As hemorroidas são uma das condições mais comuns em Portugal e no mundo, mas raramente se fala abertamente sobre elas. Estima-se que cerca de 20% da população portuguesa com mais de 50 anos sofra desta patologia, sendo que o número de cirurgias realizadas anualmente ultrapassa as 40 mil. Apesar da prevalência elevada, muitas pessoas adiam a consulta médica por embaraço, o que pode permitir que a condição progrida para graus mais avançados.
Neste guia, explicamos o que são as hemorroidas, como se classificam, quais os sintomas mais frequentes, quais as causas e fatores de risco, e quando é necessário consultar um médico. Toda a informação apresentada baseia-se em orientações do SNS 24, da Direção-Geral da Saúde (DGS) e de literatura médica reconhecida.
Aviso médico: Este conteúdo é meramente informativo e educativo. Não substitui uma consulta médica, não estabelece diagnósticos nem prescreve tratamentos. Se apresenta sintomas que podem indicar hemorroidas, consulte o seu médico assistente ou contacte o SNS 24 pelo telefone 808 24 24 24. Em caso de emergência, ligue 112.
O Que São as Hemorroidas
As hemorroidas são estruturas vasculares normais que existem no canal anal de todas as pessoas — são coxins de tecido conjuntivo e vasos sanguíneos que ajudam na continência fecal. Fala-se em “doença hemorroidária” quando estas estruturas se dilatam, inflamam ou prolapsam, dando origem a sintomas.
Funcionam de forma semelhante às varizes nas pernas: as paredes dos vasos perdem tonicidade e dilatam-se sob pressão, formando nódulos que podem causar desconforto, sangramento e prolapso.
Hemorroidas Internas vs. Externas
A distinção mais importante é entre hemorroidas internas e externas, determinada pela sua localização em relação à linha pectínea (ou dentada) do canal anal.
Hemorroidas internas localizam-se acima da linha pectínea, revestidas por mucosa. Por estarem numa zona com menos terminações nervosas de dor, as hemorroidas internas são habitualmente indolores, manifestando-se principalmente por sangramento e prolapso.
Hemorroidas externas localizam-se abaixo da linha pectínea, revestidas por pele com rica inervação sensitiva. São mais dolorosas, especialmente quando se formam trombos no interior dos vasos dilatados — fenómeno designado por trombose hemorroidária externa.
Classificação por Graus das Hemorroidas Internas
As hemorroidas internas são classificadas em quatro graus, consoante o grau de prolapso:
| Grau | Descrição | Sintomas Típicos |
|---|---|---|
| Grau I | Dilatação sem prolapso | Sangramento indolor ao evacuar |
| Grau II | Prolapso durante a evacuação, redução espontânea | Sangramento, sensação de peso, prolapso transitório |
| Grau III | Prolapso que requer redução manual | Prolapso persistente, desconforto, sangramento |
| Grau IV | Prolapso permanente irredutível | Dor intensa, risco de estrangulamento |
Esta classificação orienta as decisões terapêuticas: os graus I e II respondem bem ao tratamento conservador e aos procedimentos ambulatórios, enquanto os graus III e IV frequentemente requerem intervenção cirúrgica.
Como Reconhecer os Sintomas de Hemorroidas?
Os sintomas das hemorroidas variam consoante o tipo, o grau e a presença ou ausência de complicações. É possível ter hemorroidas durante anos sem sintomas significativos.
Sintomas Mais Frequentes
- Sangramento retal — sangue vivo, vermelho-brilhante, no papel higiénico, na superfície das fezes ou na sanita; habitualmente indolor nas hemorroidas internas
- Comichão anal (prurido) — irritação persistente ou intermitente à volta do ânus, agravada pela humidade ou pela presença de muco
- Dor ou desconforto anal — mais comum nas hemorroidas externas ou em caso de trombose; nas internas, a dor é geralmente ausente ou ligeira
- Sensação de pressão ou corpo estranho — sensação de que algo “saiu” ou que o esvaziamento intestinal não foi completo
- Prolapso — saída de tecido hemorroidário pelo ânus durante ou após a evacuação (graus II-IV)
- Inchaço ou nódulos — à volta do ânus (hemorroidas externas ou trombosadas)
- Libertação de muco — pode causar irritação cutânea perianal
Sintomas de Hemorroidas na Gravidez
As hemorroidas são particularmente frequentes na gravidez, afetando entre 25% a 35% das grávidas. Os fatores contribuintes incluem o aumento da pressão das veias pélvicas pelo útero em crescimento, as alterações hormonais que relaxam as paredes vasculares, e a obstipação gestacional.
