A esclerose múltipla (EM) é uma doença crónica do sistema nervoso central que afeta o cérebro e a medula espinal. Reconhecer os seus primeiros sinais pode ser essencial para um diagnóstico precoce e um melhor controlo da evolução da doença.
Neste guia, explicamos os sintomas, os tipos de esclerose múltipla, as causas conhecidas, como se faz o diagnóstico e quais as opções de tratamento disponíveis. Toda a informação baseia-se em orientações do SNS — Serviço Nacional de Saúde, da DGS — Direção-Geral da Saúde e da OMS — Organização Mundial da Saúde.
Aviso médico: Este conteúdo é meramente informativo e não substitui uma consulta médica. Se apresenta sintomas neurológicos persistentes, consulte o seu médico. Esta informação não constitui diagnóstico nem recomendação de tratamento específico.
O Que É a Esclerose Múltipla
A esclerose múltipla é uma doença autoimune e inflamatória que afeta a mielina — a camada protetora que reveste as fibras nervosas do sistema nervoso central. Quando o sistema imunitário ataca a mielina, a transmissão dos sinais nervosos é perturbada ou interrompida, dando origem a uma grande variedade de sintomas neurológicos.
O nome “esclerose múltipla” refere-se precisamente às múltiplas cicatrizes (escleroses ou placas) que se formam no cérebro e na medula espinal nas zonas afetadas.
Prevalência em Portugal e no Mundo
Segundo a SPEM — Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla, estima-se que entre 6.000 a 8.000 pessoas vivam com esclerose múltipla em Portugal. A nível mundial, a OMS calcula que mais de 2,8 milhões de pessoas sejam afetadas, com um aumento significativo da prevalência nas últimas décadas.
A doença é mais frequente:
- Em mulheres (proporção de 2 a 3:1 em relação aos homens)
- Em adultos jovens, com diagnóstico mais comum entre os 20 e os 40 anos
- Em países a maior distância do equador (menores índices de exposição solar e vitamina D)
- Em populações de ascendência europeia
Como a Doença Evolui
A esclerose múltipla é imprevisível. Em muitas pessoas, a doença cursa por surtos e remissões — períodos de agravamento seguidos de recuperação total ou parcial. Noutros casos, a progressão é contínua e gradual. O impacto na qualidade de vida varia muito entre pessoas.
Como Reconhecer os Primeiros Sintomas da Esclerose Múltipla?
Os primeiros sintomas da esclerose múltipla são frequentemente inespecíficos e passageiros, o que torna o diagnóstico inicial desafiante. Os sintomas dependem da localização das lesões no sistema nervoso central.
Alterações de Visão
Os problemas visuais estão entre os sinais de alerta mais comuns e frequentemente constituem o primeiro episódio da doença:
- Neurite óptica — inflamação do nervo ótico que provoca dor ao mover o olho, visão turva ou perda parcial da visão num olho
- Visão dupla (diplopia) — causada por lesões que afetam os nervos que controlam os movimentos oculares
- Nistagmo — movimentos involuntários e rítmicos dos olhos
- Perda de contraste e da perceção de cores
A neurite óptica é tão associada à esclerose múltipla que o seu aparecimento, mesmo isolado, leva frequentemente à investigação da doença.
Sintomas Sensoriais
As alterações de sensibilidade são muito frequentes e podem incluir:
- Dormência — sensação de anestesia numa mão, num pé, num membro inteiro ou numa área do tronco
- Formigamento — sensações de “picadas de agulhas” nos membros ou na face
- Sinal de Lhermitte — uma sensação elétrica que percorre a espinha dorsal ao dobrar o pescoço, quase patognomónica da esclerose múltipla
- Disestesias — sensações anormais como queimadura, aperto ou pressão
- Dor neuropática — dor crónica decorrente de lesões nas vias nervosas
Fadiga e Fraqueza
A fadiga é um dos sintomas mais prevalentes e debilitantes da esclerose múltipla, afetando cerca de 80% dos doentes. Distingue-se do cansaço comum por:
- Surgir independentemente do nível de atividade física
- Piorar com o calor (fenómeno de Uhthoff)
- Ser desproporcional ao esforço realizado
- Ter impacto significativo nas atividades diárias e profissionais
A fraqueza muscular pode afetar os membros inferiores e superiores, dificultando a marcha, a subida de escadas ou tarefas de motricidade fina.
