Aviso Médico: Este artigo tem fins informativos e educativos. Não substitui a consulta médica. Se tiver feridas nos pés que não cicatrizam, dor, alterações de cor ou qualquer preocupação com os seus pés e tem diabetes, consulte o seu médico ou o SNS 24 (808 24 24 24). Em situação de urgência, ligue 112.
O pé diabético é uma das complicações mais sérias da diabetes e uma das principais causas de amputação não traumática em Portugal. Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), cerca de 70% de todas as amputações de membros inferiores em Portugal estão relacionadas com a diabetes — e a grande maioria poderia ser evitada com diagnóstico precoce e cuidados adequados.
A particularidade mais perigosa desta condição é silenciosa: a neuropatia diabética elimina progressivamente a sensação de dor nos pés, tornando feridas e úlceras invisíveis até ao momento em que já estão infectadas. Por isso, reconhecer os sinais precoces do pé diabético é fundamental para qualquer pessoa que viva com diabetes.
O Que É o Pé Diabético?
O pé diabético não é uma doença isolada, mas sim um conjunto de alterações nos pés resultantes de duas complicações crónicas da diabetes: a neuropatia periférica e a doença arterial periférica. Estas duas condições, frequentemente presentes em simultâneo, criam um ambiente nos pés extremamente vulnerável a feridas, infecções e dificuldade de cicatrização.
A DGS publicou em novembro de 2025 a Orientação N.º 005/2025 sobre Prevenção, Diagnóstico e Tratamento do Pé Diabético, reforçando a importância do rastreio sistemático e da abordagem multidisciplinar.
Como a Diabetes Afeta os Pés
Quando a glicemia se mantém elevada durante anos, causa danos progressivos em dois sistemas essenciais:
- Sistema nervoso periférico: a hiperglicemia danifica os nervos sensoriais, motores e autonómicos dos pés. A neuropatia sensorial elimina a perceção de dor, calor e pressão; a neuropatia motora causa deformidades; a neuropatia autonómica reduz a sudação, tornando a pele seca e quebradiça.
- Sistema vascular: a diabetes acelera a aterosclerose, estreitando as artérias dos membros inferiores e reduzindo o fluxo sanguíneo necessário para a cicatrização e a resposta imune.
A combinação destes dois mecanismos faz com que uma simples bolha de calçado desconfortável possa evoluir para uma úlcera profunda infetada sem que a pessoa sinta qualquer dor ou discomfort.
Quem Está em Maior Risco?
Nem toda a pessoa com diabetes desenvolve pé diabético com a mesma probabilidade. Os fatores de risco incluem:
- Diagnóstico de diabetes há mais de 10 anos
- Controlo glicémico inadequado (HbA1c elevada de forma crónica)
- História prévia de úlceras ou amputações
- Presença de neuropatia periférica diagnosticada
- Tabagismo — a nicotina agrava o comprometimento vascular
- Hipertensão arterial e dislipidemia associadas
- Idade superior a 60 anos
- Calçado inadequado ou deformidades nos pés (joanetes, dedos em garra)
De acordo com a DGS, todas as pessoas com diabetes devem ser avaliadas anualmente para estratificação do risco de úlcera no pé.
Como Reconhecer os Sintomas do Pé Diabético?
Um dos aspectos mais traiçoeiros do pé diabético é que, quando a neuropatia está instalada, a ausência de dor pode dar uma falsa sensação de segurança. Os sintomas iniciais são subtis e frequentemente ignorados.
Sintomas de Neuropatia Diabética nos Pés
A neuropatia periférica diabética manifesta-se geralmente de forma bilateral e simétrica, começando pelos pés antes de progredir para as pernas. Os sintomas mais comuns incluem:
- Formigueiro e dormência persistente — sensação de “pés adormecidos” que não passa
- Queimadura ou ardor — especialmente à noite, quando o pé está em repouso
- Sensação de andar sobre algodão ou de ter uma meias grossas nos pés quando não as tem
- Hipersensibilidade paradoxal — em algumas fases, o toque leve provoca dor intensa
- Pele seca, descamativa e com fissuras — resultado da neuropatia autonómica que reduz a sudação
- Unhas frágeis, espessadas ou com alterações de cor
- Deformidades progressivas — dedos em garra, dedos em martelo, joanetes que se acentuam
Se reconhece alguns destes sinais, o nosso guia sobre sintomas de neuropatia periférica explica em detalhe como esta condição se manifesta e progride.
