Olhos e Ouvidos

Cataratas: Sintomas, Causas e Quando Operar

Equipa Sintomas.pt 7 de maio de 2026 #cataratas #saúde dos olhos #visão turva
Ilustração médica do olho com catarata, mostrando a opacificação progressiva do cristalino e o efeito de visão turva e encadeamento característico

Este conteudo e informativo e nao substitui uma consulta medica. Em caso de emergencia, ligue 112.

As cataratas são uma das principais causas de perda de visão na população portuguesa, sobretudo a partir dos 60 anos. Caracterizam-se pela opacificação progressiva do cristalino, a lente natural do olho que normalmente é transparente e que ajuda a focar a imagem na retina. Quando essa lente se torna turva, a luz tem dificuldade em chegar nitidamente à retina e a visão fica enevoada, com encadeamento e cores apagadas.

A boa notícia é que as cataratas têm tratamento eficaz e seguro: a cirurgia, com substituição do cristalino opaco por uma lente intraocular, é uma das intervenções cirúrgicas mais realizadas em Portugal e no mundo, com taxas de sucesso muito elevadas. Conhecer os primeiros sinais permite procurar avaliação atempada e evitar quedas, acidentes de viação e perda de autonomia.

Aviso médico: Esta informação tem carácter educativo e não substitui a consulta médica. Não utilize este conteúdo para autodiagnóstico ou automedicação. Consulte sempre um oftalmologista ou outro profissional de saúde qualificado.


O Que São as Cataratas?

O cristalino é uma estrutura ovalada, transparente e flexível, situada atrás da íris (a parte colorida do olho). Funciona como a lente de uma máquina fotográfica: muda de forma para focar objetos próximos e distantes. As cataratas surgem quando as proteínas do cristalino se desnaturam e se agregam, criando zonas opacas que dispersam ou bloqueiam a luz.

A maior parte das cataratas está relacionada com o envelhecimento e instala-se de forma muito gradual. Mas podem também resultar de traumatismos, doenças sistémicas (como diabetes), medicação prolongada com corticoides, radiação ultravioleta ou estar presentes desde o nascimento (cataratas congénitas).

Quão Frequentes São as Cataratas em Portugal?

A Organização Mundial da Saúde considera as cataratas a principal causa de cegueira reversível a nível global. Em Portugal, os dados disponíveis indicam que:

  • Cerca de metade das pessoas com mais de 65 anos tem algum grau de catarata
  • A prevalência ultrapassa 70% acima dos 75 anos e mais de 90% acima dos 85
  • A cirurgia de cataratas é uma das intervenções mais frequentes no SNS, com dezenas de milhares de procedimentos por ano
  • O envelhecimento da população portuguesa torna-a uma prioridade de saúde pública

Tipos de Cataratas

As cataratas classificam-se sobretudo pelo local do cristalino afetado e pela causa. Identificar o tipo ajuda a perceber a evolução, os sintomas predominantes e o momento certo para a cirurgia.

Catarata Nuclear

É o tipo mais comum em idosos. A opacidade começa no centro do cristalino (núcleo) e progride lentamente. Curiosamente, antes de o tornar opaco, pode aumentar o seu poder de focagem, fazendo com que a pessoa volte a ler de perto sem óculos durante algum tempo (a chamada “segunda visão”). Mais tarde, a visão ao longe vai-se deteriorando e as cores tornam-se amareladas.

Catarata Cortical

Forma-se na periferia do cristalino, com aspeto de raios de roda que avançam para o centro. Provoca encadeamento intenso e halos à volta das luzes, sendo particularmente incomodativa ao conduzir à noite ou em locais com luz forte. É frequente em pessoas com diabetes.

Catarata Subcapsular Posterior

Localiza-se na parte de trás do cristalino, próximo do centro. Tende a evoluir mais rapidamente do que as outras formas e afeta sobretudo a visão de perto e a leitura, mesmo em fases iniciais. Está associada a uso prolongado de corticoides, diabetes e exposição a radiação.

