A enxaqueca é uma das condições neurológicas mais comuns e incapacitantes no mundo. Estima-se que afete cerca de 1,2 milhões de pessoas em Portugal — e, ainda assim, continua a ser subdiagnosticada e subvalorizada. Muitas pessoas passam anos a tratar a enxaqueca como uma simples dor de cabeça, sem procurar o diagnóstico e o tratamento adequados.
Segundo dados da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN) e da MiGRA Portugal, a enxaqueca é responsável por uma perda significativa de produtividade laboral e de qualidade de vida, especialmente entre mulheres em idade ativa. A boa notícia é que, com o diagnóstico correto e um plano de tratamento personalizado, a grande maioria dos doentes consegue controlar as crises de forma eficaz.
Neste guia, explicamos o que é a enxaqueca, quais são os seus sintomas e fases, que causas a podem desencadear, como se distingue de outras cefaleias e quando deve consultar um profissional de saúde. A informação baseia-se em orientações do SNS, da Direção-Geral da Saúde (DGS), da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Aviso médico: Este conteúdo tem carácter informativo e não substitui uma consulta médica. Se sofre de crises frequentes ou incapacitantes, consulte o seu médico de família ou um neurologista. Em caso de emergência, ligue 112 ou o SNS 24 (808 24 24 24).
O Que É a Enxaqueca
A enxaqueca (ou enxaqueca) é uma doença neurológica crónica caracterizada por crises recorrentes de dor de cabeça intensa, habitualmente pulsátil e num só lado da cabeça, frequentemente acompanhada de náuseas, vómitos e intolerância à luz e ao som. Não se trata de uma simples dor de cabeça — é uma condição complexa que envolve alterações em múltiplas regiões do cérebro.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a enxaqueca como uma das doenças mais incapacitantes do mundo, ocupando o segundo lugar global em anos vividos com incapacidade entre as doenças neurológicas.
Tipos de Enxaqueca
Existem dois tipos principais de enxaqueca, sendo importante distingui-los para um diagnóstico e tratamento corretos:
| Tipo | Prevalência | Características Distintas |
|---|---|---|
| Enxaqueca sem aura | 75-80% dos casos | Dor pulsátil, sem sintomas neurológicos prévios |
| Enxaqueca com aura | 20-25% dos casos | Precedida de aura: fenómenos visuais, sensoriais ou motores transitórios |
Além destes dois tipos principais, existem formas menos comuns, como a enxaqueca crónica (≥15 dias de cefaleia por mês, durante ≥3 meses), a enxaqueca menstrual, a enxaqueca com aura do tronco cerebral e a enxaqueca hemiplégica familiar.
As Quatro Fases de uma Crise de Enxaqueca
Uma crise de enxaqueca não é apenas dor — é um processo que pode envolver até quatro fases distintas, cada uma com as suas características:
Fase 1: Pródromo (Sintomas Premonitórios)
Horas a dois dias antes da dor, muitos doentes experienciam sintomas subtis que podem anunciar a crise iminente:
- Bocejos excessivos e repetidos
- Alterações de humor (irritabilidade, euforia ou tristeza)
- Desejo intenso de certos alimentos (especialmente doces ou salgados)
- Sensação de cansaço e dificuldade de concentração
- Rigidez ou dor no pescoço
- Aumento da sensibilidade à luz ou ao som
- Retenção de líquidos ou aumento da frequência urinária
Reconhecer esta fase permite ao doente iniciar medidas preventivas e preparar-se para a crise.
Fase 2: Aura (em 20-25% dos Casos)
A aura é um conjunto de sintomas neurológicos transitórios, totalmente reversíveis, que duram geralmente entre 5 e 60 minutos e antecedem ou acompanham a fase de dor:
- Aura visual (a mais comum): pontos brilhantes, flashes de luz, linhas em ziguezague, pontos cegos (escotomas) ou visão desfocada — sintomas que também podem ocorrer na sinusite ou em problemas de tensão arterial elevada
- Aura sensorial: formigueiros ou dormência que começam geralmente nos dedos e sobem pelo braço até à face
- Aura da fala: dificuldade em encontrar palavras ou em falar claramente (disfasia transitória)
- Aura motora (rara): fraqueza num lado do corpo (enxaqueca hemiplégica)
Nota importante: Embora os sintomas de aura sejam transitórios e benignos, novos episódios de aura ou aura prolongada (>60 minutos) devem ser avaliados por um médico para excluir outras causas neurológicas graves.
