinal em algumas populações.
Como a Tosse Convulsa se Transmite
A transmissão é essencialmente por via aérea, através de gotículas respiratórias libertadas quando o doente tosse, espirra ou fala. A taxa de transmissibilidade da tosse convulsa é das mais elevadas entre as doenças bacterianas — estima-se que uma pessoa infetada possa contagiar entre 12 a 17 pessoas suscetíveis num ambiente fechado.
- Período de incubação: 7 a 10 dias (pode variar de 5 a 21 dias)
- Período de contágio: começa na fase catarral (antes da tosse característica) e dura até 3 semanas após o início dos paroxismos, ou até 5 dias após o início de antibioterapia adequada
Quem Corre Mais Risco de Complicações
Embora qualquer pessoa não imunizada possa contrair tosse convulsa, os grupos com maior risco de complicações graves são:
- Bebés com menos de 6 meses — especialmente os ainda não vacinados ou com vacinação incompleta
- Recém-nascidos — podem não apresentar tosse típica, mas ter apneias (pausas respiratórias)
- Grávidas no terceiro trimestre — risco de transmissão ao bebé antes ou logo após o nascimento
- Idosos com doença pulmonar crónica — como asma ou doença pulmonar obstrutiva crónica
- Pessoas imunocomprometidas — por doença ou medicação
As Três Fases da Tosse Convulsa
A tosse convulsa evolui de forma característica em três fases distintas. Reconhecer cada fase é essencial para o diagnóstico precoce e para evitar a transmissão a pessoas vulneráveis — especialmente bebés que ainda não completaram o esquema vacinal.
Fase Catarral: Os Primeiros Sinais (Semanas 1 a 2)
A fase catarral é o período inicial da doença, em que os sintomas são inespecíficos e facilmente confundidos com uma gripe ou constipação:
- Corrimento nasal claro e espirros frequentes
- Tosse seca ligeira, que vai progredindo
- Febre baixa (geralmente inferior a 38 °C) ou ausente
- Lacrimejo e ligeiro avermelhamento dos olhos
- Mal-estar geral e fadiga
Esta é a fase mais contagiosa da doença. A bactéria está a multiplicar-se nas vias aéreas e o doente liberta grandes quantidades de Bordetella pertussis ao tossir ou espirrar, muitas vezes sem saber que está infetado.
Fase Paroxística: A Tosse Característica (Semanas 2 a 6)
À medida que a fase catarral progride, a tosse agrava-se dramaticamente e surge o padrão típico:
- Acessos de tosse em rajada: 5 a 15 tossidelas rápidas e consecutivas, sem pausa para respirar
- «Whoop» (galo): som agudo e característico no final dos acessos, quando o doente inspira forçadamente
- Vómito após os acessos: muito comum, especialmente em crianças
- Cianose: lábios ou face azulados durante os acessos graves, por falta de oxigénio
- Cansaço extremo: os acessos são fisicamente muito exigentes
- Agravamento noturno: os episódios tendem a ser mais frequentes e intensos à noite
Em bebés pequenos, o «whoop» pode estar ausente. Em vez disso, surgem frequentemente apneias (paragens respiratórias), que são potencialmente fatais e requerem hospitalização imediata.
Fase de Convalescença: A Recuperação Lenta
Após as semanas mais intensas, os acessos de tosse diminuem gradualmente. No entanto, esta fase pode durar de 2 a 6 semanas adicionais — e em alguns casos meses. A tosse convulsa é conhecida em inglês como «hundred-day cough» (tosse dos cem dias) precisamente pela sua duração prolongada.
Durante a convalescença, qualquer infeção respiratória intercorrente pode desencadear temporariamente novos acessos de tosse paroxística, o que pode ser frustrante para o doente e para os pais.
Como Reconhecer os Sintomas de Tosse Convulsa?
Os sintomas podem variar consideravelmente consoante a idade, o estado de vacinação e a presença de imunidade prévia. Conhecer estas diferenças é fundamental para não subestimar a doença.