Sintomas Principais por Sistema
A esclerose múltipla pode afetar praticamente qualquer função controlada pelo sistema nervoso central. A tabela seguinte resume os principais grupos de sintomas:
| Sistema Afetado | Sintomas Mais Comuns | Frequência Estimada |
|---|---|---|
| Sensorial | Dormência, formigamento, dor neuropática, sinal de Lhermitte | 40-60% no início |
| Visual | Neurite óptica, visão dupla, nistagmo | 20-25% como primeiro sintoma |
| Motor | Fraqueza, espasticidade, espasmos, alteração da marcha | 30-40% |
| Fadiga | Fadiga extrema, intolerância ao calor | ~80% ao longo da doença |
| Vesical/Intestinal | Urgência urinária, incontinência, obstipação | 50-80% |
| Cognitivo | Dificuldade de concentração, memória, velocidade de processamento | 40-70% |
| Equilíbrio | Ataxia, descoordenação, tonturas | 30-50% |
| Emocional | Depressão, ansiedade, labilidade emocional | 50% ao longo da vida |
Sintomas Motores e de Equilíbrio
As alterações motoras na esclerose múltipla podem manifestar-se como:
- Espasticidade — rigidez e resistência muscular que dificulta os movimentos
- Espasmos musculares — contrações involuntárias, frequentemente dolorosas, mais comuns nos membros inferiores
- Ataxia — descoordenação dos movimentos, dificuldade em andar em linha reta, por vezes acompanhada de vertigens e tonturas
- Tremor — oscilações involuntárias, especialmente ao executar movimentos precisos
- Disartria — dificuldade na articulação das palavras, fala arrastada ou explosiva
Sintomas Cognitivos e Emocionais
As alterações cognitivas afetam uma percentagem significativa de pessoas com esclerose múltipla e podem surgir mesmo nas fases iniciais:
- Lentificação do processamento de informação
- Dificuldades de memória de curto prazo e aprendizagem
- Problemas de atenção e concentração
- Dificuldade em encontrar palavras
A depressão é duas a três vezes mais frequente em pessoas com esclerose múltipla do que na população geral, podendo ter causas biológicas (lesões cerebrais) e psicossociais (impacto da doença crónica).
Sintomas na Esclerose Múltipla em Jovens
A esclerose múltipla de início pediátrico (antes dos 18 anos) é rara mas existe. Em jovens, os sintomas tendem a ser mais agudos e com melhor recuperação inicial. A fadiga e as dificuldades cognitivas podem ter impacto relevante no desempenho escolar.
Tipos de Esclerose Múltipla
Existem vários tipos de esclerose múltipla, classificados de acordo com o padrão de evolução da doença:
| Tipo | Características | Frequência |
|---|---|---|
| Remitente-Recidivante (RRMS) | Surtos com recuperação total ou parcial; períodos de estabilidade entre surtos | ~85% dos diagnósticos iniciais |
| Progressiva Primária (PPMS) | Progressão contínua desde o início, sem surtos definidos | ~10-15% |
| Progressiva Secundária (SPMS) | Começa como RRMS mas evolui para progressão contínua | Evolução de ~50% dos RRMS em 10-15 anos sem tratamento |
| Progressiva Recidivante (PRMS) | Progressão contínua com surtos sobrepostos | Rara (<5%) |
Síndrome Clínico Isolado (CIS)
O síndrome clínico isolado é um primeiro episódio neurológico sugestivo de desmielinização que dura pelo menos 24 horas. Não preenche critérios de diagnóstico de esclerose múltipla, mas pode ser um sinal precoce. Cerca de 50% das pessoas com CIS desenvolvem EM nos anos seguintes.