Catarata Congénita

Está presente desde o nascimento ou desenvolve-se nos primeiros meses de vida. Pode ser hereditária ou resultar de infeções durante a gravidez (rubéola, toxoplasmose). Exige diagnóstico precoce, porque pode comprometer o desenvolvimento da visão na criança.

Catarata Traumática

Surge após golpes diretos no olho, perfurações, cirurgia ocular prévia ou exposição a radiações. Pode aparecer logo após o trauma ou anos depois. Em desporto e atividades de risco, o uso de proteção ocular é a melhor prevenção.

Catarata Secundária

Resulta de outras doenças (como diabetes, hipertiroidismo ou uveíte) ou de medicação, sobretudo corticoides orais ou inalados de longa duração. Está também associada a tabagismo intenso, alcoolismo e exposição prolongada ao sol sem proteção.


Como Reconhecer as Cataratas? Sintomas Principais

Os sintomas das cataratas surgem muito devagar, o que faz com que muitas pessoas só procurem ajuda quando a visão está significativamente afetada. Reconhecer as queixas iniciais permite uma avaliação mais precoce e evita acidentes, sobretudo a conduzir.

Visão Turva ou Enevoada

É a queixa mais frequente. A pessoa descreve “como se houvesse uma neblina à frente dos olhos” ou que “os óculos estão sempre sujos”. A visão pode estar pior em ambientes com pouca luz ou, ao contrário, em locais muito iluminados. Pode também flutuar ao longo do dia.

Encadeamento e Halos à Volta das Luzes

A luz dispersa-se ao atravessar o cristalino opaco, originando encadeamento (sensibilidade exagerada à luz) e halos coloridos à volta dos faróis ou candeeiros. É um sintoma muito típico ao conduzir à noite, com o trânsito em sentido contrário, e uma das principais razões para deixar de conduzir nesta fase.

Perda de Contraste e Cores Apagadas

A visão perde nitidez nos contrastes — pode ser difícil distinguir tons parecidos (cinzentos, azuis, castanhos). As cores parecem “amareladas” ou “desbotadas”. Muitas pessoas só se apercebem desta alteração depois da cirurgia, quando referem que “as cores voltaram a ser vivas”.

Necessidade de Mais Luz para Ler

Outra queixa comum é precisar de luz cada vez mais forte para ler, costurar ou ver pormenores. Isto resulta da combinação de cristalino opaco e perda de contraste. A leitura cansa rapidamente e os textos pequenos tornam-se difíceis mesmo com óculos.

Mudanças Frequentes da Graduação dos Óculos

À medida que o cristalino opacifica e altera o seu poder de focagem, a graduação dos óculos pode mudar várias vezes em poucos meses. Quando isto acontece numa pessoa idosa, é razoável pensar em cataratas e referenciar para oftalmologia.

Visão Dupla num Só Olho (Diplopia Monocular)

Diferente da diplopia clássica (que desaparece quando se tapa um olho), a diplopia monocular mantém-se mesmo com o outro olho fechado. É típica das cataratas, em que as áreas opacas do cristalino dispersam a luz e criam imagens duplicadas ou “fantasmas”.

Sintomas em Idosos

Em pessoas idosas, as cataratas podem manifestar-se de forma mais sub-reptícia: quedas inexplicadas, dificuldade para reconhecer rostos à distância, redução da autonomia em casa, recusa em sair à rua. Por vezes, são os familiares quem nota antes da própria pessoa, sobretudo se houver outras doenças associadas. A perda de visão pode também agravar quadros de demência (como o Alzheimer) e contribuir para isolamento.

Sintomas em Crianças

Nas cataratas congénitas, os pais podem notar uma pupila esbranquiçada (reflexo branco em fotografias com flash, em vez do clássico “olho vermelho”), olhos que não fixam objetos, estrabismo ou movimentos oculares anormais. Qualquer destes sinais exige avaliação urgente por oftalmologia pediátrica.

Cataratas vs. Vista Cansada (Presbiopia): Como Distinguir?

A presbiopia (vista cansada) começa por volta dos 40-45 anos, afeta sobretudo a visão de perto e corrige-se com óculos de leitura. As cataratas afetam toda a visão (perto e longe), provocam encadeamento e halos e não melhoram só com óculos novos. As duas situações coexistem frequentemente em pessoas com mais de 60 anos, sendo necessária observação para distinguir.


