Aviso médico: Este artigo tem fins informativos e não substitui consulta médica. A apneia do sono é uma condição clínica que requer avaliação e diagnóstico por profissionais de saúde. Se suspeitar que sofre de apneia do sono, consulte o seu médico de família. Em emergência, ligue 112 ou o SNS 24 (808 24 24 24).
A apneia do sono é uma das condições de saúde mais subdiagnosticadas em Portugal. Segundo dados publicados em março de 2026, a condição afeta entre 9% e 24% da população portuguesa, mas grande parte dos casos passa despercebida durante anos. Quem sofre de apneia do sono acorda todas as manhãs exausto, sem perceber porquê — e isso pode ter consequências graves para a saúde cardiovascular, metabólica e mental.
Neste guia, explicamos o que é a apneia do sono, como reconhecer os seus sintomas, quais as causas e fatores de risco, e quando deve pedir ajuda médica.
O Que É a Apneia do Sono?
A apneia do sono é um distúrbio respiratório do sono caracterizado por pausas repetidas na respiração durante a noite, com duração superior a 10 segundos. Cada pausa — chamada “apneia” — causa uma queda nos níveis de oxigénio no sangue, obrigando o cérebro a despertar brevemente para retomar a respiração. Este ciclo pode repetir-se dezenas ou mesmo centenas de vezes por noite, sem que a pessoa se lembre de nada ao acordar.
Tipos de Apneia do Sono
Existem três formas principais de apneia do sono, com causas distintas:
- Apneia Obstrutiva do Sono (AOS): a forma mais comum. Ocorre quando os músculos da garganta relaxam demasiado durante o sono, obstruindo as vias aéreas. É responsável pela grande maioria dos casos.
- Apneia Central do Sono: rara. O problema não é físico, mas neurológico — o cérebro não envia os sinais corretos aos músculos respiratórios. Está frequentemente associada a insuficiência cardíaca ou AVC.
- Apneia Mista: combinação das duas formas anteriores, geralmente começando como obstrutiva e evoluindo para central.
Por Que É Tão Subdiagnosticada?
Porque muitos dos sintomas — cansaço, sonolência, dificuldade de concentração — são facilmente atribuídos ao stress, ao ritmo de vida ou ao envelhecimento. Além disso, as pausas respiratórias ocorrem durante o sono, pelo que a pessoa não tem consciência delas. É frequentemente o parceiro de cama quem alerta para o problema.
Sintomas de Apneia do Sono: Como Reconhecer?
Os sintomas dividem-se em dois grupos: os que ocorrem durante a noite e os que se manifestam durante o dia.
Sintomas Noturnos
Os sinais que ocorrem enquanto dorme (frequentemente observados por outra pessoa):
| Sintoma | Descrição |
|---|---|
| Ronco intenso | Geralmente alto, irregular, com pausas e engasgos |
| Pausas na respiração | Visíveis para quem partilha a cama — a respiração para por 10 a 60 segundos |
| Engasgos e arquejos | A pessoa engasga-se ou arqueja ao retomar a respiração |
| Agitação durante o sono | Movimentos frequentes, posições incómodas |
| Noctúria | Levantar-se duas ou mais vezes para urinar |
| Boca seca ou dor de garganta ao acordar | Consequência de respirar pela boca |
| Sudorese noturna | Transpiração excessiva sem causa aparente |
Sintomas Diurnos
Os efeitos que sente quando está acordado, resultado do sono não reparador:
- Sonolência diurna excessiva: adormecer em situações inapropriadas (reuniões, televisão, ao volante)
- Cansaço persistente: sensação de nunca estar verdadeiramente descansado, mesmo após 8 ou mais horas de sono
- Dores de cabeça matinais: causadas pela queda de oxigénio durante a noite
- Dificuldade de concentração e memória: o sono fragmentado prejudica as funções cognitivas
- Irritabilidade e alterações de humor: resultantes da privação crónica de sono
- Diminuição da líbido: relacionada com alterações hormonais provocadas pelo sono de má qualidade
- Depressão e ansiedade: que podem surgir como consequência ou coexistir com a apneia
Como Reconhecer a Apneia do Sono em Si Mesmo?
Se não tem parceiro de cama que observe os seus sintomas noturnos, pode suspeitar de apneia do sono se:
- Acorda regularmente com a boca seca ou dor de garganta
- Sente-se cansado todas as manhãs, independentemente das horas dormidas
- Tem dores de cabeça frequentes ao acordar
- Adormece involuntariamente durante o dia
- Tem dificuldade em manter a concentração no trabalho
O Teste de Epworth (disponível nos centros de saúde) é uma forma simples de avaliar a sonolência diurna e pode ajudar o médico no rastreio inicial.
