A gastrite é uma das condições digestivas mais frequentes em Portugal e em todo o mundo. Estima-se que afete dezenas de milhões de pessoas, muitas das quais desconhecem a sua existência — sobretudo nas formas crónicas, que podem evoluir silenciosamente durante anos. Em Portugal, a prevalência elevada de infeção por Helicobacter pylori torna este tema especialmente relevante: estudos indicam que entre 60% a 70% da população adulta portuguesa poderá estar infetada com esta bactéria, principal causa de gastrite crónica.
Neste guia, explicamos o que é a gastrite, quais os tipos existentes, como se manifesta, quais as causas mais comuns, de que forma é diagnosticada e tratada, e quando deve procurar ajuda médica. Toda a informação apresentada baseia-se em orientações do SNS 24, da Direção-Geral da Saúde (DGS) e de fontes médicas reconhecidas.
Aviso médico: Este conteúdo é meramente informativo e educativo. Não substitui uma consulta médica, não estabelece diagnósticos nem prescreve tratamentos. Se apresenta sintomas persistentes de gastrite, consulte o seu médico assistente ou contacte o SNS 24 pelo telefone 808 24 24 24. Em caso de emergência, ligue 112.
O Que É a Gastrite
A gastrite é uma inflamação da mucosa do estômago — a camada protetora que reveste a parede interna deste órgão. O estômago produz ácido gástrico e enzimas digestivas, e a mucosa tem a função de proteger as paredes do órgão contra estes agentes agressivos. Quando esta camada protetora se torna inflamada ou danificada, surgem os sintomas característicos de gastrite.
Como o estômago funciona e porque inflamamos
O estômago é um órgão muscular em forma de bolsa, responsável pela digestão mecânica e química dos alimentos. Produz diariamente entre 1,5 a 3 litros de suco gástrico, com um pH muito ácido (entre 1,5 e 3,5). A mucosa gástrica protege-se desta acidez através de uma camada de muco, que funciona como barreira protetora.
Quando esta barreira é comprometida — por bactérias, medicamentos, álcool, ácido bílis ou o próprio sistema imunitário — o ácido gástrico entra em contacto com a parede do estômago, desencadeando inflamação. Esta inflamação é o que chamamos de gastrite.
Gastrite vs. outras condições digestivas
É frequente confundir-se gastrite com outros problemas digestivos. A tabela seguinte resume as principais diferenças:
| Condição | O que é | Sintoma principal |
|---|---|---|
| Gastrite | Inflamação da mucosa do estômago | Dor epigástrica, azia, náuseas |
| Úlcera péptica | Ferida profunda na mucosa | Dor intensa em jejum, melhora ao comer |
| Refluxo gastroesofágico | Subida do ácido para o esófago | Azia que sobe, pirose retroesternal |
| Dispepsia funcional | Disfunção digestiva sem lesão visível | Indigestão, enfartamento pós-prandial |
| Infeção por H. pylori | Infeção bacteriana | Frequentemente assintomática ou com gastrite |
Tipos de Gastrite: Aguda e Crónica
Existem várias formas de classificar a gastrite, mas a distinção mais importante é entre gastrite aguda e gastrite crónica.
Gastrite Aguda
A gastrite aguda instala-se de forma súbita, geralmente em resposta a um agente agressor identificável. As causas mais frequentes incluem a ingestão excessiva de álcool, o uso de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) como o ibuprofeno ou a aspirina, uma infeção alimentar ou um período de stress físico intenso.
Os sintomas surgem habitualmente poucas horas após o agente agressor, e tendem a melhorar em dias a semanas com o afastamento da causa e o tratamento adequado. Em geral, a gastrite aguda tem bom prognóstico.
Gastrite Crónica
A gastrite crónica desenvolve-se de forma lenta e progressiva, muitas vezes sem sintomas evidentes durante anos. Pode ser causada por infeção persistente por Helicobacter pylori, uso prolongado de AINEs, consumo crónico de álcool ou por mecanismos autoimunes.
Com o tempo, a inflamação crónica pode provocar alterações permanentes na mucosa gástrica, incluindo metaplasia intestinal — uma transformação das células gástricas — que aumenta o risco de cancro gástrico. É por este motivo que o seguimento e o diagnóstico precoce são fundamentais.
Gastrite Atrófica
A gastrite atrófica é uma forma avançada de gastrite crónica, em que as células produtoras de ácido e de fator intrínseco são progressivamente destruídas. Esta condição pode resultar em:
- Anemia perniciosa — por défice de vitamina B12 (o fator intrínseco é essencial para a absorção desta vitamina)
- Hipocloridria — redução da acidez gástrica
- Risco aumentado de cancro gástrico
A gastrite atrófica autoimune é mais comum em mulheres idosas e pode associar-se a outras doenças autoimunes.