Os sintomas são semelhantes aos da população geral, mas podem ser mais intensos, especialmente no terceiro trimestre e no período pós-parto imediato. A maioria das hemorroidas gravídicas melhora nas semanas após o parto.
Se durante a gravidez tiver sangramento anal, dor intensa ou prolapso que não reduz espontaneamente, consulte o seu médico ou a maternidade, pois algumas situações requerem avaliação urgente.
Sintomas de Hemorroidas em Idosos
Nas pessoas mais velhas, as hemorroidas tendem a ser mais avançadas e sintomáticas. Com o envelhecimento, o tecido de suporte da região anal enfraquece e o músculo esfíncter perde tonicidade, favorecendo o prolapso. A obstipação, mais frequente nos idosos, também agrava a situação.
Um aspeto particularmente importante: em pessoas com mais de 50 anos, o sangramento retal — mesmo que aparentemente “típico” de hemorroidas — deve ser sempre avaliado pelo médico para excluir outras causas mais graves, incluindo o cancro coloretal. Não assuma que todo o sangramento anal é causado por hemorroidas.
Hemorroidas vs. Fissura Anal: Como Distinguir
As hemorroidas são frequentemente confundidas com a fissura anal, outra causa comum de sintomas anais. A tabela seguinte resume as principais diferenças:
| Característica | Hemorroidas | Fissura Anal |
|---|---|---|
| Causa | Dilatação venosa | Rasgadura da mucosa anal |
| Dor | Ligeira ou ausente (internas); moderada (externas trombosadas) | Intensa, em queimor, durante e após a evacuação |
| Duração da dor | Breve ou ausente | Minutos a horas após evacuar |
| Sangramento | Sangue vivo, indolor | Sangue vivo, associado a dor |
| Visível | Nódulo externo possível | Pequena fenda visível na margem anal |
| Fator agravante | Esforço, obstipação, diarreia | Fezes duras, esforço ao evacuar |
O diagnóstico diferencial é feito pelo médico — nunca tente tratar sem avaliação clínica prévia. Problemas como síndrome do intestino irritável ou diverticulite também podem coexistir e requerer investigação separada.
Causas e Fatores de Risco
As hemorroidas resultam do aumento da pressão nos plexos venosos da região anorretal, combinado com o enfraquecimento do tecido de suporte. Não existe uma causa única identificável na maioria dos casos.
Causas Principais
Obstipação crónica e esforço ao evacuar — o aumento da pressão intra-abdominal repetido é o principal mecanismo. Ficar muito tempo sentado na sanita também contribui para o ingurgitamento venoso.
Diarreia crónica — as evacuações frequentes e a irritação química da mucosa anal podem igualmente inflamar as hemorroidas.
Gravidez e parto — conforme já mencionado, a pressão uterina e as alterações hormonais são fatores de risco importantes.
Dieta pobre em fibra — uma alimentação com pouca fibra promove fezes mais duras e evacução mais difícil.
Estilo de vida sedentário — a falta de atividade física reduz a motilidade intestinal e aumenta o risco de obstipação.
Envelhecimento — o tecido de suporte anal enfraquece progressivamente com a idade.
Aumento da pressão abdominal — por obesidade, tosse crónica, levantamento de pesos frequente.
Doenças do fígado — como a cirrose hepática, que aumenta a pressão portal e favorece a dilatação venosa.