Sintomas de Doença Arterial Periférica (Isquemia)
Quando a componente vascular domina o quadro clínico, os sintomas refletem a redução do fluxo sanguíneo:
- Pés frios ao toque, mesmo em ambiente quente
- Palidez ou cianose (coloração azulada) dos pés e dedos
- Claudicação intermitente — dor tipo cãibra na barriga da perna ou no pé ao caminhar, que alivia com o repouso
- Dor em repouso nas formas mais avançadas, agravada ao deitar (o decúbito reduz ainda mais a pressão de perfusão)
- Feridas que não cicatrizam — úlceras de bordos bem definidos, frequentemente nas pontas dos dedos ou calcanhares
- Pele brilhante, fina e sem pelos — sinal de má circulação crónica
Sintomas em Idosos com Diabetes
As pessoas idosas com diabetes apresentam frequentemente uma combinação das duas formas — neuropática e isquémica — tornando o quadro mais complexo. Neste grupo etário é comum:
- Pele extremamente frágil que rompe com pequenos traumas
- Cicatrização muito mais lenta, mesmo com tratamento adequado
- Confusão entre sintomas de pé diabético e alterações “normais” do envelhecimento
- Menor capacidade de realizar a inspeção diária dos pés por limitações de mobilidade ou visão
Se tem um familiar idoso com diabetes, o inchaço das pernas pode também ser um sinal a vigiar — saiba mais sobre as causas do edema nas pernas.
Pé Diabético vs. Pé Normal: Diferenças a Notar
| Característica | Pé Saudável | Pé Diabético com Neuropatia |
|---|---|---|
| Sensação de dor | Presente — alerta para lesões | Reduzida ou ausente |
| Cicatrização de feridas pequenas | 5-7 dias | 2-4 semanas ou mais |
| Temperatura dos pés | Uniforme e quente | Frios (isquemia) ou quentes (infecção) |
| Pele | Hidratada, elástica | Seca, descamativa, com fissuras |
| Perceção de pressão | Normal | Diminuída — não sente pedras no sapato |
| Unhas | Normais | Espessadas, frágeis, com micose frequente |
| Resposta a calçado inadequado | Dor que leva a correção | Sem dor — bolha progride para úlcera |
Fases e Classificação do Pé Diabético
A escala de Wagner é a classificação mais utilizada internacionalmente para estratificar a gravidade das úlceras do pé diabético e orientar o tratamento:
| Grau Wagner | Descrição | Ação Recomendada |
|---|---|---|
| Grau 0 | Pé de risco — sem úlcera, mas com neuropatia, deformidade ou isquemia | Prevenção, consulta regular, calçado adequado |
| Grau 1 | Úlcera superficial — apenas pele | Tratamento em ambulatório, cuidados de ferida |
| Grau 2 | Úlcera profunda — atinge tendão ou cápsula articular | Hospitalização possível, antibioterapia |
| Grau 3 | Úlcera com osteomielite (infecção óssea) ou abcesso | Hospitalização obrigatória, cirurgia frequente |
| Grau 4 | Gangrena localizada — dedos ou antepé | Cirurgia vascular ou amputação parcial |
| Grau 5 | Gangrena extensa — todo o pé | Amputação major |
A detecção e tratamento nas fases 0 a 2 é o que permite evitar progressão para graus mais graves.
Causas e Fatores que Aceleram a Progressão
Neuropatia Periférica: A Causa Principal
A neuropatia periférica diabética está presente em cerca de 50% das pessoas com diabetes com mais de 20 anos de diagnóstico. A hiperglicemia crónica danifica a bainha de mielina que envolve e protege os nervos, comprometendo a condução dos impulsos nervosos.
O resultado é devastador: a pessoa deixa de sentir quando pisa algo cortante, quando o calçado está a fazer uma bolha, quando existe uma pedra dentro do sapato ou quando o banho está demasiado quente. Estas lesões, não percecionadas, são a porta de entrada para infecções graves.
Se a sua diabetes foi diagnosticada há poucos anos e quer compreender os primeiros sinais desta doença, o guia sobre sintomas de diabetes é um ponto de partida importante.
Doença Cardiovascular e Circulação Deficiente
A aterosclerose acelerada pela diabetes reduz o calibre das artérias que irrigam os membros inferiores. Quando o fluxo sanguíneo é insuficiente, os tecidos não recebem oxigénio e nutrientes adequados para se defenderem de infecções ou cicatrizarem feridas.
A presença simultânea de neuropatia (que mascara a dor) e isquemia (que impede a cicatrização) é a combinação mais perigosa no pé diabético. Nas varicoses e outros problemas de circulação venosa, o quadro pode agravar-se — veja os sintomas de varizes para entender como a circulação dos membros inferiores pode estar comprometida de múltiplas formas.