Como Reconhecer os Sintomas de Gastrite?
Os sintomas da gastrite variam consoante o tipo, a intensidade da inflamação e a causa subjacente. Em muitos casos, especialmente na gastrite crónica, a condição pode ser completamente assintomática.
Sintomas mais frequentes
- Dor ou ardor epigástrico — sensação de queimor ou pressão na parte superior e central do abdómen, abaixo do esterno
- Azia — sensação de ardor que pode subir até ao peito
- Náuseas — com ou sem vómitos
- Sensação de enfartamento — especialmente após as refeições, mesmo com pouca ingestão
- Arrotos frequentes — alívio temporário do desconforto
- Perda de apetite — por associação da comida à dor
- Indigestão — dificuldade em digerir, sensação de peso no estômago
Sintomas de gastrite em crianças
Nas crianças, a gastrite pode manifestar-se de forma diferente. Os sinais mais frequentes incluem dor abdominal recorrente (muitas vezes localizada ao redor do umbigo ou na parte superior do abdómen), náuseas, recusa alimentar, irritabilidade e, por vezes, vómitos. Em bebés e crianças mais novas, o choro após as refeições e a recusa do peito ou do biberão podem ser pistas.
É importante que qualquer criança com dor abdominal recorrente seja avaliada pelo pediatra, pois as causas são diversas e algumas requerem tratamento específico.
Sintomas de gastrite em idosos
Em pessoas com mais de 65 anos, a gastrite pode apresentar-se de forma atípica. A dor epigástrica pode ser menos intensa ou mesmo ausente, predominando sintomas como:
- Cansaço inexplicável
- Perda de peso progressiva
- Falta de apetite persistente
- Anemia (palidez, tonturas, cansaço)
- Alterações nos hábitos intestinais
Nos idosos, a gastrite atrófica é mais prevalente e o risco de complicações, incluindo o cancro gástrico, é maior. Por isso, o rastreio e o seguimento médico regulares têm particular importância neste grupo etário.
Sintomas de alarme que requerem atenção urgente
Existem sintomas que podem indicar complicações graves da gastrite, como hemorragia digestiva ou úlcera péptica, e que requerem avaliação médica urgente:
- Vómitos com sangue (hematémese) — vermelho brilhante ou cor de “borra de café”
- Fezes escuras e alcatroadas (melenas) — indicativo de hemorragia digestiva alta
- Dor abdominal súbita e muito intensa
- Perda de peso involuntária e rápida
- Dificuldade em engolir (disfagia)
- Palidez extrema, tonturas e fraqueza — sinais de anemia grave
Perante qualquer um destes sinais, procure urgência hospitalar imediatamente ou ligue 112.
Causas Mais Comuns de Gastrite
Infeção por Helicobacter pylori
A infeção por Helicobacter pylori é, a nível mundial, a causa mais frequente de gastrite crónica. Em Portugal, estima-se que entre 60% a 70% dos adultos estejam infetados, tornando o país um dos com maior prevalência na Europa Ocidental.
A bactéria instala-se na mucosa gástrica e provoca uma inflamação crónica que, se não tratada, pode evoluir para úlcera péptica, gastrite atrófica ou cancro gástrico. A maioria das pessoas infetadas não apresenta sintomas evidentes. Para mais informação, consulte o nosso artigo sobre Helicobacter pylori: Sintomas e Tratamento.
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs)
O uso regular de AINEs — como ibuprofeno, naproxeno, diclofenac ou aspirina em doses elevadas — é uma das principais causas de gastrite aguda e crónica. Estes medicamentos inibem a síntese de prostaglandinas, substâncias que ajudam a proteger a mucosa gástrica, tornando-a mais vulnerável ao ácido.
O risco é maior em pessoas idosas, em quem toma estes medicamentos em doses elevadas ou por longos períodos, e em quem os combina com corticosteroides ou anticoagulantes.
Consumo excessivo de álcool
O álcool irrita diretamente a mucosa gástrica, aumenta a produção de ácido gástrico e interfere com a barreira de muco protetora. O consumo excessivo agudo pode causar gastrite aguda, enquanto o consumo crónico favorece o desenvolvimento de gastrite crónica.
Stress físico intenso
A “gastrite de stress” pode desenvolver-se em doentes gravemente enfermos — após cirurgias de grande porte, queimaduras extensas, traumatismos graves ou internamentos prolongados em cuidados intensivos. Nestes contextos, a redução do fluxo sanguíneo para o estômago e as alterações hormonais comprometem os mecanismos protetores da mucosa gástrica.