Fatores de Risco
Os principais fatores associados ao desenvolvimento de hemorroidas incluem:
- Obstipação crónica ou diarreia frequente
- Dieta pobre em fibras e ingestão insuficiente de água
- Sedentarismo e excesso de tempo sentado (incluindo uso prolongado da sanita com telemóvel)
- Gravidez, especialmente no terceiro trimestre
- Excesso de peso e obesidade
- Idade acima dos 45-50 anos
- Antecedentes familiares de doença hemorroidária
- Esforços físicos intensos repetidos (trabalhos manuais pesados, certos desportos)
- Doenças hepáticas crónicas
- Cirurgias ou traumatismos na região anal
Note que ter varizes nas pernas não significa necessariamente maior risco de hemorroidas — embora ambas sejam dilatações venosas, têm mecanismos e fatores de risco parcialmente diferentes.
Como É Feito o Diagnóstico
O diagnóstico de hemorroidas é essencialmente clínico, baseado na história dos sintomas e no exame físico da região anorretal.
Exame Físico e Anuscopia
O médico realiza a inspeção da região perianal com o doente em posição adequada, para visualizar hemorroidas externas ou prolapsadas. A anuscopia — introdução de um pequeno instrumento tubular no canal anal — permite visualizar as hemorroidas internas e avaliar o grau de prolapso.
Este exame, embora possa causar algum desconforto transitório, é geralmente rápido, indolor e muito informativo. Não tenha receio de o realizar — é essencial para o diagnóstico correto.
Quando São Necessários Exames Complementares
Em determinadas situações, o médico pode solicitar exames adicionais:
- Retossigmoidoscopia ou colonoscopia — especialmente se o sangramento é abundante, persistente, ou em doentes com mais de 40-45 anos, para excluir pólipos, cancro coloretal ou outras causas de sangramento. O rastreio do cancro coloretal é recomendado pela DGS a partir dos 50 anos.
- Análises ao sangue — se houver suspeita de anemia por perda crónica de sangue
O sangramento retal nunca deve ser automaticamente atribuído a hemorroidas sem exclusão de outras patologias, incluindo o cancro coloretal, especialmente em pessoas mais velhas ou com fatores de risco.
Tratamento das Hemorroidas
O tratamento depende do grau das hemorroidas, da intensidade dos sintomas e da resposta às medidas iniciais. A maioria dos casos melhora com abordagens conservadoras.
Medidas Gerais e Modificação de Hábitos
As medidas de estilo de vida são o pilar do tratamento e da prevenção das recorrências:
- Aumentar o consumo de fibra — frutas, legumes, leguminosas, cereais integrais; o objetivo é 25-30 g de fibra por dia
- Beber mais água — pelo menos 1,5-2 litros por dia, para manter as fezes amolecidas
- Não adiar a evacuação — responder ao reflexo de evacuação sem demora excessiva
- Limitar o tempo na sanita — evitar ficar sentado mais de 5-10 minutos; não usar o telemóvel na casa de banho
- Higiene perianal cuidadosa — lavar com água morna após evacuar; evitar papel higiénico áspero e fricção excessiva
- Banhos de assento mornos — durante 10-15 minutos, duas a três vezes por dia, podem aliviar a dor e a inflamação
- Atividade física regular — caminhada diária, por exemplo, melhora a motilidade intestinal
Tratamentos Médicos e Minimamente Invasivos
Para casos que não respondem às medidas gerais, ou nos graus II e III, estão disponíveis vários procedimentos ambulatórios:
Ligadura elástica — é o procedimento mais utilizado para hemorroidas internas de grau II e III. Uma pequena banda elástica é colocada na base da hemorroida, cortando o fornecimento sanguíneo. O tecido necrotiza e cai em 7-10 dias. É eficaz, rápido e pode ser feito em consulta.
Escleroterapia — injeção de uma substância esclerosante que provoca fibrose e redução das hemorroidas. Indicada principalmente para grau I e II com sangramento.
Coagulação por infravermelhos — utiliza calor para coagular os vasos das hemorroidas. Eficaz nos graus I e II.
