A sarna humana, também chamada de escabiose, é uma infestação da pele causada por um ácaro microscópico — Sarcoptes scabiei. Embora seja uma doença antiga, voltou a ser preocupação de saúde pública em Portugal e em toda a Europa, com aumento significativo de casos nos últimos anos, sobretudo em jovens, lares de idosos e contextos comunitários. A boa notícia é que a sarna tem tratamento eficaz — desde que diagnosticada precocemente e que todos os contactos próximos sejam tratados em simultâneo.
Neste guia, a equipa de Sintomas.pt explica como reconhecer os sinais da sarna, distingui-la de outras doenças de pele com comichão, conhecer os tratamentos disponíveis e prevenir o contágio em casa, na escola ou no trabalho.
Aviso médico: Esta informação tem carácter educativo e não substitui a consulta médica. Não utilize este conteúdo para autodiagnosticar ou automedicar. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado.
O Que É a Sarna (Escabiose)?
A sarna é uma infestação parasitária da pele provocada por um ácaro chamado Sarcoptes scabiei var. hominis. A fêmea adulta penetra na camada superficial da pele e escava pequenos túneis (sulcos acarinos) onde deposita os seus ovos. A reação imunitária do organismo aos ácaros, ovos e fezes do parasita é responsável pelos sintomas característicos: comichão intensa e lesões cutâneas dispersas.
A doença é conhecida há séculos, mas, contrariamente ao que muitos pensam, não está relacionada com falta de higiene. A sarna pode afetar pessoas de qualquer idade, classe social ou nível de cuidado pessoal, e tem sido cada vez mais frequente em Portugal — com surtos descritos em escolas, infantários, lares de idosos e até hospitais.
Porque Está a Aumentar em Portugal e na Europa
Vários fatores explicam a recente subida de casos de escabiose:
- Possível resistência parcial dos ácaros aos tratamentos clássicos (permetrina), com tratamentos que falham mais frequentemente
- Diagnóstico tardio, muitas vezes confundido com dermatite atópica ou eczema ou urticária
- Tratamento incompleto dos contactos próximos, levando a reinfestações
- Aumento de contextos comunitários — lares, infantários e residências universitárias com elevada densidade
- Mobilidade e habitação partilhada, especialmente em populações jovens
Quais São os Sintomas da Sarna?
Os sintomas da sarna podem demorar a manifestar-se: 2 a 6 semanas após o primeiro contágio em pessoas que nunca tiveram sarna; apenas 1 a 4 dias em pessoas que já foram afetadas anteriormente. Esta latência é uma das razões pelas quais a sarna se transmite tanto dentro do agregado familiar antes de ser diagnosticada.
Sintomas Principais da Sarna
- Comichão intensa, persistente, com agravamento marcado à noite
- Pequenas pápulas vermelhas dispersas, por vezes com vesícula no topo
- Sulcos acarinos: linhas finas, esbranquiçadas ou acinzentadas, com 2-15 mm de comprimento, que correspondem aos túneis escavados pela fêmea
- Crostas e escoriações por coçar repetidamente
- Espessamento e escurecimento da pele em casos de longa evolução
- Sintomas em vários membros da família ou de uma instituição em simultâneo
- Comichão sem causa aparente que mantém o doente acordado durante a noite
Localizações Típicas das Lesões em Adultos
A sarna tem uma distribuição característica:
- Espaços entre os dedos das mãos
- Punhos (face anterior)
- Cotovelos
- Axilas
- Cintura e umbigo
- Mamilos (sobretudo nas mulheres)
- Genitais externos masculinos (lesões nodulares no pénis e escroto são quase patognomónicas)
- Nádegas e zona lombar
- Atrás dos joelhos e tornozelos
A face e o couro cabeludo geralmente não são afetados em adultos, exceto em casos de sarna crostosa.
Sarna em Crianças e Bebés
Nas crianças muito pequenas e bebés com menos de 2 anos, a apresentação pode ser muito diferente da do adulto:
- As lesões podem afetar face, couro cabeludo, palmas das mãos e plantas dos pés
- Predominam vesículas e pústulas em vez dos sulcos típicos
- O bebé apresenta-se irritado, agitado, com sono perturbado
- Pode ocorrer recusa alimentar e dificuldade em mamar
- A coceira persistente leva a lesões secundárias com risco de impetigo sobreinfetado
Sarna em Idosos e Pessoas Imunodeprimidas
Em idosos institucionalizados, doentes acamados ou pessoas com imunidade comprometida, a sarna pode evoluir para uma forma muito grave conhecida como sarna crostosa ou sarna norueguesa:
- Pele com crostas espessas, esbranquiçadas e descamativas
- Distribuição em áreas extensas, incluindo couro cabeludo e unhas
- Comichão paradoxalmente ligeira ou ausente
- Cargas parasitárias enormes — milhares ou milhões de ácaros (vs. 10-15 numa sarna clássica)
- Extremamente contagiosa — pode disseminar-se rapidamente num lar ou hospital
A sarna crostosa em idosos é uma emergência de saúde pública e exige tratamento urgente em ambiente hospitalar ou supervisionado.