Fase 3: Dor (Cefaleia)
Esta é a fase principal e mais incapacitante da crise. A dor típica de enxaqueca tem as seguintes características:
- Localização: Habitualmente num lado da cabeça (unilateral), embora possa ser bilateral em crianças ou em alguns adultos
- Qualidade: Pulsátil ou latejante, como um “batimento” dentro da cabeça
- Intensidade: Moderada a grave — frequentemente incapacitante, impedindo atividades normais
- Duração: 4 a 72 horas sem tratamento
- Agravamento: Com atividade física moderada (como subir escadas), luz, som ou cheiros intensos
- Sintomas associados: Náuseas (em 80% dos casos), vómitos (em 30%), fotofobia (intolerância à luz) e fonofobia (intolerância ao som)
Fase 4: Pós-dromo (Ressaca de Enxaqueca)
Após o fim da dor, muitos doentes experienciam um período de recuperação de algumas horas a dois dias, com:
- Sensação de “névoa” mental (brain fog)
- Fadiga intensa e fraqueza
- Dificuldade de concentração
- Humor deprimido ou sensação de euforia
- Sensibilidade residual à luz ou ao som
Causas e Desencadeantes de Enxaqueca
A causa exata da enxaqueca ainda não é completamente conhecida, mas sabe-se que envolve alterações na atividade elétrica cerebral, na libertação de neurotransmissores (especialmente serotonina e CGRP — peptídeo relacionado com o gene da calcitonina) e na ativação do nervo trigémio.
Fatores de Risco
Algumas pessoas têm maior predisposição para desenvolver enxaqueca:
- Genética: A enxaqueca tende a ser hereditária — 70% dos doentes têm pelo menos um familiar de primeiro grau com a condição
- Sexo: Três vezes mais comum em mulheres do que em homens após a puberdade
- Idade: Mais prevalente entre os 25 e os 55 anos, mas pode ocorrer em qualquer idade, incluindo na infância
- Hormónios: As variações hormonais (ciclo menstrual, gravidez, menopausa, contraceção hormonal) são fatores de risco e desencadeantes frequentes em mulheres
Desencadeantes Mais Comuns em Portugal
Identificar os seus desencadeantes pessoais é fundamental para reduzir a frequência das crises. Os mais frequentemente reportados incluem:
| Categoria | Desencadeantes Frequentes |
|---|---|
| Estilo de vida | Stress, relaxamento pós-stress, alterações do sono, saltar refeições, desidratação |
| Alimentares | Vinho tinto, cerveja, queijo curado, chocolate, alimentos processados, cafeína em excesso |
| Hormonais | Menstruação, ovulação, pílula contracetiva, menopausa |
| Ambientais | Luz brilhante ou piscante, odores intensos, fumo, ruído, mudanças meteorológicas |
| Físicos | Esforço físico intenso, viagens longas, postura incorreta |
| Outros | Certos medicamentos, jejum prolongado, altitude |
Como Reconhecer a Enxaqueca: Sintomas Detalhados
Enxaqueca em Mulheres
A enxaqueca afeta as mulheres de forma diferente ao longo das várias fases da vida:
- Ciclo menstrual: Até 60% das mulheres com enxaqueca referem crises relacionadas com a menstruação, tipicamente nos 2 dias anteriores e nos 3 primeiros dias do período. A enxaqueca menstrual tende a ser mais intensa, de maior duração e mais resistente ao tratamento do que as crises noutras alturas do mês.
- Gravidez: Muitas mulheres com enxaqueca experienciam melhoria ou até remissão durante a gravidez (especialmente no 2.º e 3.º trimestres), graças ao aumento estável dos níveis de estrogénio. No entanto, pode haver agravamento no primeiro trimestre.
- Menopausa: Para muitas mulheres, a menopausa marca a melhoria das enxaquecas. No entanto, na perimenopausa, a instabilidade hormonal pode piorar temporariamente as crises.
