Aviso Médico: Este artigo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Se tiver sintomas de zona ou dor persistente, consulte o seu médico. Em situações de urgência, ligue para o 112 ou contacte o SNS 24 (808 24 24 24).
A zona, designação popular do herpes zóster, é uma doença infeciosa provocada pela reativação do vírus varicela-zóster (VZV) — o mesmo vírus responsável pela varicela. Em Portugal, estima-se que cerca de 63 mil adultos sejam diagnosticados com zona por ano, sendo 67% deles com mais de 50 anos, segundo dados de 2023-2024.
Embora muitas pessoas associem a zona apenas a um “problema de pele”, trata-se de uma doença com impacto significativo na qualidade de vida, particularmente nos adultos mais velhos. Neste guia, explicamos os sintomas, as fases da doença, as possíveis complicações e quando deve procurar ajuda médica.
O Que É a Zona e Por Que Aparece?
Após uma infeção por varicela (frequentemente na infância), o vírus VZV não desaparece do organismo — fica adormecido nos gânglios dos nervos sensitivos, aguardando. Durante décadas, o sistema imunitário mantém o vírus controlado. No entanto, com o avançar da idade ou perante fatores que enfraquecem a imunidade, o vírus pode reativar-se.
Porque o Vírus Reactiva
A reativação do vírus pode dever-se a:
- Envelhecimento natural do sistema imunitário (principal fator de risco)
- Doenças que comprometem a imunidade (cancro, VIH, doenças autoimunes)
- Medicamentos imunossupressores (corticóides de longa duração, quimioterapia)
- Stress físico ou emocional intenso (cirurgia recente, trauma, burnout)
- Fadiga crónica e privação de sono
Uma vez reativado, o vírus percorre o nervo até à pele, causando inflamação, dor e as características lesões cutâneas. Por isso, a zona afeta sempre uma região bem delimitada do corpo — o dermátomo correspondente ao nervo afetado.
Sintomas da Zona: As Três Fases da Doença
A zona evolui tipicamente em três fases distintas, cada uma com características próprias.
Fase 1 — Pré-Eruptiva (1 a 5 dias antes das bolhas)
Esta é a fase mais frequentemente ignorada ou confundida com outras condições. Os sintomas podem incluir:
- Dor localizada, ardor, queimadura ou formigueiro num lado do corpo
- Hipersensibilidade ao toque na zona afetada (até um lençol pode causar desconforto)
- Comichão sem lesões visíveis
- Febre ligeira, mal-estar geral, fadiga
- Dor de cabeça
- Ocasionalmente, sensibilidade à luz
A dor pode preceder as lesões cutâneas em vários dias, o que dificulta o diagnóstico nesta fase. Muitas pessoas pensam tratar-se de dor muscular, uma crise renal ou mesmo um problema cardíaco (quando a dor se localiza no tórax esquerdo). Esta fase pode também ser confundida com outras condições da pele, como a dermatite atópica ou a psoríase.
Fase 2 — Eruptiva (7 a 14 dias)
Esta é a fase mais reconhecível da zona. As características típicas são:
- Manchas avermelhadas na pele, seguidas de pequenas vesículas (bolhas) com líquido claro
- As lesões organizam-se em faixa ou banda unilateral, seguindo o trajeto do nervo
- Localizam-se apenas num lado do corpo (esquerdo ou direito — raramente bilateral)
- As zonas mais afetadas: tórax, abdómen, pescoço, rosto e membros
- As bolhas causam dor intensa, ardor e comichão
- Ao fim de 7 a 10 dias, as bolhas rebentam e formam crostas
Nota importante: Durante esta fase, o líquido das vesículas é contagioso para pessoas sem imunidade à varicela.
Fase 3 — De Resolução (2 a 4 semanas)
As crostas caem progressivamente e as lesões cicatrizam. Em muitos casos, pode ficar uma hiperpigmentação temporária (manchas escuras) ou, raramente, cicatrizes.
