A onicomicose, popularmente conhecida como “fungo nas unhas” ou “micose das unhas”, é uma infeção fúngica das unhas das mãos ou dos pés. É uma das doenças das unhas mais frequentes, estimando-se que afete entre 5% e 10% da população em geral e até mais de 20% dos adultos com mais de 60 anos. Em Portugal, com o clima ameno, a frequência de balneários, piscinas e praias, e o uso prolongado de calçado fechado, é uma queixa muito comum em consultas de medicina geral, dermatologia e podologia.
Apesar de muitas vezes ser encarada apenas como um problema estético, a onicomicose é uma infeção que tende a progredir lentamente, alastrar a outras unhas e à pele e tornar-se cada vez mais difícil de tratar. Em pessoas com diabetes, problemas circulatórios ou imunossupressão, pode mesmo complicar-se com infeções bacterianas e feridas crónicas. Conhecer os sintomas e procurar avaliação médica precoce permite um tratamento mais eficaz e ajuda a evitar recaídas.
Aviso médico: Esta informação tem carácter educativo e não substitui a consulta médica. Não utilize este conteúdo para autodiagnóstico ou automedicação. Consulte sempre um profissional de saúde qualificado.
O Que É a Onicomicose?
A onicomicose é uma infeção das unhas causada por fungos. Estes microrganismos alimentam-se da queratina (a proteína que forma as unhas) e instalam-se preferencialmente em ambientes quentes e húmidos, como o interior dos sapatos. A infeção atinge sobretudo as unhas dos pés, em especial o hálux (dedo grande), embora também possa afetar as unhas das mãos.
Os principais agentes responsáveis são:
- Dermatófitos, como Trichophyton rubrum e Trichophyton mentagrophytes (responsáveis por cerca de 90% dos casos nos pés)
- Leveduras, sobretudo Candida albicans (mais comuns nas unhas das mãos)
- Fungos não dermatófitos (mais raros, mas frequentemente resistentes ao tratamento)
A onicomicose costuma estar associada à tinha dos pés (pé de atleta), uma vez que os fungos das unhas e da pele entre os dedos são frequentemente os mesmos. Tratar uma sem a outra favorece recaídas.
Quão Frequente É a Onicomicose em Portugal?
A onicomicose é uma das dez doenças cutâneas mais frequentes em Portugal. Os dados europeus e portugueses indicam que:
- Afeta 5% a 10% da população em geral, com tendência a aumentar com a idade
- Pode atingir 20% a 50% das pessoas com mais de 70 anos
- É 2 a 3 vezes mais frequente em homens do que em mulheres, sobretudo nas unhas dos pés
- Estima-se que um terço dos diabéticos tenha onicomicose ao longo da vida
- É muito rara em crianças (menos de 1%), mas a sua frequência tem vindo a aumentar com o uso de calçado desportivo fechado e a frequência precoce de piscinas
Tipos de Onicomicose
A onicomicose pode apresentar-se de várias formas, dependendo do fungo responsável, do local por onde a infeção começa e da fase em que se encontra. Identificar o tipo é importante porque influencia o tratamento e o prognóstico.
Onicomicose Distal e Lateral Subungueal
É o tipo mais frequente. A infeção começa pelo bordo livre ou pela lateral da unha e progride em direção à cutícula. A unha torna-se amarelada, espessada e tende a descolar-se do leito ungueal, com acumulação de material queratótico esbranquiçado por baixo. É típica de infeções por Trichophyton rubrum.
Onicomicose Branca Superficial
Surgem manchas brancas pulverulentas na superfície da unha, que podem ser raspadas com uma lima. É mais comum nas unhas dos pés, em especial nas crianças e em adultos jovens. Habitualmente é mais fácil de tratar do que outras formas, porque a infeção é mais superficial.
Onicomicose Proximal Subungueal
A infeção começa perto da cutícula e avança em direção à ponta da unha. É menos frequente, mas é importante porque pode ser um sinal de imunossupressão, como na infeção por VIH. Em qualquer adulto com este tipo de onicomicose, é razoável que o médico investigue eventuais doenças associadas.
Onicomicose Total Distrófica
Representa a fase avançada das outras formas. A unha está totalmente atingida — espessa, deformada, friável, com cor amarelada ou castanha e descolamento extenso. Pode dar dor, dificultar o calçado e favorecer infeções bacterianas. Costuma ser mais difícil de tratar e exige terapia prolongada.