Quais São as Causas e Fatores de Risco?

A causa mais frequente é o envelhecimento natural do cristalino, mas existem fatores que aceleram o seu aparecimento ou agravam a evolução.

Idade

A partir dos 40-50 anos começam a ocorrer alterações nas proteínas do cristalino. Estas vão-se acumulando ao longo dos anos, sendo o principal fator de risco para as cataratas senis.

Diabetes e Pré-Diabetes

A glicemia mantida em níveis elevados favorece reações químicas no cristalino que aceleram a opacificação. As pessoas com diabetes têm cataratas mais cedo e mais rapidamente progressivas. O bom controlo da glicemia é uma das medidas mais importantes para retardar o seu aparecimento.

Tabagismo e Álcool

O tabaco aumenta o stress oxidativo no olho e duplica o risco de cataratas. O consumo elevado de álcool tem efeito semelhante. Deixar de fumar é benéfico em qualquer idade, também para a saúde dos olhos.

Radiação Ultravioleta

A exposição prolongada ao sol sem proteção, sobretudo em zonas com forte irradiação (praia, montanha, mar), aumenta o risco de cataratas corticais. O uso regular de óculos de sol com proteção UV é uma medida preventiva simples e eficaz.

Medicamentos

O uso prolongado de corticoides orais ou inalados (em doenças como asma, DPOC, artrite reumatoide ou lúpus) pode favorecer cataratas subcapsulares posteriores, mesmo em pessoas jovens.

Outros Fatores

  • Traumatismos oculares e cirurgia ocular prévia
  • Doenças oculares (uveíte, miopia muito elevada)
  • Doenças sistémicas (hipertiroidismo, doenças genéticas)
  • Obesidade e hipertensão
  • História familiar de cataratas precoces

Como o Médico Diagnostica as Cataratas?

O diagnóstico é clínico, feito em consulta de oftalmologia, e habitualmente é simples. O processo costuma incluir:

Avaliação dos Sintomas e Antecedentes

O oftalmologista pergunta há quanto tempo notou alterações da visão, como se manifestam (turva, encadeamento, halos), se há dificuldade para conduzir, ler ou reconhecer rostos, e se há doenças associadas, medicação ou trauma prévio.

Avaliação da Acuidade Visual

São utilizadas tabelas com letras de tamanhos diferentes (Snellen) para medir a visão de cada olho, com e sem óculos. Permite quantificar o impacto da catarata e acompanhar a evolução.

Exame com Lâmpada de Fenda

É o exame fundamental. Com um microscópio especial, o oftalmologista observa diretamente o cristalino e identifica o tipo, localização e densidade da catarata. Avalia também outras estruturas (córnea, íris, retina) para excluir outras doenças.

Outros Exames

Em alguns casos, são feitos exames complementares: medição da pressão intraocular (para excluir glaucoma), fundoscopia (observação da retina), tomografia de coerência ótica (OCT) ou biometria ocular antes da cirurgia.


Quando Consultar um Médico?

A consulta de oftalmologia é importante mesmo na ausência de queixas, sobretudo a partir dos 50-60 anos ou em pessoas com diabetes, hipertensão ou história familiar de doença ocular. A periodicidade habitual é a cada 1-2 anos nestas idades.

Sinais que Justificam Consulta Programada

  • Visão progressivamente turva ou enevoada
  • Encadeamento intenso e halos à volta das luzes
  • Dificuldade para conduzir, sobretudo à noite
  • Necessidade crescente de luz para ler
  • Mudanças frequentes da graduação dos óculos
  • Cores apagadas ou tons amarelados
  • Dificuldade para reconhecer rostos à distância
  • Sensação de “véu” ou “neblina” persistente

Sinais que Justificam Avaliação Urgente

Procure avaliação rápida (mesmo dia ou dia seguinte) ou recorra a urgência oftalmológica se notar:

  • Perda de visão súbita ou rapidamente progressiva (em horas ou dias)
  • Dor ocular intensa com vermelhidão e visão turva
  • Cefaleias fortes, náuseas e visão alterada (pode indicar pressão intraocular muito elevada)
  • Trauma ocular com perda de visão
  • Aumento súbito de moscas volantes, flashes de luz ou perda de visão “em cortina” (pode indicar descolamento da retina)
  • Pupila esbranquiçada numa criança

Linhas de apoio em Portugal:

  • SNS 24: 808 24 24 24 (24 horas)
  • Emergência médica: 112

Ligue de imediato o 112 se houver perda súbita de visão, dor ocular intensa, trauma ou alteração súbita do estado de consciência associado a sintomas neurológicos. Em situações menos graves, mas que exijam orientação rápida, pode contactar o SNS 24 (808 24 24 24) para avaliação telefónica.


Tratamento das Cataratas

Não existem gotas, comprimidos ou suplementos com eficácia comprovada para reverter as cataratas. O único tratamento que devolve a visão é a cirurgia.

Quando Operar?

A decisão é individual e depende da interferência da catarata na qualidade de vida:

SituaçãoIndicação típica
Catarata inicial, sem queixas relevantesVigilância, óculos atualizados
Visão turva moderada, sem grande impactoAguardar, reavaliar 6-12 meses
Visão turva que limita conduzir, ler ou trabalharCirurgia recomendada
Risco de quedas em idososCirurgia recomendada
Cataratas avançadas e visão muito reduzidaCirurgia indicada
Catarata congénita em recém-nascidoCirurgia precoce, em centro especializado

Como É a Cirurgia?

A técnica habitual é a facoemulsificação: através de uma pequena incisão na córnea, o cristalino opaco é fragmentado por ultrassons e aspirado, e no seu lugar é colocada uma lente intraocular transparente, permanente. É feita habitualmente sob anestesia local, em ambulatório, e demora cerca de 15 a 30 minutos por olho.

Recuperação e Resultados

Na maioria dos doentes, a visão melhora rapidamente (dias a semanas). O risco de complicações é baixo, mas existe — sendo o seguimento após a cirurgia essencial. Algumas pessoas desenvolvem, meses ou anos depois, uma opacificação da cápsula atrás da lente, que se trata com um laser simples em consulta.


Prevenção: Como Reduzir o Risco?

Não é possível evitar todas as cataratas, em especial as relacionadas com a idade. Mas é possível adiar o seu aparecimento e reduzir a sua gravidade:

MedidaBenefício
Usar óculos de sol com proteção UVReduz cataratas corticais e degeneração macular
Não fumarDiminui o risco e atrasa a progressão
Controlar a diabetes e a tensão arterialAtrasa o aparecimento e progressão
Alimentação rica em frutas e vegetaisAntioxidantes (vitaminas C, E, luteína)
Evitar uso prolongado de corticoides sem indicaçãoReduz cataratas subcapsulares
Proteção ocular em desporto e trabalho de riscoPrevine cataratas traumáticas
Consulta de oftalmologia regular após os 50Diagnóstico precoce

A vigilância oftalmológica é particularmente importante em pessoas com diabetes, em quem a perda de visão pode também resultar de retinopatia diabética, e em quem tem pé diabético ou neuropatia periférica, porque a soma de problemas aumenta o risco de quedas e dependência.


Conclusão

As cataratas são uma das principais causas de perda de visão em Portugal, mas, ao contrário do glaucoma e de muitas outras doenças oculares, são totalmente tratáveis através da cirurgia. Reconhecer os sintomas — visão turva, encadeamento, halos, dificuldade a conduzir à noite — e procurar avaliação oftalmológica permite recuperar qualidade de vida, autonomia e segurança.

A vigilância regular é essencial, sobretudo a partir dos 50-60 anos ou em pessoas com diabetes, hipertensão e história familiar. Adotar medidas simples, como proteção solar adequada, controlo das doenças crónicas e abandono do tabaco, ajuda a adiar o seu aparecimento. Em caso de qualquer alteração persistente da visão, contacte o seu médico de família, oftalmologista ou o SNS 24 (808 24 24 24) para orientação. Em emergência, ligue o 112.

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