Causas e Fatores de Risco
Causas Estruturais
Na apneia obstrutiva, o problema é físico. As vias aéreas ficam bloqueadas por:
- Relaxamento excessivo dos músculos da língua e garganta
- Obesidade (gordura no pescoço que comprime as vias aéreas)
- Amígdalas ou adenoides aumentadas (especialmente em crianças)
- Desvio do septo nasal ou pólipos nasais
- Mandíbula pequena ou recuada (micrognatia)
- Língua de grande dimensão (macroglossia)
Fatores de Risco Mais Comuns
| Fator de Risco | Impacto |
|---|---|
| Excesso de peso / obesidade | O mais importante — duplica o risco |
| Sexo masculino | Os homens têm 2-3x mais risco que as mulheres antes da menopausa |
| Idade superior a 40 anos | A prevalência aumenta com a idade |
| Menopausa | Após a menopausa, o risco nas mulheres iguala o dos homens |
| Consumo de álcool | Relaxa os músculos das vias aéreas |
| Tabagismo | Aumenta a inflamação e retenção de líquidos nas vias aéreas |
| Sedativos e tranquilizantes | Relaxam os músculos e deprimem o reflexo de despertar |
| Dormir em decúbito dorsal | A posição de costas agrava a obstrução |
| História familiar | Predisposição genética para estruturas anatómicas de risco |
| Diabetes tipo 2 | Associação bidirecional com a apneia |
| Hipotiroidismo | Pode causar apneia por relaxamento muscular excessivo |
Apneia do Sono em Mulheres: Sinais Diferentes
Nas mulheres, os sintomas podem ser mais subtis e menos típicos. Em vez de ronco intenso, podem apresentar-se com insónia, fadiga crónica, depressão, cefaleias matinais e síndrome das pernas inquietas. Esta diferença de apresentação leva frequentemente a um diagnóstico tardio ou incorreto no sexo feminino.
Complicações da Apneia do Sono Não Tratada
A apneia do sono não é apenas um distúrbio do sono — é uma doença com consequências sistémicas graves quando não tratada:
Complicações Cardiovasculares
- Hipertensão arterial: as quedas repetidas de oxigénio ativam o sistema nervoso simpático, aumentando a pressão arterial
- Arritmias cardíacas: especialmente fibrilhação auricular
- Maior risco de AVC e ataque cardíaco
- Insuficiência cardíaca
Complicações Metabólicas
- Resistência à insulina e maior risco de diabetes tipo 2
- Dificuldade em perder peso (a privação de sono altera os hormônios do apetite)
- Síndrome metabólica
Complicações Neurológicas e Psicológicas
- Deficit cognitivo progressivo (memória, atenção, funções executivas)
- Maior risco de demência
- Depressão e ansiedade
- Acidentes de viação por sonolência (risco 3 a 7 vezes superior ao da população geral)
Diagnóstico: Como Saber Se Tem Apneia do Sono?
O diagnóstico de apneia do sono é feito por profissionais de saúde e envolve:
Consulta Médica Inicial
O médico de família é o primeiro passo. Avaliará os seus sintomas, historial médico, fatores de risco e poderá realizar questionários validados como a Escala de Sonolência de Epworth e o questionário STOP-BANG.
Estudo do Sono (Polissonografia)
O exame de referência para o diagnóstico é a polissonografia — um estudo que monitoriza, durante a noite, parâmetros como a respiração, os níveis de oxigénio, o ritmo cardíaco, os movimentos e as fases do sono. Pode ser realizado em laboratório do sono ou em casa (poligrafia respiratória), dependendo da suspeita clínica.
O resultado é expresso pelo Índice de Apneia-Hipopneia (IAH):
- Ligeiro: 5 a 14 eventos por hora
- Moderado: 15 a 29 eventos por hora
- Grave: 30 ou mais eventos por hora
Tratamento da Apneia do Sono
O tratamento depende da gravidade da apneia e das características individuais do doente.
CPAP: O Tratamento de Primeira Linha
O CPAP (Continuous Positive Airway Pressure) é o tratamento mais eficaz para a apneia moderada a grave. Consiste num aparelho que fornece um fluxo contínuo de ar pressurizado através de uma máscara, mantendo as vias aéreas abertas durante o sono.
- Melhora imediata da qualidade do sono e da sonolência diurna
- Reduz o risco cardiovascular
- Cobre o SNS na totalidade (com prescrição de hospital público), embora a espera possa ser longa
- Existem diferentes modelos de máscara (nasal, oronasal, almofada nasal) para maior conforto
Aparelhos de Avanço Mandibular
Para casos ligeiros a moderados, os dispositivos orais que avançam a mandíbula durante o sono podem ser eficazes. São fabricados por médicos dentistas com formação em medicina do sono.
Cirurgia
Em casos selecionados, pode estar indicada cirurgia para corrigir anomalias estruturais (amígdalas, septo, úvula, ossos da face). Reservada para doentes que não tolerem o CPAP e com causa anatómica identificada.