Onicomicose por Candida
Mais frequente nas unhas das mãos, sobretudo em pessoas que mantêm as mãos muito tempo na água (cabeleireiros, cozinheiros, profissionais de limpeza). Associa-se frequentemente a inflamação da pele à volta da unha (paroníquia), com vermelhidão, inchaço e dor.
Como Reconhecer a Onicomicose? Sintomas Principais
Os sintomas da onicomicose instalam-se de forma muito lenta, ao longo de meses ou anos. No início, são facilmente confundidos com pequenos traumas, alterações estéticas ou efeitos da idade, o que faz com que muitas pessoas adiem a consulta. Reconhecer os sinais precoces aumenta significativamente as hipóteses de tratamento bem-sucedido.
Alterações de Cor
- Manchas amareladas, esbranquiçadas, castanhas ou mesmo enegrecidas na unha
- A cor pode começar num canto da unha e ir-se estendendo
- Em alguns casos, surgem estrias longitudinais ou pequenos pontos brancos
Alterações de Espessura e Forma
- Espessamento progressivo da unha (hipertrofia)
- Unha quebradiça, com bordos esfarelados ou irregulares
- Deformação da unha, que pode tornar-se côncava, retorcida ou levantada
- Aspeto pulverulento, com material esbranquiçado a sair da unha
Descolamento da Unha (Onicólise)
- Separação parcial da unha do leito ungueal, sobretudo na ponta ou na lateral
- Acumulação de detritos amarelados ou esbranquiçados sob a unha
- A unha pode parecer “oca” quando se pressiona
Sintomas Associados na Pele
- Comichão e descamação entre os dedos (tinha do pé)
- Pequenas fissuras ou bolhas na planta do pé ou nas mãos
- Mau cheiro nos pés, sobretudo após várias horas de calçado fechado
- Vermelhidão e dor à volta da unha (na onicomicose por Candida)
Onicomicose em Idosos
Nos idosos, a onicomicose é particularmente frequente e pode passar despercebida. Sinais a valorizar incluem unhas muito espessas que dificultam o corte, dor ao calçar sapatos, várias unhas afetadas e associação com tinha do pé. Em pessoas com mobilidade reduzida ou dificuldade em ver os pés, é importante que um familiar ou cuidador inspecione regularmente as unhas.
Onicomicose em Crianças
É rara, mas tem vindo a aumentar. Costuma surgir em crianças com tinha do pé ou tinha do couro cabeludo prévias, em ambientes desportivos (piscinas, ginásios) ou em famílias onde um adulto tem onicomicose. Quando aparece numa criança, justifica investigação dermatológica e, se possível, tratamento de toda a família para evitar recontaminações.
Onicomicose nos Diabéticos
Na pessoa com diabetes, a onicomicose tem maior gravidade porque pode favorecer pequenas feridas, infeções bacterianas e complicações no contexto do pé diabético. Qualquer alteração das unhas num diabético deve ser avaliada por médico ou podologista, mesmo na ausência de dor.
Causas e Fatores de Risco
A onicomicose resulta da invasão da unha por fungos que se aproveitam de fragilidades locais ou sistémicas. Apesar de o agente infeccioso ser comum no ambiente, nem todas as pessoas expostas desenvolvem a doença — depende de fatores individuais.
Fatores de Risco Locais
- Calçado fechado e apertado, que cria humidade e calor
- Sudação excessiva dos pés (hiperidrose)
- Microtraumatismos repetidos nas unhas (calçado de bico fino, prática desportiva)
- História prévia de tinha do pé
- Manicures e pedicures com material mal desinfetado
- Frequência de balneários, piscinas e ginásios sem chinelos
Fatores de Risco Sistémicos
- Idade avançada (circulação mais lenta, unhas que crescem mais devagar)
- Diabetes mellitus mal controlada
- Doença arterial periférica e insuficiência venosa
- Obesidade
- Imunossupressão (corticoides, quimioterapia, VIH, transplantados)
- Predisposição genética e história familiar de onicomicose
Onicomicose vs. Outras Doenças das Unhas
A onicomicose pode ser confundida com psoríase ungueal, líquen plano, traumatismos repetidos, eczema, alterações do envelhecimento ou manchas por verniz. Em muitos casos, só o exame micológico (recolha de fragmento da unha para exame direto e cultura) confirma o diagnóstico — e permite escolher o tratamento certo.