Como Reconhecer a Sarna? Sarna vs. Outras Doenças de Pele
A sarna é uma das doenças de pele mais frequentemente confundidas com outras patologias dermatológicas. Saber distingui-la é fundamental, pois o tratamento é diferente.
Sarna vs. Dermatite Atópica ou Eczema
| Característica | Sarna | Dermatite Atópica / Eczema |
|---|---|---|
| Início | Súbito, em pessoa previamente sã | Crónico, com surtos recorrentes |
| Comichão | Intensa, pior à noite | Crónica, mais constante |
| Lesões típicas | Pápulas, sulcos, vesículas | Pele seca, espessada, descamativa |
| Localização | Espaços interdigitais, pulsos, axilas, genitais | Face, cotovelos, joelhos, dobras |
| Outros familiares | Frequentemente afetados | Não contagiosa |
| Resposta a corticoide tópico | Insuficiente, pode mascarar | Geralmente boa |
A dermatite atópica raramente afeta os genitais e a coceira não tem o padrão noturno tão marcado.
Sarna vs. Urticária
A urticária caracteriza-se por placas elevadas vermelhas, transitórias (cada placa dura menos de 24 horas) e que mudam de localização. A sarna apresenta lesões fixas, persistentes durante semanas no mesmo local, com sulcos visíveis e não responde a anti-histamínicos da forma típica da urticária.
Sarna vs. Picadas de Insetos ou Pulgas
As picadas de pulgas surgem habitualmente em grupos de 3 lesões alinhadas (linha do pequeno-almoço), geralmente nas pernas e tornozelos. A sarna distribui-se por várias zonas em simultâneo, com comichão noturna intensa e atinge áreas que as pulgas não atingem (espaços interdigitais, genitais).
Sarna vs. Rinite Alérgica e Outras Alergias
Uma comichão isolada pode ser confundida com manifestação cutânea de uma alergia. Contudo, na rinite alérgica ou nas alergias alimentares, a comichão geralmente acompanha-se de outros sintomas (espirros, lacrimejo, gastrointestinais), enquanto a sarna se manifesta exclusivamente na pele e não responde a anti-histamínicos.
Causas e Fatores de Risco da Sarna
O Ácaro Sarcoptes scabiei
O Sarcoptes scabiei var. hominis é um ácaro microscópico (0,3-0,4 mm) que vive exclusivamente no ser humano. A fêmea adulta penetra na camada córnea da pele, escava um sulco e deposita 2-3 ovos por dia ao longo de 30-60 dias até morrer. As larvas eclodem em 3-4 dias e amadurecem em 10-14 dias — o ciclo completo dura cerca de 2 semanas.
Importante: os ácaros das sarnas animais (cães, gatos) podem causar comichão temporária em humanos, mas não conseguem completar o ciclo na pele humana, autolimitando-se em poucos dias sem tratamento específico.
Como se Transmite a Sarna
A transmissão ocorre por:
- Contacto direto pele com pele prolongado, geralmente superior a 10-15 minutos: relações sexuais, partilha de cama, cuidados a doentes acamados, brincadeiras prolongadas entre crianças
- Contacto indireto com roupa, toalhas, lençóis ou objetos contaminados — sobretudo na sarna crostosa
- Não se transmite por aperto de mão breve, beijos curtos ou estar na mesma sala
O ácaro não sobrevive mais de 48-72 horas fora do hospedeiro humano em condições ambientais normais.
Fatores de Risco
Os seguintes contextos aumentam o risco de sarna:
- Coabitação com pessoa infestada (familiar, parceiro)
- Crianças em creches ou infantários
- Lares de idosos e instituições de longa duração
- Hospitais e centros de cuidados continuados
- Idosos acamados ou com mobilidade reduzida
- Imunossupressão — VIH, transplantados, quimioterapia, corticoterapia prolongada
- Sem-abrigo e populações em condições de habitação precária
- Atividade sexual com múltiplos parceiros (a sarna é por vezes considerada uma doença de transmissão sexual em adultos jovens)
- Pobreza e sobrelotação habitacional
Diagnóstico e Tratamento da Sarna
Como é Feito o Diagnóstico
O diagnóstico da sarna é fundamentalmente clínico, baseado nos sintomas, no aspeto e localização das lesões e na história de contactos com pessoas afetadas. O médico pode utilizar técnicas adicionais quando as lesões são atípicas:
- Dermatoscopia: visualização do ácaro em forma de “asa delta” no fim do sulco
- Raspagem da pele com lâmina e observação ao microscópio
- Teste da tinta: aplicar tinta sobre uma lesão para visualizar o sulco
Em casos resistentes ou atípicos, pode ser necessária biópsia cutânea.