Numa percentagem significativa de doentes — especialmente idosos — a dor não desaparece com as lesões e evolui para nevralgia pós-herpética (ver secção específica abaixo).
Onde Aparece a Zona no Corpo?
A zona pode afetar qualquer dermátomo do corpo, mas existem localizações mais comuns:
| Localização | Dermátomo Afetado | Observações |
|---|---|---|
| Tórax / Costas | T3–T12 | Mais comum; dor “em cinta” à volta do tronco |
| Rosto / Testa | V1 (ramo oftálmico do trigémio) | Risco de zona oftálmica — pode afetar o olho |
| Pescoço / Ombro | C2–C4 | Dor que irradia para o braço |
| Lombar / Abdómen | L1–L3 | Pode simular cólica renal |
| Ouvido / Rosto | VII (nervo facial) | Síndrome de Ramsay Hunt (ver abaixo) |
| Membros | Variável | Menos frequente |
Zona Oftálmica — Uma Forma Mais Grave
A zona oftálmica ocorre quando o vírus afeta o ramo oftálmico do nervo trigémio. Pode causar:
- Dor e lesões na testa, pálpebras e ponta do nariz
- Envolvimento ocular (inflamação da córnea, úlceras, perturbações visuais)
- Risco de perda de visão se não tratada adequadamente e com urgência
Qualquer suspeita de zona perto dos olhos deve ser avaliada urgentemente por um médico.
Síndrome de Ramsay Hunt
Quando a zona afeta o nervo facial (VII par craniano), pode provocar a síndrome de Ramsay Hunt:
- Vesículas no pavilhão auricular ou canal auditivo
- Paralisia facial de um lado (paralisia de Bell)
- Perda de audição (hipoacusia)
- Tonturas e vertigens
- Alterações no paladar
Esta forma de zona requer tratamento urgente para limitar as sequelas permanentes.
Zona nos Idosos: Sintomas Mais Intensos e Maior Risco
A zona é significativamente mais grave em adultos com mais de 50 a 60 anos. Com o envelhecimento, a imunidade celular — responsável por manter o vírus sob controlo — diminui de forma natural.
Como a Zona Afeta Diferentemente os Idosos
- Dor mais intensa na fase aguda, frequentemente incapacitante
- Lesões mais extensas e com maior risco de infeção bacteriana secundária
- Recuperação mais lenta da pele
- Risco muito mais elevado de nevralgia pós-herpética (dor crónica)
- Maior probabilidade de hospitalização
Estudos portugueses e europeus confirmam que o impacto da zona na qualidade de vida de idosos é comparável a doenças como insuficiência cardíaca congestiva ou diabetes com complicações.
Nevralgia Pós-Herpética: A Complicação Mais Frequente
A nevralgia pós-herpética (NPH) é a complicação mais comum da zona e uma das causas mais frequentes de dor neuropática crónica em adultos.
O Que É e Quem Afeta
Define-se como dor persistente na região anteriormente afetada durante mais de 3 meses após o início do episódio de zona. Estima-se que afete:
- 10 a 15% de todos os doentes com zona
- Até 50% dos doentes com mais de 70 anos
Sintomas da Nevralgia Pós-Herpética
- Ardor ou queimadura constante
- Dor em facadas ou “choques elétricos”
- Alodinia — dor intensa provocada por estímulos normalmente inofensivos (toque da roupa, brisa)
- Hipersensibilidade ao frio e ao calor
- Formigueiro ou dormência persistente
- Perturbações do sono e depressão associadas
A NPH pode durar meses ou anos e tem um impacto severo na qualidade de vida, autonomia e saúde mental do doente.
Como Reconhecer a Zona Precocemente?
O diagnóstico precoce é fundamental porque o tratamento antiviral é muito mais eficaz quando iniciado nas primeiras 72 horas após o aparecimento das bolhas.
