Aviso médico: Este artigo tem fins informativos e não substitui consulta médica. Se tiver dúvidas sobre os seus sintomas, consulte o seu médico de família ou ligue para o SNS 24 (808 24 24 24). Em situação de emergência, ligue 112.
O quisto ovárico é uma das situações ginecológicas mais comuns em mulheres em todo o mundo. Estima-se que a maioria das mulheres desenvolva pelo menos um quisto ovárico ao longo da vida, sendo que a maior parte é benigna e resolve-se sem qualquer tratamento. No entanto, alguns quistos podem causar sintomas significativos ou complicações que requerem acompanhamento médico.
Em Portugal, o quisto ovárico é frequentemente descoberto de forma acidental durante uma ecografia de rotina. Muitas mulheres ficam preocupadas com o diagnóstico, mas é importante compreender que existem tipos muito diferentes de quistos ováricos — com causas, prognósticos e abordagens terapêuticas distintas.
Neste guia, a Equipa Sintomas.pt explica o que é um quisto ovárico, como reconhecer os seus sintomas, quando é necessária atenção médica urgente, e o que esperar do processo de diagnóstico e tratamento.
O que É um Quisto Ovárico?
Um quisto ovárico é uma bolsa ou saco preenchido com líquido (ou material sólido) que se forma num dos ovários ou à sua superfície. Os ovários são dois órgãos do tamanho de uma amêndoa, localizados de cada lado do útero, responsáveis pela produção de óvulos e das hormonas femininas estrogénio e progesterona.
Os quistos ováricos são extremamente comuns, especialmente durante os anos reprodutivos. De acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), a grande maioria dos quistos ováricos é funcional — ou seja, forma-se como parte do ciclo menstrual normal — e desaparece espontaneamente em dias ou semanas.
Tipos de Quistos Ováricos
Nem todos os quistos são iguais. A tabela seguinte resume os principais tipos e as suas características:
| Tipo de Quisto | Causa | Benigno? | Resolve Sozinho? |
|---|---|---|---|
| Folicular | Folículo que não liberta óvulo | Sim | Sim (1-3 meses) |
| Corpo lúteo | Folículo após ovulação que enche de líquido | Sim | Sim (semanas) |
| Endometrioma | Tecido endometrial nos ovários (endometriose) | Sim | Não |
| Dermóide (teratoma) | Células germinativas (pode conter cabelo, gordura) | Geralmente | Não |
| Cistoadenoma | Células da superfície do ovário | Maioria | Não |
| Hemorrágico | Sangramento dentro de um quisto funcional | Sim | Frequentemente |
| Maligno | Células cancerígenas | Não | Não |
Os quistos funcionais (folicular e do corpo lúteo) são de longe os mais frequentes e raramente causam problemas sérios. Os quistos patológicos — endometriomas, dermóides, cistoadenomas — requerem avaliação e seguimento mais cuidadosos.
Quisto Ovárico: Sintomas Principais
Uma das características mais importantes dos quistos ováricos é que a maioria é assintomática — não causa qualquer queixa e é descoberta por acaso durante uma ecografia. Quando os sintomas surgem, variam consoante o tamanho, tipo e localização do quisto.
Quando os Quistos Ováricos São Assintomáticos
Os quistos funcionais pequenos (inferiores a 3-4 cm) raramente causam sintomas. É possível que uma mulher tenha quistos ováricos durante anos sem o saber. Em Portugal, é comum que o diagnóstico seja feito durante uma ecografia pélvica de rotina ou durante a investigação de outra queixa ginecológica.
Sintomas Mais Comuns dos Quistos Ováricos
Quando os sintomas estão presentes, é possível que incluam:
- Dor ou pressão pélvica — sensação de peso ou desconforto no baixo ventre, geralmente do lado do quisto
- Inchaço abdominal — sensação de barriga inchada ou distendida
- Dor durante as relações sexuais (dispareunia) — especialmente em certas posições
- Menstruação irregular — ciclos mais curtos, mais longos ou com fluxo alterado
- Menstruação dolorosa (dismenorreia) — cólicas mais intensas que o habitual
- Sensação de pressão na bexiga — necessidade frequente de urinar ou dificuldade em esvaziar a bexiga completamente
- Sensação de pressão no intestino — desconforto ao defecar ou obstipação
- Dor nas costas ou nas coxas — por pressão sobre nervos próximos
- Náuseas ligeiras — sem causa aparente
Se também sente perturbações menstruais associadas à síndrome do ovário poliquístico, é importante distinguir esta condição dos quistos ováricos simples, pois o tratamento é diferente.