Diagnóstico da Onicomicose
O diagnóstico da onicomicose não deve ser feito apenas pela observação clínica. Estudos demonstram que cerca de metade das alterações das unhas que parecem onicomicose têm, na verdade, outra causa. Por isso, antes de iniciar tratamentos prolongados, sobretudo orais, é fundamental confirmar a presença de fungos.
Avaliação Clínica
O médico de família, dermatologista ou podologista observa:
- A localização e o número de unhas afetadas
- O padrão das alterações (cor, espessura, descolamento)
- A pele dos pés e mãos (à procura de tinha)
- Fatores predisponentes (diabetes, calçado, profissão)
Exames Complementares
- Exame micológico direto: pequena amostra da unha é observada ao microscópio
- Cultura micológica: identifica o fungo específico (resultado em 2 a 4 semanas)
- Biopsia da unha com coloração PAS: muito sensível para casos duvidosos
- PCR para fungos: técnica mais recente, rápida e precisa, ainda pouco disponível no SNS
Diagnóstico Diferencial
| Doença | Sinais típicos | Distinção da onicomicose |
|---|---|---|
| Psoríase ungueal | Pitting, mancha em “óleo”, várias unhas em simultâneo | Associa-se a placas na pele; exame micológico negativo |
| Líquen plano ungueal | Unha fina, com estrias e cicatrizes | Pode levar a destruição definitiva da unha |
| Trauma crónico | Unha espessa apenas no hálux, geralmente unilateral | Relação clara com calçado ou atividade física |
| Eczema periungueal | Vermelhidão e descamação na pele à volta | Predomina a inflamação, não a alteração da unha |
| Verniz / produtos químicos | Manchas amareladas superficiais | Resolvem com a remoção do produto |
Tratamento da Onicomicose
O tratamento da onicomicose deve ser sempre orientado por um profissional de saúde, idealmente após confirmação laboratorial. É um tratamento prolongado e exige adesão rigorosa, sob risco de recaída.
Tratamento Tópico
Aplicado diretamente na unha sob a forma de vernizes medicamentosos ou soluções com antifúngicos como ciclopirox, amorolfina ou efinaconazol. Está indicado:
- Em formas superficiais ou distais ligeiras
- Quando há atingimento de menos de metade da unha
- Em casos sem envolvimento da matriz (raiz da unha)
- Em pessoas que não podem fazer terapêutica oral
A duração varia entre 6 e 12 meses.
Tratamento Oral
Antifúngicos sistémicos (terbinafina, itraconazol ou fluconazol) são prescritos em formas extensas, profundas ou resistentes ao tópico. São mais eficazes mas exigem:
- Vigilância da função hepática com análises ao sangue
- Atenção a interações medicamentosas
- Avaliação de doenças associadas
A duração típica é de 6 semanas para unhas das mãos e 12 a 16 semanas para unhas dos pés.
Procedimentos e Tratamentos Adjuvantes
- Desbridamento mecânico das unhas espessadas (em consulta de podologia)
- Remoção química com pasta de ureia em casos selecionados
- Laser e terapia fotodinâmica (em centros especializados, ainda com evidência limitada)
- Tratamento simultâneo da tinha do pé e desinfeção do calçado
Quanto Tempo Demora a Resolver?
A unha demora a crescer: cerca de 3 mm por mês nas mãos e 1 a 2 mm por mês nos pés. Por isso, mesmo com tratamento eficaz, é necessário esperar 6 meses (mãos) a 9-12 meses (pés) para ver a unha totalmente saudável. A persistência das alterações estéticas durante semanas após iniciar o tratamento não significa falha terapêutica.
Quando Consultar um Médico
A onicomicose é raramente uma emergência médica, mas deve ser sempre avaliada quando há alterações persistentes ou progressivas das unhas. Procurar ajuda cedo evita o alastramento da infeção e aumenta as hipóteses de cura.
