A faringite — inflamação aguda ou crónica da faringe — é uma das condições mais comuns em todo o mundo e uma das principais razões pelas quais os portugueses recorrem ao médico de família, especialmente durante os meses de outono e primavera. Estima-se que a faringite seja responsável por cerca de 10% de todas as consultas de medicina geral e familiar em Portugal, sendo a dor de garganta um dos sintomas mais pesquisados online em todas as faixas etárias.
Apesar de ser habitualmente auto-limitada e benigna, a faringite pode, em alguns casos, ser sinal de uma infeção bacteriana que requer tratamento com antibióticos — ou, raramente, de condições mais sérias. Saber distinguir os diferentes tipos de faringite, reconhecer os sinais de alarme e saber quando procurar ajuda médica é fundamental para uma recuperação rápida e segura.
Neste guia completo baseado nas orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS), do SNS 24 e da Organização Mundial da Saúde (OMS), explicamos tudo o que precisa de saber sobre faringite.
Aviso médico: Este conteúdo é meramente informativo e educativo. Não substitui uma consulta médica, não estabelece diagnósticos nem prescreve tratamentos. Se apresenta sintomas de faringite, consulte o seu médico assistente ou contacte o SNS 24 pelo telefone 808 24 24 24. Em caso de emergência, ligue 112.
O Que É a Faringite e Porque Ocorre
A faringe é a estrutura em forma de tubo que conecta a cavidade oral e nasal à laringe e ao esófago. Divide-se em três zonas: a nasofaringe (atrás do nariz), a orofaringe (visível quando se abre a boca) e a hipofaringe (por baixo, ligada à laringe).
Fala-se em faringite quando esta estrutura fica inflamada, habitualmente em resposta a uma infeção viral ou bacteriana, mas também por irritantes físicos ou químicos. A inflamação provoca os sintomas clássicos de dor, ardor, vermelhidão e, em muitos casos, dificuldade em engolir.
A faringite pode ser:
- Aguda — episódio único com resolução em menos de 3 semanas
- Recorrente — vários episódios por ano
- Crónica — sintomas persistentes há mais de 3 meses
Faringite vs Amigdalite: Como Distinguir
Esta é uma das questões mais frequentes. A distinção é anatómica: enquanto a faringite envolve a parede posterior da garganta (faringe), a amigdalite envolve as amígdalas — as duas massas ovais de tecido linfático de cada lado da entrada da garganta. Na prática clínica, as duas condições coexistem com muita frequência, chamando-se então faringoamigdalite.
A faringite isolada costuma causar dor mais difusa em toda a garganta. A amigdalite provoca dor mais localizada nas amígdalas, que aparecem visivelmente aumentadas e, nas formas bacterianas, com pontos brancos ou exsudado.
Como Reconhecer os Sintomas de Faringite?
O quadro clínico da faringite varia consideravelmente consoante a causa, a idade do doente e a forma — aguda ou crónica. Existem, no entanto, sintomas que são comuns à maioria dos casos.
Sintomas Gerais da Faringite Aguda
Os sintomas mais comuns da faringite aguda incluem:
- Dor de garganta — o sintoma cardinal, que pode variar entre uma ligeira irritação e uma dor intensa que dificulta a deglutição
- Ardor ou raspagem na garganta — sensação de garganta seca e irritada, especialmente ao respirar pela boca
- Dificuldade em engolir (odinofagia) — piora ao engolir alimentos sólidos e, em casos mais graves, ao engolir a própria saliva
- Vermelhidão da garganta — a parede posterior da faringe apresenta-se visivelmente avermelhada e, por vezes, edemaciada
- Voz alterada — rouquidão ou voz abafada, especialmente se a laringe também estiver envolvida
- Tosse seca ou irritativa — frequente nas formas virais
- Gânglios cervicais aumentados — os nódulos linfáticos do pescoço podem estar sensíveis ao toque
Sintomas da Faringite Viral
A faringite de origem viral representa a grande maioria dos casos — estima-se que 60 a 75% das faringites agudas sejam de causa viral. Além dos sintomas locais na garganta, a faringite viral apresenta habitualmente:
- Nariz entupido ou a pingar (rinorreia)
- Espirros
- Olhos vermelhos ou lacrimejantes (conjuntivite)
- Tosse
- Rouquidão
- Febre baixa (geralmente abaixo de 38,5°C) ou ausência de febre
- Mal-estar geral
A instalação dos sintomas é tipicamente gradual, e a evolução espontânea costuma ser favorável ao fim de 5 a 7 dias.