Enxaqueca em Crianças
Em crianças, a enxaqueca pode apresentar características distintas que dificultam o reconhecimento:
- A dor costuma ser bilateral (frente da cabeça ou testa) em vez de unilateral
- As crises são geralmente mais curtas (2 a 72 horas)
- Náuseas e vómitos podem ser mais proeminentes do que a própria dor de cabeça
- As crianças podem ter dificuldade em descrever a dor com precisão
- Podem surgir equivalentes de enxaqueca sem dor de cabeça: dor abdominal recorrente, vómitos cíclicos ou tonturas episódicas
- A palidez, o cansaço e a vontade de estar num quarto escuro e em silêncio são sinais sugestivos
Enxaqueca em Idosos
Com o envelhecimento, a enxaqueca tende a diminuir em frequência e intensidade. No entanto, em pessoas idosas:
- A aura pode persistir mesmo sem a fase de dor (aura sem cefaleia)
- As crises podem ser mais difusas e menos características
- Novos episódios de cefaleia intensa em idosos devem ser sempre avaliados para excluir causas vasculares ou estruturais
Enxaqueca vs. Dor de Cabeça Tensional: Como Distinguir
Esta é uma das questões mais frequentes em consulta. As duas condições são distintas e requerem abordagens diferentes:
Características Comparativas
| Característica | Enxaqueca | Dor de Cabeça Tensional |
|---|---|---|
| Localização | Habitualmente unilateral | Bilateral (“fita à volta da cabeça”) |
| Tipo de dor | Pulsátil / latejante | Pressão / aperto |
| Intensidade | Moderada a grave | Leve a moderada |
| Duração | 4-72 horas | 30 minutos a 7 dias |
| Náuseas/vómitos | Frequentes | Raros |
| Fotofobia/fonofobia | Ambas presentes | Uma ou nenhuma |
| Agravamento com atividade | Sim | Não |
| Incapacidade | Frequente | Raramente incapacitante |
Diagnóstico e Quando Consultar um Médico
O diagnóstico de enxaqueca é essencialmente clínico, baseado na história e nas características das crises. Não existe nenhum exame laboratorial ou de imagem que confirme a enxaqueca — estes podem ser pedidos para excluir outras causas.
Quando Consultar o Médico de Família
- Crises de cefaleia frequentes (mais de 2-4 por mês)
- Dor que interfere com trabalho, escola ou atividades diárias
- Consumo frequente de analgésicos (mais de 2-3 dias por semana)
- Sintomas que não melhoram com analgésicos habituais
- Surgimento de sintomas novos ou mudança no padrão habitual das crises
Sinais de Alarme — Procure Urgência Imediata
Alguns sintomas associados à cefaleia podem indicar uma condição grave e requerem avaliação urgente:
- “Pior dor de cabeça da minha vida” de início súbito (pode indicar hemorragia subaracnoide)
- Dor acompanhada de febre, rigidez da nuca e intolerância à luz (possível meningite)
- Alterações neurológicas persistentes: visão dupla, dificuldade em falar, fraqueza ou dormência facial/corporal que não passam
- Cefaleia após traumatismo craniano
- Cefaleia intensa em grávida ou puérpera
- Cefaleia de início recente em pessoa com mais de 50 anos
Em qualquer destes casos, ligue imediatamente 112 ou dirija-se à urgência hospitalar mais próxima. Pode também contactar o SNS 24 (808 24 24 24) para aconselhamento em situações de menor urgência.
Tratamento e Gestão das Crises
Embora a enxaqueca não tenha cura definitiva, existe um leque alargado de opções terapêuticas que permitem controlar eficazmente a maioria dos casos.
Tratamento Agudo (das Crises)
O objetivo é tratar a crise o mais precocemente possível, de preferência ao primeiro sinal:
- Analgésicos simples: Paracetamol ou ácido acetilsalicílico (aspirina) podem ser eficazes nas crises ligeiras, especialmente se tomados cedo
- Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs): Ibuprofeno, naproxeno ou diclofenac são frequentemente mais eficazes do que o paracetamol simples
- Triptanos: São os fármacos mais específicos para a enxaqueca (sumatriptano, zolmitriptano, rizatriptano, entre outros). Atuam no mecanismo da enxaqueca e são muito eficazes nas crises moderadas a graves. Requerem prescrição médica em Portugal.
- Gepants: Uma nova classe de medicamentos (rimegepant, ubrogepant) disponível para o tratamento agudo e que também pode ter efeito preventivo. Particularmente útil em doentes com contraindicações aos triptanos.