Sintomas em Bebés com Menos de 6 Meses
Nos bebés mais pequenos — o grupo de maior risco — a tosse convulsa pode apresentar-se de forma atípica e enganosa:
- Ausência do «whoop»: os bebés pequenos muitas vezes não produzem o som característico
- Apneias (pausas respiratórias): podem ser o único sintoma inicial, e são potencialmente fatais
- Engasgamento e cianose: lábios ou rosto azulados durante os episódios
- Tosse seguida de engasgamento e vómito
- Convulsões: em casos graves, causadas por hipoxia cerebral
- Recusa alimentar e perda de peso progressiva
Atenção: Qualquer bebé com menos de 6 meses que apresente tosse persistente, dificuldade respiratória ou apneias deve ser avaliado urgentemente numa urgência pediátrica. Ligue 112 se a criança ficar azulada ou perder a consciência.
Tosse Convulsa em Crianças e Adolescentes
Em crianças com mais de 1 ano e adolescentes, os sintomas tendem a ser mais clássicos e reconhecíveis:
- Acessos de tosse intensa, sobretudo à noite
- Som «whoop» audível e característico após os acessos
- Vómito no final dos episódios de tosse
- Vermelhidão ou rubor facial durante os acessos
- Fadiga acentuada após cada episódio
- Febre geralmente baixa ou ausente na fase paroxística
Tosse Convulsa em Adultos: Sintomas Frequentemente Subvalorizados
Em adultos e adolescentes parcialmente imunizados, a tosse convulsa pode apresentar-se de forma atenuada, sem o som típico de «whoop», sendo facilmente confundida com uma bronquite persistente ou outra infeção respiratória de longa duração:
- Tosse seca persistente durante várias semanas
- Acessos de tosse que acabam em engasgamento ou sensação de sufoco
- Cansaço acentuado após os episódios de tosse
- Ligeiro corrimento nasal na fase inicial
- Febre geralmente ausente ou muito baixa
O risco para os adultos não é tanto a gravidade da própria doença, mas o facto de poderem transmiti-la inadvertidamente a bebés vulneráveis com quem contactam — filhos, netos, sobrinhos ou crianças no local de trabalho.
Tosse Convulsa vs. Bronquite e Outras Tossses Persistentes: Como Distinguir
Uma das maiores dificuldades no diagnóstico é distinguir a tosse convulsa de outras causas de tosse prolongada. A tabela seguinte compara as características mais relevantes:
| Característica | Tosse Convulsa | Bronquite | Asma | Gripe |
|---|---|---|---|---|
| Duração | 6 a 10 semanas | 1 a 3 semanas | Crónica / episódica | 1 a 2 semanas |
| Padrão | Acessos em rajada | Tosse produtiva constante | Pieira, aperto no peito | Tosse seca inicial |
| Febre | Baixa ou ausente (fase parox.) | Frequente | Ausente | Alta (38–40 °C) |
| «Whoop» | Presente (em crianças) | Ausente | Ausente | Ausente |
| Vómito após tosse | Frequente | Raro | Raro | Raro |
| Piora noturna | Marcada | Ligeira | Marcada | Moderada |
| Responde a broncodilatadores | Não | Parcialmente | Sim | Não |
Quando a Tosse Pode Ser Sinal de Algo Mais Grave
Tosse persistente com mais de 3 semanas de duração deve sempre ser avaliada por um médico, independentemente da causa suspeita. Em alguns casos, pode indicar pneumonia, tuberculose, doença pulmonar obstrutiva crónica ou outra condição que requer tratamento específico e diferenciado.
Quando Consultar um Médico
A tosse convulsa é uma doença séria que requer avaliação médica precoce. Não espere pela fase paroxística para procurar ajuda — a fase catarral, com sintomas semelhantes a uma constipação, é o momento ideal para iniciar tratamento antibiótico, reduzir a contagiosidade e proteger as pessoas vulneráveis no seu círculo próximo.