Sintomas da Faringite Bacteriana
A faringite bacteriana por Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A — EBHGA) apresenta características que a distinguem da viral, embora a distinção clínica não seja sempre evidente:
- Instalação súbita da dor de garganta intensa
- Febre alta (igual ou superior a 38,5°C), frequentemente com calafrios
- Ausência de tosse, rinorreia e conjuntivite
- Amígdalas aumentadas e com exsudado (pontos brancos ou amarelados)
- Gânglios cervicais anteriores muito aumentados e dolorosos
- Dor de barriga, náusea e vómito — mais frequentes em crianças
O critério de Centor (e a sua versão atualizada, o critério de McIsaac) é utilizado pelos médicos para estimar a probabilidade de faringite estreptocócica e orientar a decisão de pedir exame cultural ou prescrever antibiótico.
Sintomas de Faringite em Crianças
Em crianças mais novas, os sintomas de faringite podem ser mais inespecíficos. Para além da dor de garganta, é comum observar:
- Recusa alimentar e dificuldade em beber
- Irritabilidade e choro frequente
- Febre alta com aparecimento súbito
- Dor de barriga (especialmente na faringite estreptocócica)
- Salivação excessiva se a dor ao engolir for muito intensa
Nas crianças com menos de 3 anos, a faringite estreptocócica é menos frequente. A maioria dos casos de dor de garganta nesta faixa etária tem origem viral.
Sintomas em Adultos e Idosos
Nos adultos, a faringite viral pode cursar com sintomas gripais mais marcados — cansaço, dores musculares, dor de cabeça. Em idosos, a apresentação pode ser mais atípica, com menos febre mas maior propensão para complicações. A faringite crónica em adultos, associada ao refluxo gastroesofágico, ao tabagismo ou a ambientes com ar seco, manifesta-se sobretudo como pigarro persistente, sensação de corpo estranho na garganta e rouquidão matinal.
Se sentir rouquidão persistente que não melhora em 2 a 3 semanas, leia o nosso guia sobre sintomas de laringite para perceber quando a situação requer avaliação otorrinolaringológica.
Causas de Faringite: Viral, Bacteriana e Outras
As Causas Mais Comuns
| Tipo | Agentes mais frequentes | Características |
|---|---|---|
| Viral | Rinovírus, adenovírus, vírus influenza, vírus parainfluenza, EBV | 60-75% dos casos; resolução espontânea |
| Bacteriana | Streptococcus pyogenes (EBHGA) | 15-30% em crianças; 5-15% em adultos; risco de complicações |
| Bacteriana (rara) | Mycoplasma pneumoniae, Chlamydophila pneumoniae | Quadros atípicos, mais lentos |
| Alérgica | Pólen, ácaros, animais, fungos | Sem febre; associada a rinite alérgica |
| Irritativa | Tabaco, álcool, ar seco, poluição, refluxo ácido | Crónica; sem infeção identificável |
| Outras | Monucleose infeciosa (EBV), HIV agudo | Quadros mais graves; gânglios muito aumentados |
Faringite Alérgica: Um Tipo Frequentemente Negligenciado
A faringite alérgica é menos conhecida mas bastante comum, especialmente na primavera — quando os níveis de pólen em Portugal atingem o pico (abril e maio). Ocorre em pessoas sensíveis a aeroalérgenos como o pólen das gramíneas, a parietária e a oliveira, causando irritação da faringe sem infeção. Costuma acompanhar outros sintomas de alergia como espirros, nariz a pingar e olhos vermelhos. Se suspeita que os seus sintomas têm origem alérgica, consulte o guia sobre rinite alérgica para perceber como distinguir e gerir esta condição.