Causas autoimunes
Na gastrite autoimune, o sistema imunitário do próprio organismo ataca as células produtoras de ácido e de fator intrínseco. Esta forma de gastrite é menos frequente, mas pode causar anemia perniciosa por défice de vitamina B12. Associa-se frequentemente a outras doenças autoimunes, como tiroidite de Hashimoto ou diabetes tipo 1.
Outras causas menos frequentes
- Refluxo biliar — o retorno de bílis do intestino para o estômago, que pode estar relacionado com problemas no pâncreas como a pancreatite
- Infeções virais — especialmente em doentes imunocomprometidos (CMV, HSV)
- Ingestão de substâncias corrosivas — em situações de intoxicação acidental ou intencional
- Radioterapia — quando incide sobre a região abdominal
Fatores de Risco
Alguns fatores aumentam a probabilidade de desenvolver gastrite:
| Fator de risco | Impacto |
|---|---|
| Infeção por H. pylori | Risco elevado de gastrite crónica |
| Uso regular de AINEs | Risco de gastrite aguda e úlcera |
| Consumo excessivo de álcool | Irritação direta da mucosa |
| Tabagismo | Agrava a inflamação e retarda a cicatrização |
| Idade avançada | Mucosa mais vulnerável, maior prevalência de H. pylori |
| Stress crónico | Pode agravar os sintomas digestivos |
| Dieta rica em sal e alimentos fumados | Associada a maior prevalência de H. pylori e cancro gástrico |
| Doenças autoimunes | Risco de gastrite atrófica autoimune |
Como É Diagnosticada
O diagnóstico de gastrite baseia-se na história clínica e no exame físico, podendo ser complementado por exames complementares.
Endoscopia digestiva alta
A endoscopia (gastroscopia) é o exame de eleição para o diagnóstico de gastrite. Permite visualizar diretamente a mucosa gástrica e, se necessário, realizar biópsias para análise histológica — fundamental para confirmar o tipo de gastrite, detetar H. pylori e excluir lesões malignas.
Testes para H. pylori
Existem vários métodos para detetar a infeção por H. pylori:
- Teste respiratório com ureia marcada (urease breath test) — não invasivo, muito fiável, recomendado para rastreio e confirmação de erradicação
- Teste antigénico nas fezes — não invasivo, boa sensibilidade
- Análise serológica — deteção de anticorpos no sangue; menos específica
- Biópsia endoscópica — gold standard, permite identificação direta da bactéria
Análises ao sangue
As análises laboratoriais podem revelar anemia (indicando possível hemorragia ou défice de B12), marcadores inflamatórios elevados ou anticorpos contra células parietais (na gastrite autoimune).
Tratamento da Gastrite
O tratamento da gastrite depende da causa identificada e da gravidade dos sintomas. O médico de família ou o gastrenterologista é quem melhor pode orientar o tratamento mais adequado a cada pessoa.
Tratamento da gastrite por H. pylori
Quando a causa é a infeção por H. pylori, o tratamento visa a erradicação bacteriana. As orientações internacionais mais recentes recomendam esquemas terapêuticos de 14 dias, combinando dois ou mais antibióticos com um inibidor da bomba de protões (IBP). As taxas de sucesso com estes esquemas são superiores a 90%.
Após o tratamento, é recomendado confirmar a erradicação através de um teste respiratório ou antigénico nas fezes, realizado pelo menos 4 semanas após o fim da antibioterapia.
Medicamentos para alívio dos sintomas
Independentemente da causa, vários medicamentos podem aliviar os sintomas:
- Inibidores da bomba de protões (IBP) — omeprazol, pantoprazol, esomeprazol — reduzem a produção de ácido gástrico; são os mais eficazes
- Anti-H2 — ranitidina, famotidina — também reduzem a acidez, mas com menor potência
- Antiácidos — proporcionam alívio rápido mas temporário
- Protetores da mucosa — sucralfato, subsalicilato de bismuto — formam uma camada protetora sobre a mucosa
Importante: Não tome medicamentos para o estômago sem orientação médica, especialmente de forma prolongada. Mesmo os IBP podem ter efeitos secundários com uso crónico.
Modificações na dieta
A alimentação tem um papel importante na gestão da gastrite. As recomendações gerais incluem:
- Fazer refeições pequenas e frequentes (5-6 por dia), evitando estômago muito cheio ou muito vazio
- Evitar alimentos picantes, ácidos, muito gordurosos ou fritos
- Reduzir ou eliminar o consumo de álcool e café
- Evitar bebidas gaseificadas
- Comer devagar e mastigar bem os alimentos
- Não deitar imediatamente após as refeições
Não existe uma “dieta para a gastrite” universal — a tolerância individual varia. A orientação por um nutricionista pode ser muito útil.