Medicamentos — cremes ou supositórios com corticosteroides, anestésicos locais ou venotónicos (como a diosmina) podem aliviar os sintomas, mas não tratam a causa subjacente. Não devem ser usados de forma prolongada sem indicação médica.
Tratamento Cirúrgico
A cirurgia (hemorroidectomia) está reservada para:
- Hemorroidas de grau III refratárias ao tratamento conservador e ambulatório
- Hemorroidas de grau IV (prolapso irredutível)
- Hemorragia persistente após outras abordagens
- Tromboses de repetição
- Combinação com outras patologias anorretais que requeiram cirurgia
As técnicas cirúrgicas modernas (como a hemorroidopexia circular de Longo ou a HAL-RAR) têm resultados muito satisfatórios, com menos dor pós-operatória e recuperação mais rápida. A cirurgia é geralmente realizada em regime de ambulatório (sem internamento) e a recuperação completa demora habitualmente 2-4 semanas.
Quando Consultar um Médico
Consulta Programada
Consulte o seu médico de família se apresentar:
- Sangramento retal, mesmo que ligeiro ou episódico
- Comichão anal persistente que não melhora com higiene adequada
- Sensação de prolapso ou corpo estranho no ânus após evacuar
- Dor ou desconforto anal recorrente
- Suspeita de hemorroidas há mais de 2-3 semanas sem melhoria com medidas gerais
- Qualquer sintoma anal em pessoa com mais de 40 anos ou com história familiar de cancro coloretal
Pode também contactar o SNS 24 pelo número 808 24 24 24 para orientação clínica inicial.
Procure Urgência ou Ligue 112 se Tiver
- Hemorragia abundante — sangramento que não para, que mancha a roupa interior ou que é acompanhado de tonturas ou fraqueza (pode indicar anemia aguda)
- Dor anal muito intensa e súbita — especialmente se acompanhada de febre, pode indicar trombose hemorroidária grave ou abcesso perianal
- Prolapso hemorroidário que não consegue reduzir manualmente — risco de estrangulamento
- Febre com dor e inchaço anal — suspeita de abcesso ou fistula perianal
- Palidez, fraqueza marcada ou desmaio associados a sangramento
Hemorroidas em Portugal: O Que Saber
Portugal apresenta uma prevalência estimada de doença hemorroidária semelhante à da média europeia, com cerca de 20% da população com mais de 50 anos afetada. As cirurgias de hemorroidas são das intervenções proctológicas mais realizadas em Portugal — mais de 40 mil por ano.
A obstipação crónica, frequente na população portuguesa (sobretudo nas mulheres e nos idosos), é um dos principais fatores modificáveis. A adoção de uma dieta rica em fibra, a boa hidratação e os hábitos intestinais saudáveis são fundamentais tanto para a prevenção como para o controlo desta condição.
Se tem sintomas digestivos que preocupam, consulte também os nossos guias sobre síndrome do intestino irritável e diverticulite, condições que podem coexistir com as hemorroidas.
Para informação oficial, consulte o SNS 24 e a DGS.
Resumo: O Que Deve Recordar Sobre Hemorroidas
As hemorroidas são uma condição muito comum, mas frequentemente subestimada por vergonha. Os sintomas mais típicos são sangramento retal indolor, comichão anal, sensação de prolapso e desconforto ao evacuar. As hemorroidas internas classificam-se em quatro graus, sendo que os graus mais avançados podem requerer cirurgia.
A maioria dos casos responde bem a mudanças na dieta e nos hábitos intestinais. Os tratamentos ambulatórios, como a ligadura elástica, são eficazes nos graus II e III. A cirurgia está reservada para os casos mais graves ou refratários.
Não ignore o sangramento retal — mesmo que aparentemente “típico” de hemorroidas, deve sempre ser avaliado pelo médico para excluir outras patologias, incluindo o cancro coloretal.
Informação elaborada com base em orientações do SNS, DGS, OMS e literatura médica de referência. Este conteúdo não substitui uma consulta médica.