Sinais de Alerta nas Primeiras Horas
Deve suspeitar de zona se apresentar:
- Dor, ardor ou comichão localizada num lado do corpo, sem causa aparente
- Sensação de formigueiro ou choque elétrico numa região específica
- Hipersensibilidade cutânea — qualquer toque na zona afeta a dor
- Surgimento de manchas vermelhas seguidas de pequenas bolhas
- As bolhas distribuem-se em faixa, apenas num lado do corpo
Se estes sinais surgirem, não espere que as lesões se desenvolvam completamente — consulte um médico o mais rapidamente possível.
Quando Consultar um Médico
A zona requer avaliação médica em qualquer caso. No entanto, existem situações que exigem consulta urgente ou ida às urgências:
| Situação | Urgência |
|---|---|
| Dor + suspeita de zona (sem bolhas visíveis) | Consulte médico nas próximas horas |
| Aparecimento de bolhas características | Consulte médico nas 72 horas (SNS 24: 808 24 24 24) |
| Zona perto dos olhos / na testa | Urgência médica imediata |
| Zona no ouvido + fraqueza facial | Urgência médica imediata |
| Confusão mental, febre alta, rigidez da nuca | Ligue 112 |
| Dor crónica após cicatrização (>3 meses) | Consulte médico para gestão da dor |
| Pessoa imunodeprimida com qualquer suspeita | Consulte médico imediatamente |
SNS 24: 808 24 24 24 (disponível 24 horas) Emergência: 112
Tratamento da Zona
O tratamento é tanto mais eficaz quanto mais precocemente for iniciado. A base do tratamento inclui:
Antivirais
Os antivirais (aciclovir, valaciclovir, fanciclovir) são o pilar do tratamento. Quando iniciados nas primeiras 72 horas, podem:
- Reduzir a duração e gravidade da doença
- Diminuir a intensidade da dor na fase aguda
- Reduzir significativamente o risco de nevralgia pós-herpética
Após as 72 horas, os antivirais ainda podem ser úteis em casos graves, em idosos ou em doentes imunodeprimidos — decisão sempre do médico.
Controlo da Dor
A gestão da dor é essencial para a qualidade de vida durante a doença:
- Analgésicos (paracetamol, anti-inflamatórios) para dor ligeira a moderada
- Opioides em casos de dor severa, sob prescrição médica
- Cremes com lidocaína para alívio local
- Compressas frias podem aliviar o desconforto das lesões cutâneas
Tratamento da Nevralgia Pós-Herpética
Quando a dor persiste após a cicatrização, o médico pode prescrever:
- Anticonvulsivantes (gabapentina, pregabalina) — reduzem a dor neuropática
- Antidepressivos tricíclicos (amitriptilina) — eficazes para dor crónica
- Adesivos de lidocaína ou capsaicina aplicados na pele
- Bloqueios nervosos em casos refratários
Prevenção: A Vacina Contra a Zona em Portugal
A melhor estratégia para evitar a zona e as suas complicações é a vacinação. Em Portugal, existe vacina disponível para adultos com 50 ou mais anos.
O Que Saber Sobre a Vacina
- Reduz em mais de 90% o risco de desenvolver zona (vacina de subunidade recombinante)
- Em caso de infeção, diminui significativamente a gravidade e o risco de NPH
- Recomendada mesmo para quem já teve zona anteriormente
- Administrada em duas doses, com intervalo de 2 a 6 meses
- Disponível em Portugal — consulte o seu médico de família ou farmácia
A DGS (Direção-Geral da Saúde) e a OMS reconhecem a vacina contra o herpes zóster como uma intervenção eficaz de saúde pública, especialmente relevante para adultos mais velhos.
Perguntas Frequentes Sobre a Zona
Quanto tempo dura a zona?
A fase aguda da zona dura geralmente entre 2 a 4 semanas. As bolhas aparecem nos primeiros dias, transformam-se em crostas ao fim de 7 a 10 dias e cicatrizam em 2 a 4 semanas. No entanto, algumas pessoas — sobretudo idosos — podem ficar com dor persistente (nevralgia pós-herpética) durante meses ou anos após o desaparecimento das lesões cutâneas.
