A fibrilhação auricular (FA) é a arritmia cardíaca crónica mais comum em todo o mundo e uma das condições cardiovasculares mais prevalentes em Portugal, afetando entre 200 000 e 250 000 pessoas. Apesar da sua frequência, continua a ser subdiagnosticada: estima-se que uma em cada três pessoas com FA não sabe que a tem, aumentando silenciosamente o risco de AVC, insuficiência cardíaca e morte.
Neste guia, baseamo-nos em informação da Direção-Geral da Saúde (DGS), da Fundação Portuguesa de Cardiologia, do SNS 24 e da Organização Mundial de Saúde (OMS) para explicar o que é a FA, quais os seus sintomas, quando consultar e de que forma é gerida no sistema de saúde português.
Aviso Médico: Este conteúdo é meramente informativo e não substitui avaliação médica profissional. Perante sintomas cardíacos ou palpitações persistentes, consulte o seu médico ou cardiologista. Em caso de emergência, ligue 112 ou contacte o SNS 24 (808 24 24 24).
O Que É a Fibrilhação Auricular
A fibrilhação auricular é uma arritmia cardíaca caracterizada por uma atividade elétrica caótica e descoordenada das duas aurículas (as câmaras superiores do coração). Em vez de se contraírem de forma organizada e eficaz, as aurículas “tremulam” a frequências de 350 a 600 impulsos por minuto, transmitindo sinais irregulares aos ventrículos (câmaras inferiores).
O resultado é um ritmo cardíaco totalmente irregular e frequentemente acelerado que pode ser sentido como palpitações, falta de ar ou cansaço. Em muitos casos, porém, a FA é completamente silenciosa.
O Coração Normal vs. O Coração com FA
No coração saudável, cada batimento começa com um impulso elétrico no nó sinusal (o marcapasso natural), que se propaga de forma ordenada pelas aurículas e depois pelos ventrículos, produzindo uma contração eficaz. Na FA, este processo é substituído por um caos elétrico:
- As aurículas contraem de forma fragmentada e ineficaz
- O nó auriculoventricular recebe impulsos irregulares e transmite-os de forma aleatória aos ventrículos
- O resultado é um batimento cardíaco totalmente irregular — a chamada arritmia completa
Esta desorganização tem duas consequências principais: redução da eficiência cardíaca (podendo causar sintomas e insuficiência cardíaca) e estase sanguínea nas aurículas (favorecendo a formação de coágulos e o risco de AVC).
Tipos de Fibrilhação Auricular
A FA não é uma condição única — apresenta-se em diferentes formas com implicações distintas para o prognóstico e tratamento:
| Tipo | Duração | Características |
|---|---|---|
| Paroxística | < 7 dias (geralmente < 48h) | Termina espontaneamente; episódios recorrentes |
| Persistente | > 7 dias | Não termina sozinha; necessita cardioversão |
| Persistente de longa duração | > 12 meses | Ritmo sinusal ainda possível de restaurar |
| Permanente | Crónica | Ritmo irregular aceite como definitivo |
| Silenciosa | Variável | Sem sintomas; descoberta por acaso |
A FA paroxística é a forma mais comum no diagnóstico inicial, mas tende a progredir para formas mais persistentes sem tratamento adequado.
Como Reconhecer a Fibrilhação Auricular? Sintomas Principais
Os sintomas da FA variam muito de pessoa para pessoa. Alguns doentes apresentam manifestações intensas que perturbam significativamente a qualidade de vida; outros nunca sentem nada. A intensidade dos sintomas não reflete necessariamente a gravidade da arritmia.
Sintomas Mais Frequentes
- Palpitações irregulares — sensação de coração a “saltar”, a “falhar batimentos” ou a bater de forma caótica
- Palpitações rápidas — coração acelerado e irregular, especialmente em repouso ou após esforço
- Falta de ar — dispneia com esforços que antes eram tolerados, ou mesmo em repouso
- Fadiga e cansaço — cansaço desproporcional ao esforço realizado; sensação de fraqueza generalizada
- Tonturas e vertigens — sensação de cabeça leve, especialmente ao levantar
- Intolerância ao exercício — dificuldade em realizar atividades físicas habituais
- Desconforto ou pressão no peito — sensação de aperto, peso ou dor torácica (menos comum)
- Pré-síncope ou síncope — sensação de desmaio iminente ou perda breve de consciência (menos frequente)
Fibrilhação Auricular Silenciosa
Uma característica particularmente preocupante da FA é a sua capacidade de ser completamente assintomática. Estima-se que 10 a 30% dos doentes com FA nunca sentem sintomas. Nestas pessoas, a primeira manifestação da doença pode ser um AVC ou uma embolia pulmonar — complicações com potencial devastador.