- Antieméticos: Para controlar as náuseas e vómitos (metoclopramida, domperidona), que também melhoram a absorção dos analgésicos
Tratamento Preventivo (Profilático)
Indicado quando as crises são frequentes (≥4/mês), incapacitantes ou quando o tratamento agudo é insuficiente:
- Betabloqueantes (propranolol, metoprolol): bem estabelecidos na profilaxia da enxaqueca
- Antidepressivos (amitriptilina): especialmente úteis quando há comorbilidade com depressão ou perturbações do sono
- Antiepilépticos (topiramato, valproato): eficazes na redução da frequência das crises
- Anticorpos anti-CGRP (erenumab, fremanezumab, galcanezumab): nova geração de tratamentos preventivos com elevada eficácia e boa tolerância, indicados para enxaqueca crónica e episódica frequente resistente a outros tratamentos
- Toxina botulínica (Botox): Aprovada para enxaqueca crónica, com injeções a cada 12 semanas
Medidas Não Farmacológicas
Em complemento ao tratamento médico, algumas estratégias podem ajudar a reduzir a frequência e intensidade das crises:
- Diário de enxaqueca: Registar as crises, os desencadeantes, os medicamentos usados e a resposta ao tratamento é fundamental para otimizar o controlo da doença
- Sono regular: Manter horários regulares de sono, evitando tanto a privação como o excesso de sono
- Hidratação adequada: Beber água suficiente ao longo do dia
- Refeições regulares: Não saltar refeições e evitar jejuns prolongados
- Gestão do stress: Técnicas de relaxamento, meditação, yoga ou biofeedback
- Exercício regular: Atividade física aeróbia moderada e regular pode reduzir a frequência das crises a longo prazo
- Ambiente: Reduzir a exposição a luz intensa e a ruído durante as crises; usar óculos de sol em dias de muita luz
Impacto da Enxaqueca em Portugal
A enxaqueca tem um impacto económico e social considerável em Portugal. Estima-se que a doença cause, em média, entre 4 a 6 dias de incapacidade laboral por mês nos doentes com enxaqueca frequente. A SPN e a MiGRA Portugal têm vindo a alertar para a necessidade de melhorar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento desta condição nos cuidados de saúde primários portugueses.
Apesar da prevalência elevada, muitos doentes portugueses nunca receberam um diagnóstico formal de enxaqueca, tomam medicação em excesso (o que pode levar à cefaleia por uso excessivo de medicamentos) ou não têm acesso aos tratamentos mais recentes. A consulta com o médico de família é o primeiro e mais importante passo para um controlo adequado da doença.
Perguntas Frequentes sobre Enxaqueca
O que desencadeia uma crise de enxaqueca?
Os desencadeantes variam de pessoa para pessoa. Os mais comuns incluem stress, alterações do sono, saltar refeições, desidratação, variações hormonais (especialmente relacionadas com o ciclo menstrual), certos alimentos e bebidas alcoólicas, e fatores ambientais como luz intensa ou odores fortes. Manter um diário de enxaqueca ajuda a identificar os desencadeantes individuais.
A enxaqueca pode ser confundida com AVC?
Em raras situações, os sintomas de aura — especialmente quando prolongados ou com fraqueza motora — podem ser confundidos com um AVC ou AIT (acidente isquémico transitório). Perante qualquer dúvida, especialmente se os sintomas forem novos, persistirem mais de 60 minutos ou ocorrerem em pessoas sem diagnóstico prévio de enxaqueca com aura, deve procurar avaliação médica urgente. A regra é: em caso de dúvida, ligue 112.
Posso conduzir durante uma crise de enxaqueca?
Não é aconselhável. A dor intensa, as náuseas, a fotofobia e, especialmente, a aura (que inclui alterações visuais e outros sintomas neurológicos) comprometem significativamente a capacidade de conduzir com segurança. Durante uma crise, deve interromper a condução e procurar um local seguro para descansar.
A pílula contracetiva pode piorar a enxaqueca?
Pode. A contracetiva combinada (com estrogénio e progesterona) pode agravar a enxaqueca em algumas mulheres, especialmente a enxaqueca com aura. Mulheres com enxaqueca com aura não devem tomar contracetivos combinados, pois há um risco aumentado de AVC. Esta é uma questão importante a discutir com o médico de família ou ginecologista.
Referências e Recursos Úteis
Para mais informação sobre enxaqueca em Portugal, pode consultar:
- SNS — Tratamento da Enxaqueca
- CUF — Enxaqueca
- Sociedade Portuguesa de Neurologia
- MiGRA Portugal
- SNS 24: 808 24 24 24
Este artigo tem carácter informativo e não constitui aconselhamento médico. Consulte sempre um profissional de saúde para diagnóstico e tratamento adequados. Em situação de emergência, ligue 112.