Faringite por Refluxo (Laringofaringite de Refluxo)
O ácido gástrico que sobe pelo esófago pode irritar de forma repetida a faringe e a laringe, causando inflamação crónica. Esta forma de faringite — a laringofaringite de refluxo (LPR) — manifesta-se sobretudo com:
- Pigarro crónico
- Sensação de “bola” na garganta (globus faríngeo)
- Rouquidão matinal
- Tosse seca crónica
- Ardor na garganta sem febre
Se tem tosse persistente e sensação de garganta irritada há mais de 3 semanas, o nosso artigo sobre tosse crónica: causas e quando preocupar pode ajudá-lo a identificar possíveis causas.
Diagnóstico de Faringite
O diagnóstico de faringite é essencialmente clínico — baseado na história dos sintomas e na observação da garganta. O médico pode usar critérios de probabilidade (como o critério de Centor/McIsaac) para decidir se é necessário pesquisa laboratorial de estreptococo.
Quando São Necessários Exames?
O teste rápido de antigénio para estreptococo (disponível nos centros de saúde e em farmácias) pode ser feito em 5 a 10 minutos e tem uma especificidade superior a 95%. Em caso de resultado negativo mas com suspeita clínica elevada, pode ser complementado com cultura de exsudado faríngeo.
Outros exames podem ser pedidos se o médico suspeitar de mononucleose infeciosa (hemograma, anticorpos heterófilos), de abcesso periamigdalino (tomografia computorizada) ou de outras causas menos frequentes.
Quando Consultar um Médico por Faringite
A maioria das faringites virais resolve-se sem necessidade de consulta médica. No entanto, existem situações que justificam avaliação presencial com urgência:
Sinais de Alarme — Procure Ajuda Imediata
Ligue 112 ou vá ao serviço de urgência se apresentar:
- Dificuldade grave em respirar ou sensação de sufoco
- Dificuldade em engolir saliva (sinal possível de abcesso)
- Incapacidade de abrir a boca (trismo)
- Voz muito abafada (“voz de batata quente”) com febre alta
- Rigidez da nuca com febre — pode ser sinal de meningite
- Erupção cutânea vermelha difusa com dor de garganta — possível escarlatina
Situações que Justificam Consulta Médica
Contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou marque consulta com o seu médico assistente se:
- A dor de garganta for intensa e durar mais de 5 a 7 dias sem melhoria
- Tiver febre acima de 38,5°C durante mais de 48 horas
- Aparecerem pontos brancos ou exsudado na garganta
- Os gânglios do pescoço estiverem muito aumentados e dolorosos
- Tiver dificuldade em abrir a boca ou engolir
- For grávida e tiver faringite com febre (qualquer temperatura)
- A criança recusar comer ou beber, estiver muito prostrada, ou tiver menos de 6 meses
Tabela Orientativa: Viral ou Bacteriana?
| Característica | Sugere Viral | Sugere Bacteriana |
|---|---|---|
| Instalação | Gradual | Súbita |
| Febre | Baixa ou ausente | Alta (> 38,5°C) |
| Tosse | Presente | Ausente |
| Corrimento nasal | Presente | Ausente |
| Pontos brancos | Raros | Frequentes |
| Dor de barriga (crianças) | Rara | Relativamente comum |
| Duração sem tratamento | 5-7 dias | > 10 dias |
Esta tabela é apenas orientativa. Apenas um médico pode avaliar clinicamente e indicar se são necessários antibióticos.
Tratamento e Cuidados em Casa
Faringite Viral: Tratamento Sintomático
A faringite viral não beneficia de antibióticos — o tratamento é sintomático e visa aliviar o desconforto:
- Analgésicos e antipiréticos: paracetamol ou ibuprofeno (este último deve ser evitado na gravidez e em pessoas com problemas renais ou gástricos)
- Hidratação adequada: líquidos mornos como água, chá com mel ou caldo ajudam a aliviar a irritação e a manter as mucosas hidratadas
- Pastilhas ou sprays de garganta: produtos à base de lidocaína, benzocaína ou clorexidina podem proporcionar alívio local temporário
- Gargarejo com água morna e sal: um copo de água morna com meia colher de chá de sal pode ajudar a reduzir a inflamação local
- Repouso vocal: evitar falar em voz alta ou sussurrar excessivamente, que pode irritar ainda mais a mucosa
- Humidificador: em ambientes com ar muito seco, pode ajudar a aliviar o desconforto
Faringite Bacteriana: Antibioterapia
A faringite estreptocócica confirmada (por teste rápido ou cultura) requer tratamento antibiótico prescrito pelo médico — habitualmente amoxicilina ou penicilina V durante 10 dias. O tratamento é fundamental para:
- Reduzir a duração e intensidade dos sintomas
- Prevenir a transmissão da bactéria
- Evitar complicações como a febre reumática aguda (com possível envolvimento cardíaco) e a glomerulonefrite pós-estreptocócica
Não tome antibióticos sem receita médica. O uso inadequado de antibióticos contribui para o desenvolvimento de resistências bacterianas, um problema de saúde pública grave em Portugal e em toda a Europa.