A FA silenciosa é mais prevalente nos idosos, nas pessoas com diabetes e naquelas com história de hipertensão arterial. O rastreio com ECG nos cuidados de saúde primários é fundamental para a detetar precocemente.
Sintomas da Fibrilhação Auricular em Idosos
Nos doentes mais velhos, o quadro clínico pode ser atípico e facilmente confundido com outros problemas de saúde:
- Cansaço e fraqueza sem causa aparente
- Confusão mental ou desorientação súbita
- Quedas frequentes
- Deterioração cognitiva
- Intolerância progressiva ao esforço
- Pioria de uma insuficiência cardíaca já conhecida
A menor atividade física dos idosos pode mascarar sintomas como a falta de ar, tornando o diagnóstico ainda mais difícil.
Sintomas da Fibrilhação Auricular na Gravidez
Embora a FA seja rara na gravidez, pode surgir em mulheres com cardiopatia prévia ou em contexto de hipertiroidismo gestacional. Os sintomas são semelhantes aos da população geral, mas qualquer palpitação irregular durante a gravidez deve ser imediatamente avaliada, dado o risco materno e fetal associado.
Causas e Fatores de Risco
Principais Causas
A FA pode ter diversas causas cardíacas e não cardíacas:
Causas cardíacas:
- Hipertensão arterial (a causa mais comum em Portugal)
- Doença das artérias coronárias
- Insuficiência cardíaca
- Valvulopatias (especialmente da válvula mitral)
- Miocardiopatias
- Pós-operatório de cirurgia cardíaca
Causas não cardíacas:
- Hipertiroidismo
- Apneia obstrutiva do sono
- Doença pulmonar obstrónica crónica (DPOC)
- Embolia pulmonar
- Infecções graves (sepsis)
- Consumo excessivo de álcool (“holiday heart syndrome”)
- Cirurgia não cardíaca
Fatores de Risco em Portugal
Os fatores de risco mais prevalentes na população portuguesa incluem:
| Fator de Risco | Prevalência Estimada em Portugal |
|---|---|
| Hipertensão arterial | ~42% dos adultos |
| Idade > 65 anos | FA em 9% desta faixa etária |
| Diabetes mellitus | ~13% dos adultos |
| Obesidade | ~22% dos adultos |
| Insuficiência cardíaca | ~5% dos adultos |
| Apneia do sono | >4% da população adulta |
| Consumo excessivo de álcool | Significativo em contexto português |
A hipertensão arterial é de longe o fator de risco mais importante em Portugal, presente em mais de metade dos doentes com FA.
Complicações: Por Que é Tão Importante Diagnosticar a FA?
A FA não tratada pode causar complicações graves, algumas com risco de vida:
AVC Cardioembólico
É a complicação mais temida. A contração ineficaz das aurículas favorece a estase sanguínea e a formação de coágulos, principalmente no apêndice auricular esquerdo. Estes coágulos podem fragmentar-se, seguir para a circulação cerebral e causar um AVC isquémico.
Os doentes com FA têm um risco 5 vezes superior de AVC em comparação com a população geral. Os AVCs associados à FA tendem a ser mais graves, com maior mortalidade e incapacidade permanente.
Insuficiência Cardíaca
A FA e a insuficiência cardíaca coexistem frequentemente e agravam-se mutuamente. A FA acelera o ritmo cardíaco de forma crónica, o que pode levar a uma cardiomiopatia induzida por taquicardia — uma forma de insuficiência cardíaca reversível se a FA for controlada atempadamente.