Sintomas em Adolescentes
Nas adolescentes, os quistos ováricos funcionais são relativamente comuns nos primeiros anos após a menarca, período em que os ciclos menstruais ainda podem ser irregulares. A maioria não causa sintomas graves. No entanto, deve ser avaliada pelo médico qualquer adolescente que apresente:
- Dor pélvica intensa ou recorrente
- Menstruação muito irregular ou ausente durante vários meses
- Inchaço abdominal persistente
- Dor súbita e intensa no baixo ventre
Os quistos dermóides (teratomas) são mais frequentes em mulheres jovens e adolescentes e, embora geralmente benignos, requerem acompanhamento e frequentemente cirurgia.
Sintomas na Menopausa
Um quisto ovárico descoberto após a menopausa merece sempre atenção redobrada. Embora a maioria seja benigna, o risco de malignidade é maior nesta fase da vida do que nos anos reprodutivos. Sintomas que podem indicar a presença de um quisto na menopausa incluem:
- Distensão abdominal sem causa alimentar aparente
- Dor pélvica persistente ou em crescimento
- Perda de peso não intencional
- Alteração dos hábitos intestinais
Mulheres com sintomas persistentes após a menopausa devem ser avaliadas sem demora. Se está a experienciar outros sintomas desta fase, consulte o nosso guia sobre os sintomas da menopausa para compreender melhor o que é normal e o que merece avaliação médica.
Como Reconhecer Quisto Ovárico vs. Outras Causas de Dor Pélvica?
A dor pélvica é um sintoma inespecífico que pode ter muitas causas. O diagnóstico diferencial é importante, pois cada condição tem tratamento diferente.
Quisto Ovárico vs. Endometriose vs. SOP: Como Distinguir?
| Característica | Quisto Ovárico Simples | Endometriose | SOP |
|---|---|---|---|
| Sintoma principal | Dor pélvica lateral | Dor menstrual intensa | Ciclos irregulares |
| Menstruação | Pode ser normal | Muito dolorosa | Irregular ou ausente |
| Dor nas relações | Possível | Frequente e intensa | Rara |
| Infertilidade | Rara (quistos simples) | Frequente | Frequente |
| Diagnóstico | Ecografia | Ecografia + laparoscopia | Ecografia + análises |
| Localização | Num ovário | Ambos os ovários (endometriomas) | Ovários com múltiplos pequenos quistos |
| Resolve sozinho? | Frequentemente (funcional) | Não | Não sem tratamento |
Se suspeita que as suas queixas menstruais podem ser endometriose, o acompanhamento ginecológico especializado é fundamental, pois esta condição pode ter impacto na fertilidade e na qualidade de vida.
Causas e Fatores de Risco
Quistos Funcionais: A Causa Mais Frequente
Os quistos funcionais formam-se como parte do ciclo menstrual normal:
Quisto folicular: Durante cada ciclo, vários folículos crescem no ovário. Habitualmente, um folículo dominante atinge a maturidade, liberta o óvulo (ovulação) e depois colapsa. Quando este processo não ocorre normalmente, o folículo pode continuar a crescer e encher-se de líquido, formando um quisto folicular.
Quisto do corpo lúteo: Após a ovulação, o folículo transforma-se numa estrutura chamada corpo lúteo, que produz progesterona. Se o corpo lúteo não se dissolver como deveria, pode encher-se de líquido ou sangue, formando um quisto.