Faringite Recorrente e Crónica: O Que Fazer
Quando a faringite se repete com frequência (mais de 4 a 6 episódios por ano) ou os sintomas persistem há mais de 3 meses, fala-se em faringite recorrente ou crónica. Nestes casos, é importante identificar a causa subjacente:
- Refluxo gastroesofágico: avaliar e tratar o refluxo (medidas dietéticas, posição ao dormir, medicação)
- Alergia crónica: identificar e controlar os alérgenos (ver rinite alérgica)
- Tabagismo: a cessação tabágica é fundamental para a saúde das mucosas respiratórias
- Ambiente muito seco: uso de humidificador, especialmente no inverno com aquecimento central
- Deficiências imunológicas: avaliação imunológica em casos de infeções muito frequentes
- Sinusite crónica: a drenagem de pus pela parte posterior da garganta (gotejamento pós-nasal) pode causar irritação crónica da faringe — leia sobre os sintomas de sinusite crónica
Faringite e Febre: O Que Fazer em Casa
A febre associada à faringite pode ser debilitante. Além dos analgésicos e antipiréticos (paracetamol ou ibuprofeno conforme indicação médica), é importante manter uma boa hidratação — o consumo de líquidos aumenta durante a febre. Se a febre for persistente ou muito elevada, o nosso guia sobre febre em adultos: quando preocupar explica as orientações da DGS para o controlo da temperatura em casa.
Complicações Possíveis da Faringite
A faringite viral raramente origina complicações. A faringite bacteriana não tratada pode, no entanto, evoluir para:
- Otite média aguda — infeção do ouvido médio por extensão da infeção
- Sinusite aguda — extensão à cavidade sinusal
- Abcesso periamigdalino — coleção de pus junto às amígdalas (urgência médica)
- Febre reumática aguda — complicação imunológica grave, mais rara nos países desenvolvidos
- Glomerulonefrite pós-estreptocócica — inflamação dos rins; requer monitorização médica
Prevenção da Faringite
Algumas medidas simples podem reduzir significativamente o risco de contrair faringite infeciosa:
- Higiene das mãos regular com água e sabão, especialmente antes de comer e depois de assoar o nariz
- Evitar tocar no rosto (boca, nariz, olhos) com as mãos
- Não partilhar copos, talheres ou outros utensílios pessoais
- Etiqueta respiratória: tossir e espirrar para o cotovelo ou para um lenço descartável
- Evitar o contacto próximo com pessoas doentes durante a fase mais contagiosa
- Manter ambientes bem ventilados e com humidade adequada
- Não fumar e evitar a exposição passiva ao fumo do tabaco
- Dormir em superfícies limpas e lavar a roupa de cama regularmente durante episódios de doença
Resumo: Pontos-Chave Sobre a Faringite
A faringite é uma condição muito comum, na maioria dos casos causada por vírus e de resolução espontânea. A distinção entre faringite viral e bacteriana é fundamental para evitar o uso desnecessário de antibióticos. Os sinais de alarme — dificuldade em respirar ou engolir, febre muito alta persistente, abaulamento na garganta — requerem avaliação médica urgente.
Se os seus sintomas de faringite se tornarem recorrentes, se houver febre persistente superior a 48 horas, ou se surgir qualquer sinal de alarme, contacte o SNS 24 (808 24 24 24) ou o seu médico de família. Em caso de emergência, ligue sempre 112.
Conteúdo elaborado com base nas orientações da Direção-Geral da Saúde (DGS), do SNS 24 e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Última revisão: abril de 2026.