Outras Complicações
- Demência vascular — o risco de demência é 2 vezes superior em doentes com FA
- Embolia periférica — coágulos podem migrar para artérias dos membros, rins ou intestinos
- Morte súbita — risco aumentado, especialmente em contexto de doença cardíaca subjacente
Diagnóstico de Fibrilhação Auricular em Portugal
O diagnóstico de FA requer a demonstração do ritmo irregular num eletrocardiograma (ECG). Este exame simples, rápido e indolor pode ser realizado no médico de família, na urgência hospitalar ou em qualquer cardiologista.
Quando a FA é Intermitente
Na FA paroxística, o ECG em repouso pode ser normal se realizado fora de um episódio. Nestes casos, recorre-se a:
- Holter cardíaco — registo contínuo de 24 a 48 horas (ou mais) do ritmo cardíaco
- Registador de eventos — dispositivo externo que o doente ativa quando sente sintomas
- Monitor cardíaco implantável — pequeno dispositivo subcutâneo que monitoriza o ritmo durante meses a anos
O Papel dos Dispositivos Pessoais
Alguns smartwatches (como o Apple Watch, Samsung Galaxy Watch e Fitbit) e aplicações de registo de pulso têm a capacidade de detetar FA. Embora úteis como alerta, estes dispositivos não substituem o ECG médico para confirmação do diagnóstico. Se um dispositivo pessoal indicar FA, consulte o seu médico.
Quando Consultar um Médico
Procure o seu Médico de Família se Notar:
- Palpitações irregulares recorrentes, mesmo sem outros sintomas
- Cansaço persistente sem explicação aparente
- Falta de ar com esforços habituais
- Tonturas frequentes ou sensação de cabeça leve
- Um smartwatch ou dispositivo pessoal que detetou FA
Procure Urgência Hospitalar Imediatamente se Apresentar:
- Palpitações acompanhadas de dor ou pressão no peito
- Falta de ar intensa ou súbita
- Tonturas graves ou desmaio
- Desvio da boca, fraqueza ou dormência de um lado do corpo
- Dificuldade em falar ou compreender
- Visão turva súbita
Ligue 112 em caso de suspeita de AVC ou emergência cardíaca.
Para dúvidas não urgentes, o SNS 24 (808 24 24 24) está disponível 24 horas por dia para orientação.
Tratamento da Fibrilhação Auricular
O tratamento da FA tem três objetivos principais: controlo dos sintomas, prevenção do AVC e preservação da função cardíaca. As opções disponíveis em Portugal incluem:
Controlo do Ritmo vs. Controlo da Frequência
Controlo do ritmo — objetivo de restaurar e manter o ritmo sinusal normal:
- Cardioversão elétrica (choque sincronizado sob sedação)
- Antiarrítmicos (flecainida, amiodarona, propafenona)
- Ablação por cateter — procedimento minimamente invasivo que isola as veias pulmonares; é o tratamento mais eficaz para FA paroxística em doentes selecionados
Controlo da frequência — objetivo de manter a frequência cardíaca nos ventrículos abaixo de 110 bpm:
- Betabloqueantes
- Diltiazem ou verapamil
- Digoxina (menos utilizada)
Prevenção do AVC — Anticoagulação
A maioria dos doentes com FA necessita de anticoagulação crónica. Em Portugal, os medicamentos mais utilizados são os anticoagulantes orais de ação direta (NOAC/DOAC), como o apixabano, o rivaroxabano, o dabigatrano e o edoxabano, que substituíram progressivamente a varfarina por serem mais seguros e de mais fácil gestão.
A decisão de anticoagular é baseada na pontuação CHA₂DS₂-VASc, que avalia o risco individual de AVC tendo em conta fatores como a idade, o sexo, a hipertensão, a diabetes e a história de AVC anterior.