Outros Tipos e Causas
- Endometriose: Tecido endometrial que cresce nos ovários pode formar quistos de sangue escuro chamados endometriomas ou “quistos de chocolate”
- Síndrome do ovário poliquístico (SOP): Condição hormonal em que os ovários desenvolvem múltiplos quistos pequenos; o mecanismo é diferente dos quistos funcionais
- Gravidez: Um quisto do corpo lúteo pode persistir nas primeiras semanas de gravidez para suportar o embrião
- Infeção pélvica: Infeções graves dos órgãos reprodutores podem ocasionalmente levar à formação de abcessos pélvicos semelhantes a quistos
Fatores que Aumentam o Risco
- Historial prévio de quistos ováricos
- Endometriose diagnosticada
- Síndrome do ovário poliquístico
- Irregularidades menstruais crónicas
- Terapêutica de indução de ovulação (tratamentos de fertilidade)
- Uso de alguns tipos de dispositivos intrauterinos hormonais
- Historial familiar de quistos ováricos ou cancro ovárico
Diagnóstico do Quisto Ovárico
Como é Feito o Diagnóstico?
O diagnóstico de quisto ovárico é feito principalmente através de ecografia pélvica — um exame de imagem não invasivo e sem radiação que permite visualizar os ovários e caracterizar o quisto (tamanho, forma, conteúdo).
O médico pode solicitar:
- Ecografia transvaginal — introduz-se uma sonda pequena na vagina, fornecendo imagens mais detalhadas dos ovários; é o método de eleição pela sua precisão
- Ecografia abdominal — realizada externamente, útil como primeira abordagem
- Análises ao sangue — incluindo o marcador tumoral CA-125, que pode estar elevado em quistos malignos, mas também em condições benignas como endometriose ou doença inflamatória pélvica
- Ressonância magnética (RM) — em casos selecionados, para melhor caracterização de quistos complexos
- Laparoscopia — procedimento cirúrgico minimamente invasivo usado quando o diagnóstico é incerto ou para tratamento
Tratamento do Quisto Ovárico
Vigilância Ativa (Watchful Waiting)
Para a maioria dos quistos funcionais simples em mulheres em idade fértil, a abordagem recomendada é vigilância com ecografia de controlo ao fim de 6 a 12 semanas. Muitos quistos regridem espontaneamente.
Tratamento Médico
- Contracetivos orais combinados — podem ser usados para prevenir a formação de novos quistos funcionais (não reduzem quistos já existentes)
- Analgésicos — para controlo da dor associada (sempre com indicação médica)
Tratamento Cirúrgico
A cirurgia é indicada quando:
- O quisto tem dimensões grandes (geralmente >5-6 cm) e não regride
- Apresenta características ecográficas suspeitas de malignidade
- Causa sintomas significativos ou complicações
- Há suspeita ou confirmação de torção ou rotura
As técnicas cirúrgicas incluem:
- Quistectomia laparoscópica — remoção apenas do quisto, preservando o ovário; é a abordagem preferida
- Ooforectomia — remoção do ovário, reservada para casos específicos (quistos malignos, torção com necrose, quisto dermóide muito grande)
Complicações Possíveis
Embora a maioria dos quistos seja benigna, é possível que ocorram complicações que requerem atenção imediata:
Torção do Ovário
A torção ovárica ocorre quando o quisto faz o ovário rodar sobre si próprio, interrompendo o seu fornecimento de sangue. É uma emergência cirúrgica. Os sintomas são:
- Dor pélvica súbita, intensa e unilateral
- Náuseas e vómitos
- Febre
Rotura do Quisto
A rotura pode causar dor intensa e, em casos com hemorragia significativa, sintomas de choque (tonturas, queda da pressão arterial, taquicardia). Pequenas roturas com mínima hemorragia podem ser tratadas de forma conservadora; roturas com hemorragia major requerem cirurgia urgente.
Se a dor pélvica é semelhante à que pode acompanhar tensão pré-menstrual, mas muito mais intensa, leia o nosso guia sobre tensão pré-menstrual para compreender as diferenças.
Quando Consultar um Médico
Situações de Emergência — Ligue 112 ou Vá Às Urgências Imediatamente
- Dor pélvica súbita e intensa, especialmente se surgir de forma abrupta
- Febre associada a dor pélvica
- Vómitos persistentes com dor abdominal
- Desmaio ou sensação de desmaio
- Abdómen muito rígido ao toque
Estes sinais podem indicar torção ovárica ou rotura com hemorragia — situações que requerem intervenção cirúrgica urgente.