Tratamento da Sarna
O tratamento da sarna obedece a princípios fundamentais:
- Tratar todas as pessoas em contacto próximo simultaneamente, mesmo as que ainda não têm sintomas
- Aplicar o tratamento corretamente, em todo o corpo (do pescoço aos pés em adultos; incluindo a cabeça em crianças, idosos e sarna crostosa)
- Repetir o tratamento ao 7º-14º dia para eliminar ácaros recém-eclodidos
- Lavar e descontaminar roupas e ambiente em paralelo
Tratamentos Disponíveis em Portugal
| Medicamento | Forma | Indicação | Como se Usa |
|---|---|---|---|
| Permetrina 5% | Creme tópico | Primeira linha | Aplicar à noite em todo o corpo, lavar 8-12 h depois; repetir após 7 dias |
| Ivermectina oral | Comprimido | Casos extensos, surtos, crostosa | Dose única (200 µg/kg), repetir após 7-14 dias |
| Benzoato de benzilo | Loção | Alternativa | Aplicar 24 h, repetir 24 h depois |
| Enxofre 5-10% | Pomada | Bebés <2 meses, gravidez | Aplicar 3 noites consecutivas |
Importante: Estes medicamentos requerem prescrição médica. A ivermectina oral só pode ser obtida com receita médica especial. Nunca se automedique nem aplique tratamentos antiparasitários veterinários — são perigosos para humanos.
Cuidados em Paralelo com o Tratamento
- Lavar a 60°C ou superior toda a roupa, lençóis e toalhas usados nos últimos 3 dias
- Saco fechado durante 72 horas para itens que não podem ir à máquina (almofadas, peluches, edredões)
- Aspirar cuidadosamente sofás, colchões e tapetes
- Cortar as unhas para evitar lesões secundárias por arranhar
- Anti-histamínicos orais podem ajudar a aliviar a comichão residual
- Hidratantes emolientes repõem a barreira cutânea após o tratamento
Quando Consultar um Médico?
Consulte o Médico de Família ou Dermatologista se:
- Tiver comichão persistente que piora à noite há mais de 2 semanas
- Outras pessoas em casa também referem comichão recente
- A comichão não responde a anti-histamínicos habituais
- Identifica lesões em espaços interdigitais, pulsos, axilas, genitais ou mamilos
- Mantém a comichão mais de 4 semanas após ter feito tratamento — pode haver reinfestação ou tratamento incompleto
Situações que Requerem Atenção Urgente
Recorra ao serviço de urgência ou ligue para o SNS 24 (808 24 24 24) se:
- Surgirem sinais de infeção bacteriana secundária: febre, pus, vermelhidão extensa, dor crescente
- Houver mal-estar geral, prostração ou recusa alimentar num bebé ou idoso
- Aparecer descamação extensa em placas espessas num idoso ou imunodeprimido (suspeita de sarna crostosa)
- Houver surto suspeito num lar, hospital ou infantário — deve ser comunicado às autoridades de saúde pública
Em emergência, ligue 112.
A sarna sobreinfetada por bactérias pode evoluir para erisipela, impetigo ou, mais raramente, complicações estreptocócicas como glomerulonefrite. Em pessoas com diabetes ou outras patologias crónicas, a vigilância médica deve ser ainda mais cuidadosa.
Prevenção e Controlo da Sarna em Comunidade
Como Evitar o Contágio
A prevenção da sarna baseia-se na deteção precoce e no tratamento simultâneo de todos os contactos:
- Identificar e tratar o caso índice rapidamente
- Tratar todos os contactos próximos (familiares, parceiros, cuidadores) em simultâneo, mesmo sem sintomas
- Evitar contacto pele a pele prolongado com pessoas infestadas até 24 horas após o primeiro tratamento
- Não partilhar roupas, lençóis, toalhas, escovas, almofadas
- Ensinar as crianças a não partilhar roupa nem dormir na mesma cama de outras crianças durante o tratamento
- Comunicar à creche, escola ou trabalho o diagnóstico para vigilância de casos adicionais
Quando Pode Voltar à Escola ou ao Trabalho?
De acordo com as orientações habituais em Portugal, a pessoa pode regressar 24 horas após o início do primeiro tratamento eficaz, desde que tenha aplicado corretamente o medicamento e que esteja em vigilância. Em surtos institucionais, podem ser necessárias medidas adicionais.