Suspensão ou substituição de AINEs
Se a gastrite for causada por anti-inflamatórios, o médico poderá recomendar a suspensão ou substituição por paracetamol (que não irrita a mucosa gástrica), ou a associação com um IBP para proteção gástrica nos casos em que a continuação do AINE seja indispensável.
Quando Consultar um Médico
Consulta programada
Consulte o seu médico de família se apresentar:
- Dor ou ardor epigástrico que persiste mais de duas semanas
- Azia frequente que não melhora com antiácidos
- Náuseas ou vómitos recorrentes
- Perda de apetite persistente ou perda de peso sem causa aparente
- Sensação de enfartamento precoce e frequente
- Suspeita de estar a tomar AINEs com frequência e querer proteção gástrica
- Antecedentes familiares de cancro gástrico (especialmente com sintomas digestivos)
Pode também contactar o SNS 24 pelo número 808 24 24 24 para orientação clínica sem sair de casa.
Procure urgência ou ligue 112 se tiver
- Vómitos com sangue ou com aspeto de “borra de café”
- Fezes negras, alcatroadas ou com sangue vivo
- Dor abdominal muito intensa e súbita
- Tonturas graves, desmaio ou palidez extrema
- Fraqueza marcada e incapacidade de se alimentar ou hidratar
Estes sinais podem indicar hemorragia digestiva ou outra complicação grave que requer cuidados urgentes.
Perguntas Frequentes Sobre Gastrite
Quanto tempo demora a curar a gastrite?
A gastrite aguda ligeira pode resolver-se em dias a uma ou duas semanas com o tratamento adequado. A gastrite crónica por H. pylori melhora significativamente após a erradicação bacteriana, mas a mucosa pode demorar vários meses a recuperar completamente. A gastrite crónica autoimune não tem cura, mas pode ser monitorizada e os sintomas geridos.
A gastrite pode provocar cancro?
A gastrite crónica por H. pylori, especialmente a que evolui para gastrite atrófica e metaplasia intestinal, está associada a um maior risco de cancro gástrico. No entanto, apenas uma pequena percentagem de pessoas com gastrite crónica desenvolve cancro. A erradicação precoce do H. pylori reduz significativamente este risco.
Posso fazer exercício com gastrite?
O exercício físico moderado não agrava a gastrite. Atividades de alta intensidade logo após as refeições podem aumentar o refluxo e o desconforto, pelo que se recomenda aguardar pelo menos uma hora após comer antes de fazer exercício intenso. A atividade física regular é benéfica para a saúde digestiva em geral.
Gastrite em Portugal: O que Saber
Portugal é um dos países europeus com maior prevalência de infeção por Helicobacter pylori, com taxas estimadas entre 60% a 70% na população adulta. Esta realidade tem consequências diretas: a gastrite crónica e as úlceras pépticas são problemas de saúde frequentes, e Portugal apresenta também uma das taxas mais elevadas de cancro gástrico da Europa Ocidental.
A erradicação do H. pylori, quando identificado, é considerada uma medida preventiva eficaz para reduzir o risco de cancro gástrico. As orientações da DGS recomendam o tratamento de todos os doentes com infeção ativa por H. pylori, independentemente da presença ou ausência de sintomas.
Para informação oficial e atualizada sobre saúde digestiva, consulte o SNS 24 e o portal da DGS.
Resumo: O Que Deve Recordar Sobre Gastrite
A gastrite é uma inflamação da mucosa do estômago que pode ser aguda (de início súbito) ou crónica (de evolução lenta). Em Portugal, a infeção por Helicobacter pylori é a causa mais frequente, mas o uso de anti-inflamatórios, o álcool e fatores autoimunes também têm um papel importante.
Os sintomas mais comuns incluem dor epigástrica, azia, náuseas e sensação de enfartamento, mas a gastrite crónica pode ser completamente silenciosa. O diagnóstico é feito pelo médico, com recurso a endoscopia e testes para H. pylori. O tratamento depende da causa e pode incluir antibióticos, protetores gástricos e modificações na dieta.
Nunca se autodiagnostique nem tome medicamentos para o estômago de forma prolongada sem orientação médica. Se os seus sintomas persistem ou se surgem sinais de alarme, consulte o seu médico ou contacte o SNS 24.
Informação elaborada com base em orientações do SNS, DGS, OMS e literatura médica de referência. Este conteúdo não substitui uma consulta médica.