Consulte o Médico de Família ou Ginecologista
- Dor pélvica persistente ou recorrente
- Menstruação muito irregular, dolorosa ou ausente
- Dor durante as relações sexuais
- Inchaço abdominal persistente sem causa aparente
- Quisto ovárico confirmado para acompanhamento regular
- Dificuldade em engravidar com quisto ovárico conhecido
- Qualquer quisto ovárico descoberto após a menopausa
Contactos úteis em Portugal:
- SNS 24: 808 24 24 24 (linha de saúde gratuita, disponível 24 horas)
- Médico de Família — primeiro ponto de contacto e referenciação para Ginecologia
- Emergência: 112
Perguntas Frequentes sobre Quisto Ovárico
Quanto tempo demora um quisto ovárico a desaparecer?
Os quistos funcionais (foliculares ou do corpo lúteo) tendem a resolver-se espontaneamente em 1 a 3 meses, por vezes sem qualquer tratamento. Os quistos patológicos — como endometriomas, dermóides ou cistoadenomas — não desaparecem por si só e podem requerer intervenção cirúrgica. O acompanhamento ecográfico regular é essencial para monitorizar a evolução.
Qual a diferença entre quisto ovárico e endometriose?
A endometriose é uma doença em que tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, podendo formar quistos nos ovários chamados endometriomas. Um quisto ovárico pode ter muitas causas diferentes da endometriose — a maioria são quistos funcionais benignos. A endometriose costuma causar dor menstrual intensa, dor nas relações sexuais e infertilidade, enquanto muitos quistos simples são assintomáticos.
Um quisto ovárico pode ser cancro?
A grande maioria dos quistos ováricos — especialmente em mulheres em idade fértil — é benigna. O risco de malignidade aumenta com a idade (especialmente após a menopausa), o tamanho do quisto, as suas características ecográficas (paredes espessas, septos, componente sólido) e o historial familiar. O médico avalia estas características para decidir se é necessária vigilância ou cirurgia.
O quisto ovárico afeta a fertilidade?
A maioria dos quistos simples e funcionais não afeta a fertilidade. Contudo, quistos associados a endometriose, síndrome do ovário poliquístico ou que causem torção podem comprometer a função ovárica. Se tem dificuldade em engravidar e quistos ováricos confirmados, a avaliação por um especialista em medicina da reprodução é recomendada.
Quisto ovárico em adolescentes é normal?
Sim, os quistos funcionais são relativamente comuns em adolescentes durante os ciclos anovulatórios dos primeiros anos após a menarca. A maioria resolve-se sem tratamento. Contudo, quistos persistentes, dolorosos ou com características atípicas devem ser avaliados por um pediatra ou ginecologista, pois algumas causas — como quistos dermóides — são mais frequentes nesta faixa etária.
Devo preocupar-me com um quisto ovárico na menopausa?
Um quisto ovárico descoberto após a menopausa merece sempre avaliação cuidadosa, pois o risco de malignidade é maior nesta fase. O médico avaliará o tamanho, as características ecográficas e marcadores tumorais como o CA-125. Muitos quistos simples e pequenos na menopausa são benignos e podem ser apenas vigiados, mas é importante não os ignorar.
Um quisto ovárico pode rebentar? O que acontece?
Sim, é possível. A rotura de um quisto ovárico pode causar dor pélvica súbita e intensa, náuseas, vómitos e, em casos graves com hemorragia interna significativa, queda da pressão arterial e taquicardia. Pequenas roturas de quistos funcionais resolvem-se frequentemente sem intervenção. Roturas com hemorragia importante são urgência médica — ligue 112 ou vá às urgências.
Conclusão
O quisto ovárico é uma condição muito frequente que afeta mulheres de todas as idades, desde as adolescentes até à menopausa. A grande maioria é benigna e resolve-se espontaneamente, mas algumas formas requerem acompanhamento ou intervenção médica.
Reconhecer os sintomas — especialmente os sinais de alerta que indicam complicações como torção ou rotura — é fundamental para procurar ajuda no momento certo. Se tiver dor pélvica persistente, alterações menstruais ou qualquer preocupação relacionada com a saúde ovárica, não hesite em contactar o seu médico de família ou ligar para o SNS 24 (808 24 24 24).
Este artigo foi elaborado com base em informação das autoridades de saúde portuguesas (SNS, DGS) e organizações internacionais (OMS). Não substitui avaliação médica individualizada. Para qualquer dúvida sobre a sua saúde, consulte sempre um profissional de saúde qualificado.