Sinais de Alerta para Marcar Consulta
- Mais de uma unha afetada ou alterações que progridem ao longo de semanas
- Unhas amareladas, grossas ou descoladas que não melhoram com cuidados gerais
- Associação com comichão e descamação entre os dedos
- Dor ao calçar sapatos por causa da unha
- Surgimento em crianças, diabéticos, imunodeprimidos ou pessoas com má circulação
Sinais que Justificam Consulta Prioritária
- Diabéticos com qualquer alteração das unhas dos pés (risco de pé diabético)
- Doença arterial periférica ou história de trombose venosa profunda
- Imunossupressão por doença ou medicação
- Sinais de infeção bacteriana associada: vermelhidão intensa, calor, pus, dor súbita
Quando Recorrer à Urgência ou Ligar SNS 24
- Dor intensa e progressiva no dedo afetado, com vermelhidão e inchaço
- Febre, mal-estar geral ou linha vermelha a subir pelo membro
- Diabéticos com ferida no pé, pus ou cheiro intenso
- Em emergência (ferida grave, sinais de infeção sistémica), ligue 112
- Em caso de dúvida, contacte o SNS 24 (808 24 24 24)
Prevenção da Onicomicose
A prevenção é particularmente importante porque a onicomicose recorre em até 25% dos casos após o tratamento. Os cuidados devem manter-se mesmo depois da unha aparentar estar curada.
Cuidados com os Pés e Calçado
- Lavar e secar bem os pés, com especial atenção entre os dedos
- Usar meias de algodão ou fibras técnicas que absorvam a humidade, trocadas todos os dias
- Alternar pares de sapatos para que sequem por completo
- Evitar calçado fechado e apertado em ambientes muito quentes
- Usar chinelos em balneários, piscinas e ginásios
Cuidados com as Unhas
- Cortar as unhas a direito, sem deixar bordos cortantes
- Não partilhar cortadores, limas ou tesouras
- Em manicure/pedicure, exigir material esterilizado ou levar o próprio
- Evitar o uso constante de verniz, sobretudo de gel, que impede a respiração da unha
- Tratar precocemente qualquer lesão ou trauma na unha
Cuidados em Casa
- Tratar a tinha do pé sempre que aparece (pomadas antifúngicas)
- Lavar toalhas e meias a temperaturas elevadas (≥ 60 °C)
- Em famílias com casos de onicomicose, desinfetar o chão do duche e o interior dos sapatos com produtos antifúngicos
- Em diabéticos, fazer vigilância regular dos pés, idealmente em consulta de podologia
Pessoas com síndrome de Raynaud, insuficiência venosa, neuropatia periférica ou diabetes merecem atenção redobrada, uma vez que estas condições aumentam o risco de complicações.
Mitos e Verdades sobre a Onicomicose
| Afirmação | Verdadeiro ou falso? | Comentário |
|---|---|---|
| A onicomicose é só um problema estético | Falso | Pode causar dor, infeções bacterianas e complicações em diabéticos |
| Vinagre e bicarbonato curam a onicomicose | Falso | Podem aliviar o cheiro, mas não eliminam o fungo na profundidade |
| Verniz disfarça e não faz mal | Falso parcial | Camufla, mas dificulta o diagnóstico e o tratamento eficaz |
| O fungo das unhas é contagioso | Verdadeiro | Transmite-se por chinelos, toalhas, balneários e instrumentos partilhados |
| Tratamento oral é sempre necessário | Falso | Em formas ligeiras, o tratamento tópico pode ser suficiente |
| Cura ocorre em poucas semanas | Falso | A unha precisa de meses a crescer; tratamento dura entre 6 e 12 meses |
Conclusão
A onicomicose é uma das infeções fúngicas mais frequentes em Portugal, especialmente em adultos e idosos, e afeta sobretudo as unhas dos pés. Embora muitas vezes seja vista apenas como um problema estético, tende a progredir, é contagiosa, recorre com frequência e pode ter consequências importantes em pessoas com diabetes, má circulação ou imunossupressão.
Reconhecer os sinais precoces — unhas amareladas, espessas, quebradiças ou descoladas — e procurar avaliação médica permite confirmar o diagnóstico, escolher o tratamento mais adequado e evitar complicações. O tratamento é prolongado mas eficaz, e a prevenção continuada é fundamental para evitar recaídas.
Em caso de dúvida sobre os seus sintomas, ligue SNS 24 (808 24 24 24). Em emergência médica, ligue 112.
Referências
- Direção-Geral da Saúde (DGS). Orientações em dermatologia.
- Serviço Nacional de Saúde (SNS) — informação ao utente sobre micoses.
- Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV).
- World Health Organization (WHO) — Fungal priority pathogens list.
- European Academy of Dermatology and Venereology — Guidelines on onychomycosis.