Estilo de Vida e Prevenção
Adotar hábitos saudáveis pode reduzir o risco de desenvolver FA e contribuir para o seu melhor controlo:
- Controlar a pressão arterial — a hipertensão não tratada é a principal causa de FA em Portugal
- Manter peso saudável — a obesidade aumenta o risco de FA e dificulta a manutenção do ritmo sinusal após ablação
- Reduzir o consumo de álcool — mesmo quantidades moderadas podem provocar episódios de FA
- Tratar a apneia do sono — o uso de CPAP reduz a recorrência de FA após ablação
- Exercício físico regular — atividade moderada é benéfica, mas o desporto de alta intensidade pode aumentar o risco de FA em alguns perfis
- Evitar cafeína excessiva — embora o impacto da cafeína seja controverso, doses elevadas podem desencadear episódios em pessoas suscetíveis
- Controlar o stress — técnicas de relaxamento podem contribuir para a estabilidade do ritmo cardíaco
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quais são os primeiros sinais de fibrilhação auricular? Os primeiros sinais de fibrilhação auricular podem incluir palpitações irregulares ou aceleradas, sensação de coração a “saltar” ou a “tremular”, cansaço incomum com esforços habituais e falta de ar ligeira. Em muitos casos, especialmente na forma silenciosa, não há sintomas e a FA é descoberta num electrocardiograma de rotina. Se notar palpitações irregulares persistentes, consulte o seu médico.
Quanto tempo pode durar um episódio de fibrilhação auricular? A duração varia consoante o tipo: na FA paroxística, os episódios terminam espontaneamente em menos de 7 dias (habitualmente em 48 horas); na FA persistente, o episódio dura mais de 7 dias e pode necessitar de cardioversão para reverter ao ritmo normal; na FA permanente, o ritmo irregular é contínuo e mantém-se de forma crónica. Mesmo episódios curtos aumentam o risco de AVC.
Qual a diferença entre fibrilhação auricular e taquicardia? A taquicardia é qualquer ritmo cardíaco acelerado (superior a 100 batimentos por minuto) e pode ser regular ou irregular. A fibrilhação auricular é um tipo específico de arritmia em que as aurículas contraem de forma caótica e irregular. Na FA o ritmo é sempre irregular e o risco de AVC é muito superior ao da maioria das taquicardias.
A fibrilhação auricular em idosos tem sintomas diferentes? Sim. Nos idosos, os sintomas clássicos como palpitações podem estar ausentes ou ser menos percetíveis. Os sinais mais frequentes incluem cansaço inexplicável, intolerância ao exercício, confusão mental, tonturas e quedas frequentes. A FA silenciosa é mais comum nos idosos, tornando o rastreio com ECG especialmente importante.
A fibrilhação auricular aumenta o risco de AVC? Sim, de forma muito significativa. A FA aumenta o risco de AVC em 5 vezes. Este risco deve-se à formação de coágulos nas aurículas que podem seguir para o cérebro. Por este motivo, a maioria dos doentes com FA necessita de anticoagulação crónica para prevenir o AVC.
Como é feito o diagnóstico de fibrilhação auricular? O diagnóstico é confirmado por eletrocardiograma (ECG). Quando a FA é intermitente, pode ser necessário um Holter ou registador de eventos para captar episódios. Smartwatches podem detetar FA, mas o ECG médico é obrigatório para confirmar.
A fibrilhação auricular tem cura? Em alguns casos, sim. A ablação por cateter pode eliminar a FA em doentes selecionados, sobretudo na forma paroxística. No entanto, recorrências são possíveis. Para a maioria dos doentes, o objetivo é o controlo do ritmo ou da frequência, a prevenção do AVC e a melhoria da qualidade de vida.
Quantas pessoas têm fibrilhação auricular em Portugal? Estima-se que entre 200 000 e 250 000 portugueses tenham fibrilhação auricular. A prevalência aumenta com a idade: afeta cerca de 9% das pessoas com 65 ou mais anos. Com o envelhecimento da população portuguesa, o número de doentes deverá aumentar significativamente.
Aviso Médico
A informação apresentada neste artigo tem fins exclusivamente educativos e informativos. Não constitui diagnóstico médico, prescrição de tratamento ou substituição de consulta médica. A fibrilhação auricular é uma condição cardíaca que requer avaliação e acompanhamento por profissional de saúde qualificado.
Perante qualquer sintoma cardíaco ou palpitação irregular persistente, consulte o seu médico de família ou cardiologista. Em caso de emergência, ligue 112. Para orientação não urgente, contacte o SNS 24 (808 24 24 24).
Referências: DGS | SNS 24 | Fundação Portuguesa de Cardiologia | Sociedade Portuguesa de Cardiologia | OMS