Sinais de Emergência — Ligue 112 Imediatamente
Algumas situações requerem ajuda de emergência sem qualquer demora:
- Bebé fica azulado (cianose) durante ou após um acesso de tosse
- Criança ou adulto perde a consciência
- Paragens respiratórias (apneias), mesmo que breves e aparentemente resolvidas
- Convulsões em qualquer idade
- Dificuldade respiratória grave — incapacidade de completar frases ou de respirar entre acessos
- Bebé com menos de 3 meses com qualquer tipo de tosse persistente
Quando Contactar o SNS 24 (808 24 24 24)
Contacte o SNS 24 ou o médico de família nas seguintes situações:
- Tosse persistente há mais de 2 semanas, especialmente se em acessos
- Vómito repetido após episódios de tosse
- Tosse que piora progressivamente em vez de melhorar ao longo dos dias
- Contacto próximo com caso confirmado de tosse convulsa
- Criança vacinada com sintomas sugestivos de tosse convulsa
- Grávida com tosse persistente, especialmente no terceiro trimestre
- Idoso com doença pulmonar prévia e tosse intensa
Diagnóstico e Tratamento da Tosse Convulsa
Como o Médico Confirma o Diagnóstico
O diagnóstico de tosse convulsa é confirmado através de:
- Zaragatoa nasofaríngea para PCR: método mais sensível e específico, especialmente nas primeiras 2 a 3 semanas de doença
- Cultura bacteriológica: mais específica, mas menos sensível após a primeira semana; pode demorar vários dias
- Serologia (doseamento de anticorpos): mais útil após a 3ª semana, quando os anticorpos já são detetáveis
- Hemograma: pode mostrar linfocitose (aumento de linfócitos) sugestivo de infeção por B. pertussis
O diagnóstico clínico — baseado nos sintomas característicos e no contacto com casos confirmados — é frequentemente suficiente para iniciar tratamento, especialmente em crianças com apresentação típica na fase paroxística.
Tratamento: Antibióticos e Cuidados em Casa
Antibióticos de primeira linha:
- Azitromicina: recomendada em crianças e grávidas; esquema curto (5 dias) com boa adesão
- Claritromicina: alternativa eficaz, especialmente em adultos
- Trimetoprim-sulfametoxazol (TMP-SMX): alternativa quando os macrólidos são contraindicados
Os antibióticos são mais eficazes quando iniciados na fase catarral — reduzem a duração do período de contágio e podem encurtar ligeiramente a duração dos sintomas. Na fase paroxística, o seu impacto nos sintomas é menor, mas continuam importantes para quebrar a cadeia de transmissão.
Importante: Nunca tome antibióticos sem prescrição médica. A automedicação pode mascarar o diagnóstico, atrasar o tratamento correto e contribuir para a resistência bacteriana.
Cuidados em casa durante a fase paroxística:
| Cuidado | Justificação |
|---|---|
| Repouso adequado | Os acessos são fisicamente muito exigentes |
| Hidratação frequente | Compensar as perdas pelo vómito |
| Refeições pequenas e frequentes | Reduzir o risco de vómito após tosse |
| Evitar irritantes (fumo, pó, ar frio seco) | Podem desencadear novos acessos |
| Ar húmido no quarto | Alivia a irritação das vias aéreas |
| Isolamento de pessoas vulneráveis | Proteger bebés e imunocomprometidos |
Nota: A tosse convulsa não responde a antitússicos (xaropes para a tosse) nem a broncodilatadores. Estes medicamentos não devem ser usados sem orientação médica, pois não têm benefício comprovado e podem mascarar a gravidade da situação.
Vacinação: A Melhor Proteção Contra a Tosse Convulsa
A vacinação é a medida mais eficaz para prevenir a tosse convulsa e as suas complicações graves. Em Portugal, a vacina está incluída no Programa Nacional de Vacinação (PNV), combinada com as vacinas contra a difteria e o tétano (vacina DTPa/Tdpa), e é administrada gratuitamente no Serviço Nacional de Saúde.