Qual a diferença entre varicela e zona?
Varicela e zona são causadas pelo mesmo vírus (VZV — vírus varicela-zóster), mas são doenças diferentes. A varicela é a infeção primária, que ocorre geralmente na infância e provoca bolhas generalizadas por todo o corpo, acompanhadas de febre. A zona é uma reativação do vírus que ficou adormecido nos gânglios nervosos; provoca uma faixa de bolhas num único lado do corpo, limitada ao trajeto de um nervo, e tende a ser mais dolorosa.
A zona pode voltar a aparecer?
Sim, é possível ter zona mais do que uma vez, embora seja pouco comum. Estima-se que cerca de 1 a 4% das pessoas tenha um segundo episódio. O risco é maior em pessoas com sistema imunitário comprometido (doentes oncológicos, transplantados, infetados com VIH) ou com stress crónico. A vacinação pode reduzir o risco de recorrência.
A zona é contagiosa?
A zona em si não se transmite de pessoa para pessoa, mas o líquido das vesículas contém o vírus varicela-zóster. Uma pessoa que nunca teve varicela nem foi vacinada pode contrair varicela (não zona) por contacto direto com esse líquido. Por isso, deve evitar contacto com grávidas sem imunidade, recém-nascidos e pessoas imunodeprimidas enquanto as bolhas não estiverem completamente secas.
A zona em idosos é mais grave?
Sim, a zona tende a ser mais grave e com complicações mais frequentes em pessoas acima dos 50-60 anos. Neste grupo etário, a dor é mais intensa, as lesões podem ser mais extensas e o risco de nevralgia pós-herpética — dor crónica após cicatrização — é significativamente mais elevado. Por isso, a vacinação é especialmente recomendada a partir dos 50 anos em Portugal.
Existe vacina contra a zona em Portugal?
Sim, existe vacina contra a zona (herpes zóster) disponível em Portugal para adultos com 50 ou mais anos. A vacina reduz significativamente o risco de desenvolver a doença e, em caso de infeção, diminui a gravidade dos sintomas e o risco de nevralgia pós-herpética. Deve consultar o seu médico de família para perceber se é elegível e se a vacina tem comparticipação no seu caso.
O que é a nevralgia pós-herpética?
A nevralgia pós-herpética é uma complicação da zona em que a dor persiste mais de 3 meses após o aparecimento das lesões cutâneas, mesmo depois de estas cicatrizarem completamente. Pode ser descrita como ardor, facadas, choque elétrico ou hipersensibilidade ao toque. Afeta sobretudo idosos e pode durar meses ou anos. O tratamento inclui analgésicos específicos, anticonvulsivantes e antidepressivos tricíclicos, sempre sob orientação médica.
Em Resumo: O Que Deve Reter Sobre a Zona
A zona é uma doença causada pela reativação do vírus da varicela que pode afetar qualquer adulto que tenha tido varicela. Embora seja mais frequente e grave em idosos, pode surgir em pessoas de qualquer idade com imunidade reduzida.
Os pontos mais importantes a reter:
- Reconheça os primeiros sinais — dor e ardor localizados antes de aparecerem as bolhas
- Procure médico nas primeiras 72 horas — o tratamento antiviral é muito mais eficaz nesta janela
- Atenção às formas graves — zona nos olhos ou zona com paralisia facial requerem urgência
- Considere a vacinação — especialmente se tiver 50 ou mais anos
- A nevralgia pós-herpética é tratável — não aceite viver com dor crónica sem procurar ajuda
Para qualquer dúvida, contacte o seu médico de família, o SNS 24 (808 24 24 24) ou, em situação de urgência, ligue para o 112.
Fontes: Serviço Nacional de Saúde (SNS), Direção-Geral da Saúde (DGS), Organização Mundial de Saúde (OMS), INSA.