Causas e Fatores de Risco
A causa exata da esclerose múltipla não é totalmente conhecida, mas resulta provavelmente da interação de múltiplos fatores:
Fatores Genéticos
A esclerose múltipla não é uma doença hereditária clássica, mas existe uma predisposição genética. O risco é maior em familiares de primeiro grau de pessoas com a doença. Certos genes do complexo de histocompatibilidade (HLA) estão associados a maior vulnerabilidade.
Fatores Ambientais e Infeciosos
- Vitamina D: A menor exposição solar e níveis baixos de vitamina D estão associados a maior risco. Portugal, apesar do sol, tem uma prevalência significativa, possivelmente relacionada com fatores genéticos da população.
- Vírus Epstein-Barr (EBV): Estudos recentes sugerem uma forte associação entre infeção prévia pelo EBV (mononucleose) e o desenvolvimento de esclerose múltipla.
- Tabagismo: Fumar aumenta o risco de desenvolver a doença e pode acelerar a sua progressão.
- Obesidade na adolescência: Parece estar associada a maior risco, especialmente em mulheres.
Fatores Imunológicos
Na esclerose múltipla, o sistema imunitário ataca erroneamente a mielina. Mecanismos autoimunes levam à inflamação, desmielinização e, eventualmente, lesão axonal irreversível nas zonas afetadas.
Diagnóstico da Esclerose Múltipla
O diagnóstico de esclerose múltipla baseia-se nos Critérios de McDonald, que exigem evidência de lesões disseminadas no espaço (diferentes localizações no SNC) e no tempo (diferentes momentos).
Como Se Faz o Diagnóstico
O processo diagnóstico inclui:
- Avaliação neurológica detalhada — história clínica completa, exame físico e neurológico
- Ressonância magnética (RM) — o exame mais importante, permite visualizar as placas de desmielinização no cérebro e medula espinal com e sem contraste
- Análise do líquido cefalorraquidiano (LCR) — obtido por punção lombar, pode revelar bandas oligoclonais indicativas de inflamação crónica no SNC
- Potenciais evocados — medem a velocidade de condução nervosa em diferentes vias sensoriais
- Análises ao sangue — para excluir outras causas dos sintomas
O diagnóstico pode ser desafiante quando os sintomas são inespecíficos ou passageiros. Em alguns casos, é necessário seguimento ao longo do tempo para confirmar o diagnóstico.
Tratamento da Esclerose Múltipla
Embora não exista cura para a esclerose múltipla, existem atualmente numerosas opções terapêuticas aprovadas que modificam o curso da doença.
Tratamento dos Surtos
Os surtos agudos são tratados habitualmente com corticosteroides em altas doses (metilprednisolona intravenosa) para reduzir a inflamação e acelerar a recuperação. Os corticosteroides não alteram o prognóstico a longo prazo.
Medicamentos Modificadores da Doença (DMDs)
Os DMDs são a base do tratamento de longo prazo na esclerose múltipla remitente-recidivante e em alguns tipos progressivos. Atuam reduzindo a frequência e gravidade dos surtos e retardando a progressão.
Existem vários grupos de DMDs, desde injetáveis clássicos (interferões, acetato de glatirâmero) a comprimidos orais (dimetilfumarato, teriflunomida, siponimod) e infusões de anticorpos monoclonais (natalizumab, ocrelizumab, ofatumumab). A escolha do medicamento é feita pelo neurologista em conjunto com o doente, tendo em conta a atividade da doença, o perfil de segurança e as preferências individuais.