Esquema de Vacinação em Portugal (PNV)
| Idade | Vacina | Observações |
|---|---|---|
| 2 meses | DTPa — 1.ª dose | Início da imunização primária |
| 4 meses | DTPa — 2.ª dose | |
| 6 meses | DTPa — 3.ª dose | |
| 18 meses | DTPa — reforço | |
| 5 a 6 anos | DTPa — reforço | |
| 12 a 13 anos | Tdpa — reforço | Dose reduzida de antígenos |
| Adultos | Tdpa — a cada 10 anos | Reforço recomendado pela DGS |
| Grávidas (27-36 sem.) | Tdpa | Gratuito no SNS; protege o recém-nascido |
Nota importante: A vacina não confere proteção vitalícia. A imunidade diminui com o tempo — o que explica porque adultos e adolescentes vacinados podem contrair a doença em formas mais ligeiras, tornando-se vetores silenciosos de transmissão para bebés vulneráveis.
Vacinação na Gravidez: Proteção para o Recém-Nascido
A DGS recomenda a vacinação Tdpa entre as 27 e as 36 semanas de gravidez. Esta estratégia permite que os anticorpos maternos sejam transferidos para o bebé através da placenta, conferindo proteção passiva nas primeiras semanas de vida — antes de o recém-nascido poder completar o seu próprio esquema vacinal.
Esta vacinação é gratuita no SNS e não apresenta riscos conhecidos para a grávida ou para o feto. Se tiver dúvidas, fale com o seu obstetra ou médico de família.
Tal como sucede com a varicela — onde, como explicámos no nosso guia sobre varicela, a vacinação pré-natal também é recomendada para proteger o bebé —, a tosse convulsa é uma doença em que a prevenção vacinal continua a ser a estratégia mais eficaz disponível.
Complicações da Tosse Convulsa: O Que Pode Acontecer
A maioria dos adultos saudáveis e crianças mais velhas recupera da tosse convulsa sem sequelas. No entanto, as complicações podem ser graves nos grupos vulneráveis.
Complicações em Bebés e Crianças Pequenas
- Pneumonia bacteriana: causa mais comum de morte por tosse convulsa; é frequentemente causada por sobreinfeção bacteriana. Se notar sinais de pneumonia — febre alta, dificuldade respiratória agravada —, procure ajuda médica urgente
- Apneias e hipoxia cerebral: paragens respiratórias repetidas podem causar danos neurológicos permanentes
- Convulsões: por privação de oxigénio durante os acessos
- Encefalopatia: raramente, mas com sequelas graves
- Desnutrição: por vómitos repetidos e recusa alimentar
- Hospitalização: necessária em mais de metade dos bebés com menos de 6 meses infetados
Complicações em Adolescentes e Adultos
- Fraturas de costelas por esforço repetido da tosse
- Hérnias inguinais ou abdominais desencadeadas pelo esforço
- Hemorragias subconjuntivais (vasos rompidos nos olhos) — inesteticamente alarmantes mas geralmente benignas
- Incontinência urinária transitória, especialmente em mulheres
- Síncope (desmaio) após acessos de tosse intensa
- Insónia e exaustão por acessos noturnos repetidos
A tosse convulsa é uma doença que pode parecer «do passado», mas que continua a circular ativamente em Portugal e na Europa. A melhor defesa é manter a vacinação em dia para toda a família — incluindo adultos e grávidas —, reconhecer os sintomas precocemente e não hesitar em contactar o SNS 24 (808 24 24 24) ou o médico de família ao menor sinal de alerta. Em bebés pequenos, qualquer suspeita justifica uma ida imediata à urgência pediátrica.
Fontes: Direção-Geral da Saúde (DGS), Serviço Nacional de Saúde (SNS), European Centre for Disease Prevention and Control (ECDC), Organização Mundial da Saúde (OMS).