Gestão de Surtos em Lares e Instituições
Os surtos em lares, hospitais e infantários exigem uma resposta organizada:
- Notificação da autoridade de saúde pública
- Diagnóstico claro (idealmente por dermatologista) do(s) caso(s) inicial(is)
- Tratamento simultâneo de todos os residentes e profissionais de saúde envolvidos
- Limpeza profunda de roupa, têxteis e equipamentos
- Vigilância ativa durante 6 semanas com novo tratamento se surgirem casos
- Formação dos profissionais sobre identificação precoce
Mitos e Verdades Sobre a Sarna
A sarna é rodeada de mitos que frequentemente atrasam o diagnóstico e o tratamento. Vamos esclarecer os mais comuns:
- “A sarna é sinal de falta de higiene” — Falso. Pode afetar qualquer pessoa, independentemente da higiene. Lavagens frequentes podem até mascarar sinais sem eliminar o ácaro.
- “A sarna apanha-se de animais” — Parcialmente verdadeiro. A sarna humana é causada por um ácaro específico do ser humano. As sarnas dos cães ou gatos podem provocar comichão temporária mas não persistem em humanos.
- “Banhos quentes resolvem a sarna” — Falso. Não eliminam o ácaro e podem agravar a irritação cutânea.
- “A comichão desaparece logo após o tratamento” — Falso. Pode persistir 2 a 4 semanas, mesmo com tratamento bem-sucedido — é a chamada “comichão pós-escabiótica”.
- “Só é preciso tratar quem tem sintomas” — Falso. Todos os contactos próximos devem ser tratados em simultâneo, mesmo sem sintomas, para evitar reinfestação.
Perguntas Frequentes sobre Sarna
Quanto tempo dura a sarna depois do tratamento? Após o tratamento adequado, o ácaro morre em 24 a 48 horas, mas a comichão pode persistir 2 a 4 semanas porque resulta de uma reação alérgica residual da pele. Se a comichão se mantiver intensa após 4 semanas ou surgirem novas lesões, é provável reinfestação ou tratamento incompleto e deve voltar ao médico.
A sarna é contagiosa? Como se transmite? Sim, a sarna é altamente contagiosa. Transmite-se principalmente por contacto direto pele com pele prolongado (mais de 10-15 minutos), sendo frequente em famílias, casais, lares de idosos e infantários. A transmissão indireta por roupa, lençóis ou toalhas é possível, mas menos comum, exceto na sarna crostosa, que é extremamente contagiosa.
Qual a diferença entre sarna e dermatite alérgica ou eczema? A sarna provoca comichão muito intensa que piora à noite, lesões em zonas típicas (entre os dedos, pulsos, axilas, genitais) e finas linhas na pele (sulcos acarinos). A dermatite alérgica e o eczema causam pele seca, descamativa e com placas espessadas em áreas típicas como face, cotovelos e joelhos, sem sulcos nem agravamento marcado durante a noite.
A sarna pode aparecer em crianças e bebés? Sim. Em bebés e crianças pequenas, a sarna pode atingir áreas que raramente são afetadas em adultos, como a face, couro cabeludo, palmas das mãos e plantas dos pés. As lesões são frequentemente vesículas e pústulas e o bebé apresenta-se irritado, com sono perturbado e dificuldade em mamar.
Quais são os primeiros sinais de sarna? Os primeiros sinais são uma comichão progressiva que piora à noite e se mantém durante várias noites seguidas, juntamente com pequenas pápulas vermelhas em zonas como entre os dedos, pulsos, axilas, cintura ou virilhas. Em pessoas que nunca tiveram sarna, os sintomas surgem 2 a 6 semanas após o contágio; em reinfestações, podem aparecer em 1 a 4 dias.
É preciso lavar tudo em casa quando há sarna? Sim, mas de forma orientada. Roupa, lençóis e toalhas usados nos 3 dias antes do tratamento devem ser lavados a 60°C ou superior e secos a alta temperatura. Itens que não podem ser lavados a essa temperatura devem ficar em saco de plástico fechado durante pelo menos 72 horas, pois o ácaro não sobrevive fora do corpo humano por mais tempo.
A sarna pode aparecer em idosos em lares? Sim, e é uma situação cada vez mais frequente em Portugal. Os surtos em lares são preocupantes porque os idosos podem desenvolver sarna crostosa (norueguesa), uma forma muito contagiosa com milhares de ácaros e poucos sintomas de comichão. Qualquer surto suspeito de sarna em lar deve ser comunicado às autoridades de saúde pública.
Informação elaborada pela Equipa Sintomas.pt com base nas recomendações da Direção-Geral da Saúde (DGS), Serviço Nacional de Saúde (SNS), Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) e Organização Mundial de Saúde (OMS). Esta informação tem carácter educativo e não substitui a consulta médica profissional.