Complicações do Pé Diabético
Úlceras e Infecções
As úlceras diabéticas são feridas abertas que se desenvolvem principalmente na planta do pé, calcanhar ou dedos. Uma vez abertas, tornam-se portas de entrada para bactérias, frequentemente germes resistentes que proliferam num ambiente de má circulação e resposta imune comprometida pela hiperglicemia.
Os sinais de infecção numa úlcera diabética incluem:
- Vermelhidão que se alastra além das margens da ferida
- Calor e edema na zona afetada
- Secreção purulenta ou odor intenso
- Febre e mal-estar geral (mas podem estar ausentes em casos de neuropatia severa)
- Correndo no leito ungueal ou sob a pele
Osteomielite e Risco de Amputação
Quando a infecção progride para o osso — osteomielite — o tratamento torna-se muito mais complexo e prolongado, exigindo frequentemente cirurgia. A osteomielite pode ser diagnosticada por ressonância magnética ou por biópsia óssea.
Sem tratamento adequado, a gangrena pode instalar-se — morte tecidular que, nas formas extensas, obriga à amputação. O pé de Charcot é outra complicação grave: destruição óssea progressiva e indolor resultante da neuropatia severa, que altera completamente a arquitetura do pé.
Estima-se que 85% das amputações relacionadas com o pé diabético são evitáveis com prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado — segundo dados da OMS e da DGS.
Prevenção: Como Proteger os Seus Pés
Inspeção Diária dos Pés
A inspeção diária dos pés é a medida preventiva mais importante para qualquer pessoa com diabetes. Deve ser realizada em boa iluminação, preferencialmente com um espelho de cabo para ver a planta do pé:
- Observe toda a superfície do pé — incluindo entre os dedos e o calcanhar
- Procure cortes, bolhas, vermelhidão, zonas de pressão ou calosidades
- Verifique se a temperatura é uniforme em ambos os pés — diferença de temperatura pode indicar infecção ou má circulação
- Identifique alterações nas unhas — espessamento, descoloração, encravamento
- Verifique se a pele está seca ou com fissuras, especialmente no calcanhar
Se tiver dificuldade em ver os pés por limitações de mobilidade ou visão, peça ajuda a um familiar ou cuidador.
Cuidados com Calçado e Higiene
O calçado inadequado é a causa mais comum de feridas no pé diabético. As recomendações práticas incluem:
- Use calçado fechado, com biqueira larga e sem costuras internas proeminentes
- Meias sem elástico apertado, sem costuras e preferencialmente de fibras naturais
- Não ande descalço — nem em casa, nem na praia, nem em ambientes aquáticos
- Inspecione o interior do calçado antes de calçar — podem estar pedras, objetos ou dobras de palmilha
- Hidrate os pés diariamente com creme adequado, mas evite colocar creme entre os dedos (favorece fungos)
- Corte as unhas em linha reta, nunca em arredondado, para evitar encravamento
- Não utilize objetos cortantes para tratar calosidades — recorra sempre ao podologista
Controlo da Diabetes e Estilo de Vida
O controlo glicémico é a base de toda a prevenção do pé diabético. Cada ponto percentual de redução na hemoglobina glicada (HbA1c) está associado a uma redução significativa no risco de complicações neuropáticas e vasculares.
Outras medidas de estilo de vida fundamentais:
- Cessação tabágica — o tabaco é um dos principais aceleradores da doença arterial periférica
- Atividade física regular — melhora a circulação e o controlo glicémico
- Controlo da tensão arterial e colesterol — reduz o risco vascular
- Consultas regulares com o médico de família — rastreio anual do pé segundo a orientação da DGS
Se está ainda numa fase de pré-diabetes e quer agir antes que ocorram complicações, o nosso guia sobre sintomas e sinais de pré-diabetes explica o que pode fazer agora para inverter o risco.
Quando Consultar um Médico
Sinais que Exigem Avaliação Urgente
O pé diabético é uma situação em que a rapidez de atuação faz a diferença entre salvar ou perder o membro. Procure cuidados médicos imediatamente se:
- Tem uma ferida que não cicatriza em 48 horas
- A ferida apresenta vermelhidão que se alastra, calor ou edema crescentes
- Existe pus, secreção com odor intenso ou alteração de cor da ferida
- O pé está muito quente numa área localizada (possível infecção) ou muito frio e pálido (possível isquemia aguda)
- Desenvolve febre ou calafrios com ferida nos pés
- Nota dormência súbita ou perda completa de sensibilidade num pé
Em caso de febre elevada com ferida nos pés, ou de pé com dor intensa, frio, pálido e sem pulso, recorra às urgências hospitalares ou ligue 112 — pode estar perante uma isquemia aguda ou sepsis de ponto de partida no pé.