Tratamento Sintomático e Reabilitação
Além dos DMDs, o tratamento da esclerose múltipla inclui:
- Fisioterapia — para melhorar a força, o equilíbrio e a coordenação
- Terapia ocupacional — para adaptar atividades diárias e profissionais
- Terapia da fala — quando existem dificuldades de comunicação ou deglutição
- Neuropsicologia — para reabilitação cognitiva
- Tratamento da fadiga — higiene do sono, gestão de energia, medicação específica
- Tratamento da espasticidade — fisioterapia, medicação oral ou injeções de toxina botulínica
- Apoio psicológico — para lidar com o impacto emocional da doença crónica
Viver com Esclerose Múltipla
A esclerose múltipla tem um impacto significativo na qualidade de vida, mas com o tratamento e apoio adequados, muitas pessoas mantêm uma vida ativa e profissional durante décadas.
Cuidados e Estilo de Vida
Algumas estratégias podem ajudar a gerir a doença:
- Evitar o calor excessivo — o calor pode piorar temporariamente os sintomas (fenómeno de Uhthoff); preferir ambientes frescos, nadar em água fresca
- Atividade física regular — dentro das capacidades individuais; demonstrou melhorar a fadiga, o humor e a força muscular
- Alimentação equilibrada — dieta mediterrânica, rica em frutas, vegetais e peixes gordos
- Gestão do stress — técnicas de relaxamento, mindfulness, suporte psicológico
- Cessação tabágica — o tabagismo está associado a maior progressão da doença
- Sono de qualidade — fundamental para a gestão da fadiga
- Suplementação de vitamina D — geralmente recomendada, sob orientação médica
Apoio em Portugal
Em Portugal, a SPEM — Sociedade Portuguesa de Esclerose Múltipla presta apoio a pessoas com a doença e às suas famílias, disponibilizando informação, linha de apoio e grupos de suporte.
Quando Consultar um Médico
Deve consultar o seu médico de família ou o SNS 24 (808 24 24 24) se apresentar:
- Dormência ou formigamento persistente num membro ou no rosto
- Alterações de visão — visão turva, visão dupla, dor ao mover o olho
- Fraqueza muscular súbita ou progressiva
- Dificuldade de equilíbrio ou descoordenação
- Fadiga extrema que não melhora com repouso
- Dificuldades de memória ou concentração que interferem com as atividades diárias
- Sintomas que surgem e desaparecem ao longo de dias ou semanas
Sinais de Urgência — Ligue 112
Ligue imediatamente para o 112 ou dirija-se ao serviço de urgência se apresentar:
- Perda súbita da visão
- Fraqueza súbita e grave que impede a marcha
- Dificuldade respiratória
- Confusão mental súbita ou alteração do estado de consciência
- Incapacidade de engolir
Estes sintomas podem indicar um surto grave ou outra condição neurológica urgente que requer avaliação imediata.
Perguntas Frequentes Sobre Esclerose Múltipla
Pode a esclerose múltipla ser confundida com outras doenças? Sim. Os sintomas iniciais da esclerose múltipla podem ser semelhantes aos de outras condições como neuromielite óptica, lúpus, síndrome de Sjögren, défice de vitamina B12, doença de Parkinson ou outras doenças neurológicas. Um diagnóstico correto requer avaliação especializada por neurologista.
A gravidez afeta a esclerose múltipla? A gravidez tende a reduzir a atividade inflamatória da EM, sendo os surtos menos frequentes, especialmente no terceiro trimestre. No entanto, pode ocorrer um aumento temporário dos surtos no período pós-parto. As mulheres com EM devem planear a gravidez em conjunto com o seu neurologista, pois alguns DMDs não são seguros durante a gravidez.
Existe dieta para esclerose múltipla? Não existe nenhuma dieta comprovada para tratar a esclerose múltipla. No entanto, uma alimentação saudável e equilibrada, baseada na dieta mediterrânica, é recomendada. Alguns estudos sugerem benefícios de dietas anti-inflamatórias e com restrição de gorduras saturadas, mas as evidências ainda são limitadas.
Este artigo foi elaborado pela Equipa Sintomas.pt com base em informações do SNS, DGS, OMS e SPEM. Destina-se a fins informativos e não substitui uma consulta médica profissional.