Mudanças no Estilo de Vida
Estas medidas podem complementar o tratamento ou, em casos ligeiros, ser suficientes:
- Perda de peso: uma das intervenções mais eficazes — a redução de 10% do peso pode diminuir o IAH em 26%
- Evitar álcool e sedativos: especialmente nas 4 horas antes de deitar
- Deixar de fumar
- Dormir de lado: evitar a posição de costas
- Tratar a congestão nasal: se necessário, com spray nasal ou cirurgia
Apneia do Sono em Grupos Específicos
Apneia do Sono em Crianças
Em crianças, a apneia do sono é frequentemente causada por amígdalas e adenoides aumentadas. Os sinais são diferentes dos adultos: respiração ruidosa, respiração pela boca, agitação noturna, enurese, hiperatividade e dificuldades escolares. O tratamento de primeira linha é geralmente cirúrgico (amigdalectomia/adenoidectomia).
Apneia do Sono em Idosos
Com o envelhecimento, a prevalência da apneia aumenta significativamente, podendo afetar até 30-40% dos maiores de 65 anos. Os sintomas podem ser atribuídos erroneamente ao envelhecimento normal. O tratamento com CPAP é eficaz nesta faixa etária e melhora a qualidade de vida, a função cognitiva e o risco cardiovascular.
Apneia do Sono na Gravidez
A gravidez aumenta o risco de apneia, especialmente no terceiro trimestre, devido ao ganho de peso, alterações hormonais e posicionamento. A apneia não tratada durante a gravidez pode estar associada a hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia e complicações para o bebé. Deve ser avaliada e tratada por profissionais de saúde.
Quando Consultar um Médico?
Deve consultar o seu médico de família se:
- Ronca de forma intensa e frequente
- Acorda com sensação de cansaço, mesmo após dormir várias horas
- O seu parceiro observou pausas na sua respiração durante o sono
- Sente sonolência excessiva durante o dia, especialmente ao volante
- Acorda frequentemente com engasgos, dores de cabeça ou boca seca
- Tem hipertensão de difícil controlo (pode estar relacionada com apneia não tratada)
Contactos de emergência em Portugal:
- Linha de Saúde SNS 24: 808 24 24 24 (24 horas, 7 dias por semana)
- Emergência: 112
- Centro de saúde: para marcação de consulta com médico de família
Prevenção e Cuidados em Casa
Embora nem sempre seja possível prevenir a apneia do sono (especialmente quando há causa anatómica ou hereditária), é possível reduzir o risco e a gravidade:
- Manter um peso saudável — a obesidade é o principal fator de risco modificável
- Praticar exercício físico regular — mesmo sem perda de peso, melhora o tónus muscular das vias aéreas
- Evitar álcool e sedativos antes de dormir
- Adotar a posição lateral para dormir (de lado)
- Tratar a congestão nasal crónica
- Manter horários regulares de sono e boa higiene do sono
- Deixar de fumar
Perguntas Frequentes Sobre Apneia do Sono
A apneia do sono tem cura?
Em muitos casos, é possível controlar completamente os sintomas com o tratamento adequado. Em crianças com apneia causada por amígdalas aumentadas, a cirurgia pode ser curativa. Em adultos, o CPAP controla eficazmente a condição enquanto é usado — se for interrompido, os sintomas regressam. A perda significativa de peso pode, em alguns casos, eliminar a apneia em adultos com obesidade.
Posso conduzir com apneia do sono?
A sonolência diurna causada pela apneia aumenta significativamente o risco de acidentes de viação. Em Portugal, a legislação prevê que doentes com apneia grave não tratada devem ser informados pelos profissionais de saúde sobre o risco de conduzir. O tratamento eficaz com CPAP restaura a capacidade de conduzir em segurança.
Quanto tempo demora a melhorar com CPAP?
A maioria das pessoas nota melhorias significativas na sonolência e no cansaço diurno já na primeira semana de utilização do CPAP. Os benefícios cardiovasculares acumulam-se a longo prazo, com meses a anos de uso regular.
Resumo: O Que Deve Saber Sobre Apneia do Sono
A apneia do sono é uma condição frequente, com graves consequências para a saúde se não tratada, mas que responde bem ao tratamento. Os pontos essenciais a reter:
- Afeta até 24% dos portugueses, mas a maioria não sabe que tem
- O ronco intenso e a sonolência diurna são os sinais de alerta mais importantes
- O diagnóstico é feito por polissonografia, pedida pelo médico
- O CPAP é o tratamento mais eficaz para casos moderados a graves
- O SNS cobre o tratamento, embora os tempos de espera possam ser longos
- Não tratar tem consequências cardiovasculares, metabólicas e cognitivas graves
Se reconhece estes sintomas em si ou num familiar, fale com o seu médico de família. A apneia do sono tem solução — o primeiro passo é o diagnóstico.
Este artigo foi elaborado com base em informação de fontes médicas credíveis, incluindo a Direção-Geral da Saúde (DGS), o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a Sociedade Portuguesa de Pneumologia e referências internacionais como a Organização Mundial de Saúde (OMS). Não substitui aconselhamento médico individualizado.