Quando Contactar o SNS 24
Para situações que não são emergências imediatas mas que merecem avaliação nas próximas horas:
- Ferida no pé que não melhora em 24-48 horas
- Novo aparecimento de calosidade ou bolha em zona de pressão
- Alteração de cor de um dedo sem causa aparente
- Dúvidas sobre cuidados a uma ferida existente
SNS 24: 808 24 24 24 (linha de saúde 24 horas, 365 dias por ano)
O médico de família é também o seu principal aliado: as consultas de vigilância da diabetes incluem o rastreio do pé e, se necessário, referenciação para consulta multidisciplinar de pé diabético nos hospitais do SNS.
Perguntas Frequentes sobre Pé Diabético
Quais são os primeiros sinais de pé diabético? Os primeiros sinais incluem dormência ou formigueiro persistente nos pés, pele seca e descamativa, calosidades que se formam rapidamente, alterações das unhas e sensação de queimadura ou frio nos pés. Muitas pessoas com diabetes não sentem dor nas feridas — por isso a inspeção visual diária é essencial.
Quanto tempo demora uma ferida no pé diabético a cicatrizar? Em pessoas com diabetes bem controlada e boa circulação, uma ferida pequena pode demorar 2 a 4 semanas a cicatrizar — o dobro do tempo normal. Em casos de neuropatia grave ou doença arterial periférica, a cicatrização pode levar meses ou não ocorrer sem intervenção médica especializada. Qualquer ferida que não melhore em 48 horas deve ser avaliada por um médico.
O pé diabético pode ser curado? O pé diabético é uma complicação crónica da diabetes que pode ser controlada e as suas consequências minimizadas. Com bom controlo da glicemia, cuidados diários aos pés, calçado adequado e acompanhamento médico regular, é possível prevenir úlceras e evitar amputações. O tratamento precoce das feridas é fundamental para a recuperação.
O pé diabético em idosos é diferente? Sim. Em pessoas idosas com diabetes, a neuropatia e a doença arterial periférica tendem a ser mais severas, a pele é mais frágil, a cicatrização é mais lenta e pode haver comorbilidades que complicam os cuidados. O acompanhamento em consulta multidisciplinar de pé diabético é especialmente importante neste grupo.
Qual é a diferença entre pé diabético e pé normal? No pé diabético, a combinação de neuropatia (que elimina a sensação de dor) e doença vascular (que reduz o fluxo sanguíneo) cria condições únicas de risco. Uma pequena ferida que num pé saudável cicatrizaria em dias pode, no pé diabético, evoluir para úlcera profunda e infecção grave sem que a pessoa sinta qualquer dor.
Pode-se evitar a amputação no pé diabético? Na maioria dos casos, sim. Estima-se que 85% das amputações relacionadas com o pé diabético são evitáveis com diagnóstico precoce e tratamento adequado. Inspeção diária dos pés, controlo rigoroso da glicemia, cessação tabágica, calçado adequado e consultas regulares são as medidas mais eficazes.
Quando devo ligar para o SNS 24 por causa do pé diabético? Ligue para o SNS 24 — 808 24 24 24 — se tiver uma ferida no pé que não cicatriza, se notar vermelhidão, calor ou inchaço crescentes, se a ferida tiver pus ou odor desagradável, ou se desenvolver febre. Se houver febre alta, vermelhidão que se alastra rapidamente ou o pé estiver completamente insensível, recorra às urgências ou ligue 112.
A diabetes tipo 2 causa sempre pé diabético? Não. O pé diabético não é inevitável. Pessoas com diabetes tipo 2 bem controlada, que cuidam dos pés, fazem vigilância regular e mantêm a glicemia dentro dos valores-alvo têm um risco significativamente menor de desenvolver complicações nos pés. O controlo adequado da diabetes é o fator protetor mais importante.
Referências e Recursos
- DGS — Orientação N.º 005/2025: Prevenção, Diagnóstico e Tratamento da Pessoa com Pé Diabético
- SNS 24: 808 24 24 24 — linha de saúde disponível 24 horas
- Emergências: 112
- APDP (Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal): apdp.pt
- CUF — Guia sobre Pé Diabético: cuf.pt/saude-a-z/pe-diabetico

